Julgamento entra no quarto dia nesta quinta-feira Arquivo/Reginaldo Pimenta/Agência O Dia

Rio - O quarto dia de julgamento do ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho, e Monique Medeiros pelo assassinado do menino Henry Borel, ocorrido em março de 2021, começou nesta quinta-feira (27) com o depoimento de Kaylane de Oliveira Duarte Pereira, de 18 anos, filha da ex-namorada do parlamentar Natasha de Oliveira Machado. Aos prantos e muito abalada, ela relatou episódios recorrentes de agressões e afirmou ter sido vítima de afogamento em uma piscina pelo réu, em mais de uma ocasião.

Durante a oitiva, Jairinho saiu da sala de audiência a pedido da jovem, que é estudante de turismo na Universidade do Estado do Rio (UERJ). Em meio ao relato, ela afirmou que os dois se conheceram pouco antes dela completar 4 anos e que conviveram por cerca de mais três anos.
A vítima explicou que morava com a mãe no início do relacionamento, mas que depois passou a viver com a avó e nunca chegou a morar na mesma casa que Jairinho. Ainda assim, do meio para o fim do namoro, ela costumava ficar sozinha com o ex-vereador, que a buscava para sair a restaurantes e outros locais.
Ainda muito emocionada, Kaylane declarou se sentir culpada pela morte de Henry, por não ter exposto a violência sofrida na época. "Eu me senti muito culpada. Se eu tivesse falado, talvez não chegasse ao que chegou", contou.
Afogamento em piscina e agressões
Um dos lugares que os dois frequentavam, de acordo com a estudante, era semelhante a um motel. Apesar disso, ela negou qualquer envolvimento de cunho sexual.
"Nessas vezes, ele me dava socos na cabeça e falava que eram mocas. Ele apertava meu braço muito forte. Teve uma vez que fomos para um quarto que tinha uma piscina. Fomos para a piscina, na parte da garagem, e ele ficava me afundando até eu encostar no chão. Eu levantava, e ele afundava de novo, várias vezes. Teve uma vez que ele apertou meu braço muito forte, e tive que colocar gesso. Ele falava que, se eu falasse para minha mãe, ela ficaria muito triste. Então, nunca contei para minha mãe e minha avó”, contou.

Kaylane não deu certeza sobre a quantidade de vezes que passou por episódios como esses, mas acredita ter sido mais de cinco. Segundo a testemunha, Jairinho não deixava marcas, mas ela sempre ficava com muita dor na barriga, e que em um dos casos, chegou a ir a um hospital para fazer exames.

Ainda em depoimento, ela citou que o ex-vereador chegou a bater com sua cabeça na quina de uma parede e que nenhuma das agressões tinham justificativas.
Caso só foi revelado anos depois

Novamente em meio a lágrimas, Kaylane comentou tentar evitar relembrar o que passou. "É algo ruim, algo pesado. Não consigo saber o que é, mas é um vazio enorme. Uma sensação muito ruim", disse.

Segundo ela, o sentimento ruim também aparece quando se recorda de momentos em que estava com Jairinho no carro e fica ainda pior ao lembrar dos episódios na piscina.
Kaylane só revelou o caso à família após o término do relacionamento da mãe com Jairinho, quando tinha 7 anos.
"Minha avó e minha mãe falaram que eu chegava caladinha, mas logo me soltava de novo. Eu contei para a minha avó depois que eles terminaram, cerca de um ano depois. Eu estava vendo um programa de crime e passou uma criança que apanhava dos pais, eu comecei a chorar muito. Minha avó perguntou o que foi, eu não queria contar, mas acabei contando que ele me batia", afirmou.

Depois do fim do namoro, ela não relata que não teve mais contato com o ex-vereador, e que o pai dela só soube das agressões após a repercussão da morte de Henry Borel.

Após o assassinato, ela destaca ter ficado muito impactada com a notícia. 'A gente não tocava mais no assunto depois que eu falei com a minha mãe. Quando surgia o assunto, ele ganhava uma eleição, eu sempre saía de perto. Quando o caso do Henry aconteceu, apareceu em todos os lugares. Não tinha como fugir. Ia para a escola, e os professores comentavam sobre o caso; entrava nas redes sociais, e havia comentários sobre. Eu tinha poucas lembranças, só lembrava da cena da piscina. Eu comecei a lembrar dos episódios e fiquei mal. Foi horrível. Eu não queria falar sobre isso com ninguém. Eu não sabia contar direito e, toda vez que eu conto, eu revivo, sinto de novo", contou.
Ainda em plenário, o advogado Fabiano Lopes, que representa o ex-vereador, foi advertido pela juíza por repetir perguntas enquanto a vítima demonstrava sofrimento durante a fala. Mesmo assim, a defesa de  perguntou se a jovem havia tido contato com Leniel Borel, pai de Henry, antes do julgamento, o que foi confirmado por ela.
Em seguida, diante do estado emocional de Kaylane, a defesa de Monique Medeiros decidiu não fazer questionamentos. O depoimento durou cerca de 1h10. 
O julgamento acontece no 2º Tribunal do Júri da Capital, no Centro. Jairinho e Monique respondem por homicídio qualificado, tortura e outros crimes relacionados à morte de Henry, ocorrida em março de 2021. Até o momento, apenas cinco das 27 testemunhas listadas no processo foram ouvidas. A próxima a ser ouvida, ainda nesta quinta-feira (28), é Natasha, ex-namorada de Jairinho.  As oitivas devem durar ainda vários dias.
A reportagem tenta contato com a defesa de Jairinho para comentar a declaração. O espaço está aberto para eventuais manifestações.