Policiais civis realizam operação na comunidade Santa Marta, em BotafogoReginaldo Pimenta / Agência O Dia

Rio - A Polícia Civil realizou, na manhã desta terça-feira (23), uma grande operação para encontrar integrantes do Comando Vermelho na comunidade Santa Marta, em Botafogo, na Zona Sul. Equipes chegaram à região ainda durante a madrugada e houve intenso tiroteio. Um passageiro de um ônibus foi atingido por bala perdida.
Imagens que circulam nas redes mostraram turistas, no início da manhã, abrigando-se de tiros no Mirante Dona Marta, que possui vista panorâmica da cidade e costuma reunir dezenas de pessoas para ver o nascer do sol. O fotógrafo Ari Kaye, que estava no local, gravou um vídeo, mostrando a a intensidade dos disparos.
"Momentos que jamais imaginei passar. Tiroteio absurdo às 5h40. Os turistas todos deitados, que loucura! Nunca vivi isso, 20 minutos de tensão. Foi uma manhã de terror. Está todo mundo bem, graças a Deus", disse em postagens.
Carros também foram atingidos por disparos, assim como prédios residenciais no entorno da Praça Corumbá e da Rua São Clemente, dois dos principais acessos à comunidade.
Com a rotina alterada diante do tiroteio, moradores comentaram nas redes sociais sobre os momentos de tensão, com a presença de diversos policiais e helicópteros.
"Muito tiro no Dona Marta! Aqui no final da São Clemente está insuportável! Que guerra é essa, meu Deus?", escreveu um internauta. "Estava parecendo longe. Do nada, foi tão alto que parecia que o tiroteio estava na minha rua. Foi a hora que me escondi no corredor com meus bichos. É o cômodo mais protegido e sem janelas. Que caos", comentou outra pessoa.
Uma bala perdida atingiu um passageiro dentro de um ônibus. A vítima estava em um coletivo da linha 410 (Saens Pena x Gávea). O homem recebeu socorro, sendo encaminhado ao Hospital Municipal Miguel Couto, no Leblon, também na Zona Sul. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), o paciente foi liberado após atendimento.
Em nota, o Sindicato das Empresas de Ônibus da Cidade do Rio (Rio Ônibus) repudiou a rotina de violência e insegurança que o setor vive na cidade. "Casos como esse comprometem diretamente a vida e a segurança de passageiros e rodoviários. O transporte público precisa ser um ambiente seguro", diz o texto.
De acordo com a SMS, uma unidade de Atenção Primária da região suspendeu completamente o funcionamento para a segurança de profissionais e usuários.
Já a Secretaria Municipal de Educação (SME) informou que as escolas da região seguiram com funcionamento normal.
Colégios particulares tradicionais, como o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, a Escola Alemã Corcovado e o Santo Inácio, suspenderam as provas desta terça-feira (23), mas continuaram abertos, com aulas.
O Palácio da Cidade, uma das sedes oficiais da Prefeitura do Rio, na Rua São Clemente, também funcionou normalmente.
Operação
Agentes da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Capital (DRE-CAP) estiveram nas ruas para cumprir 44 mandados de prisão e 98 de busca e apreensão. Seis homens foram presos. Outros alvos já estavam encarcerados. Agentes apreenderam drogas, anotações do tráfico e uma granada não deflagrada.
A quadra da Mocidade Unida do Santa Marta, da Série Prata, foi alvo de um mandado de busca e apreensão. Procurada, a escola disse que foi surpreendida com a busca e apreensão em sua sede e garantiu que nenhum "de seus representantes legais, diretores ou responsáveis pela administração da entidade foi previamente comunicado acerca da existência de mandado judicial direcionado ao imóvel". Leia a nota completa na íntegra abaixo.
 
Segundo a corporação, a ação foi resultado de uma investigação desenvolvida por 22 meses, que identificou alvos estratégicos ligados à estrutura e à logística da facção. As apurações descobriram o responsável pela administração das atividades criminosas, como a coordenação do tráfico de drogas, a distribuição das funções entre integrantes e a manutenção do domínio territorial armado na localidade.
Ainda de acordo com a Civil, o objetivo da ação era promover a responsabilização criminal dos investigados, além de enfraquecer a estrutura financeira e operacional da facção. As diligências buscavam integrantes da organização, apreender armas, drogas e outros materiais relacionados à atividade ilícita, além de reunir novos elementos que contribuam para o avanço das investigações.
A operação contou com apoio de agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE) e do Departamento-Geral de Polícia da Capital (DGPC).
A ação fez parte da "Operação Contenção", uma ofensiva estratégica do Governo do Estado para conter o avanço territorial do Comando Vermelho. O objetivo é desarticular a estrutura financeira, logística e operacional da organização criminosa, além de prender traficantes que atuam na região.
Até o momento, mais de 360 criminosos foram capturados e outros 137 mortos em confronto. Também foram apreendidas cerca de 480 armas, sendo 190 fuzis, além de mais de 51 mil munições.
Nota da Mocidade Unida do Santa Marta na íntegra
"Na data de hoje, 23/06/2026 Mocidade Unida do Santa Marta foi surpreendida com a realização de medida de busca e apreensão em sua sede, por meio de informações posteriormente prestadas pela Polícia Civil, de que supostamente teria sido cumprido mandado judicial de busca e apreensão nas dependências de sua quadra durante a operação realizada na comunidade nesta terça-feira.

A Escola esclarece que nenhum de seus representantes legais, diretores ou responsáveis pela administração da entidade foi previamente comunicado acerca da existência de mandado judicial direcionado ao imóvel, tampouco recebeu, até o presente momento, cópia da ordem judicial, do respectivo mandado ou do auto de cumprimento da diligência.

A Mocidade Unida do Santa Marta é uma associação civil sem fins lucrativos, reconhecida por sua atuação cultural, social e comunitária, desenvolvendo atividades permanentes de interesse público, projetos sociais, ações educacionais e iniciativas culturais voltadas à população do Santa Marta de maneira regular e legal.

A eventual realização de diligência judicial em suas dependências não implica qualquer participação, envolvimento ou responsabilidade institucional da Escola em relação aos fatos investigados pelas autoridades. A entidade não é alvo de investigação conhecida e permanece à disposição dos órgãos competentes para prestar quaisquer esclarecimentos que se façam necessários.

A diretoria jurídica da Escola adotará as medidas cabíveis para obter acesso integral aos documentos relativos à diligência, a fim de verificar a extensão da ordem judicial, as circunstâncias de seu cumprimento e os eventuais prejuízos materiais ocasionados ao patrimônio da entidade.

A Mocidade Unida do Santa Marta reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência, a cultura e a defesa de seu patrimônio material e imaterial, preservando a reputação de uma instituição que há décadas serve à comunidade como espaço de trabalho, educação, cultura e cidadania."