Pai de Henry Borel, Leniel BorelReginaldo Pimenta / Arquivo O DIA

Rio - O pai do menino Henry, Leniel Borel, prestou depoimento nesta sexta-feira (29) no II Tribunal do Júri do Rio, no Centro, e afirmou acreditar que a ex-companheira, Monique Medeiros, agiu de forma premeditada antes da morte do filho, em março de 2021. O julgamento analisa a responsabilidade dela e do ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho, pelo falecimento da criança, então com 4 anos.

Ao longo do depoimento, Leniel reconstruiu os últimos dias de convivência com Henry e disse que algumas atitudes de Monique, vistas hoje à luz das investigações, passaram a ter outro significado. Segundo ele, a insistência da ex-mulher para que a criança retornasse ao apartamento no domingo, mesmo fora da rotina habitual, chamou sua atenção.

"Com todas as informações que eu tive acesso depois, eu passei a enxergar situações que antes eu não entendia. Hoje eu acredito que houve premeditação", afirmou.

A declaração levou a juíza Elizabeth Machado Louro a interromper momentaneamente o depoimento e observar que essa interpretação não havia aparecido em relatos anteriores prestados por Leniel durante a investigação.

Em um dos momentos mais emocionados da audiência, ele relembrou o fim de semana em que esteve com o filho antes da morte. Leniel contou que buscou Henry no condomínio Majestic, na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste, na manhã de sábado, acompanhado de um carro de aplicativo, e que a criança foi entregue por Monique e pela avó materna. Naquele momento, disse ter percebido uma marca no nariz e um hematoma na perna do menino, e perguntou sobre os ferimentos. Segundo ele, Henry respondeu que não sabia explicar como havia se machucado.

Leniel relatou que passou todo o sábado e o domingo com o filho. Contou que os dois estiveram com amigos na piscina do condomínio, foram a uma festa infantil em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e depois passaram em um shopping para comprar brinquedos. De acordo com o pai, a criança brincou, se alimentou normalmente e não demonstrou qualquer sinal de mal-estar.

No domingo pela manhã, abriram juntos os brinquedos comprados no dia anterior. Leniel lembrou ainda de um momento em casa em que colocou uma música católica para cantar com o filho e gravou um vídeo. Emocionado, afirmou que aquele foi o último registro que conseguiu fazer de Henry com vida.

No início da tarde, segundo o relato, ele, uma amiga da família e Henry almoçaram em um restaurante no Recreio dos Bandeirantes e depois seguiram para um parquinho no Américas Shopping. Durante esse período, Monique teria enviado mensagens cobrando que o menino fosse levado de volta naquele mesmo dia.

Leniel disse que estranhou a insistência. Segundo ele, a ex-professora não costumava pressionar dessa forma. Ao se aproximarem do condomínio Majestic, Henry perguntou se iria para a casa da avó, em Bangu, na Zona Oeste, ou para "a casa nova". Quando ouviu que voltaria para o apartamento da mãe, o menino teria ficado nervoso.

Ainda segundo Leniel, Henry passou a apresentar ânsia de vômito e se agarrou a ele ao chegar perto de Monique. "Ele não queria sair do meu colo", contou. O pai disse que tentou tranquilizar o filho e repetiu que Monique era "uma mãe boa", mas ouviu da criança que ela "não era boa". O menino, de acordo com o depoimento, só aceitou ir depois que ela prometeu que os dois sairiam daquela casa e procurariam outro lugar para morar.

Leniel também falou sobre o relacionamento com Monique e a separação do casal. Disse que os dois se conheceram em 2011, começaram a morar juntos poucas semanas depois e se casaram em 2012. Henry nasceu em maio de 2016. Segundo ele, a família viveu anos de rotina dividida entre Bangu, Recreio e períodos de trabalho embarcado no setor de petróleo e gás.

O pai contou que a separação ocorreu em outubro de 2020, após encontrar mensagens no celular de Monique. À época, ele não sabia com quem a ex-companheira se relacionava. No depoimento desta sexta, afirmou que só soube depois que o homem citado nas conversas era Jairinho.

Leniel também disse que sofreu intimidações desde a morte do filho. Alegou ter sido alvo de ataques e campanhas de descredibilização nas redes sociais e citou pressões vindas de familiares ligados a Jairinho. "Eu sei o que sofri. Tentaram me colocar como investigado e me atacar publicamente", declarou.

Jairinho não acompanhou o depoimento no plenário durante toda a oitiva. O ex-vereador deixou a sessão e pediu retorno ao presídio. Monique também não permaneceu até o fim. Ela passou mal durante o julgamento e deixou o tribunal.

O julgamento de Henry Borel entrou no quinto dia. Mais cedo, o júri ouviu o perito-legista Luís Carlos Leal Prestes, do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). No depoimento, ele disse aos jurados que a laceração hepática de Henry ocorreu em vida, descartou relação com manobras de reanimação e declarou que o menino "sofreu muito" antes de morrer.
O médico legista Luiz Airton Saavedra, assistente técnico da acusação, também depôs e reforçou a conclusão de que a criança morreu em decorrência de uma hemorragia interna provocada por laceração hepática e múltiplos traumatismos. Segundo o especialista, a dinâmica das lesões é incompatível com acidente doméstico ou com a tese da defesa de que os ferimentos teriam ocorrido durante o atendimento médico.

Henry morreu na madrugada de 8 de março de 2021, aos 4 anos, após dar entrada no Hospital Barra D’Or, na Barra da Tijuca. O caso provocou forte repercussão nacional. O ex-vereador é acusado de homicídio triplamente qualificado e tortura. Já Monique é acusada de homicídio por omissão e por descumprimento do dever de proteção do filho. Ambos negam participação na morte da criança.