Rio - O operador de máquina Natan Gutenberg, 27 anos, baleado durante um intenso tiroteio em Brás de Pina, na Zona Norte, recebeu alta no início da tarde desta terça-feira (7). Ele estava no carro com a filha de 11 anos no momento em que foi atingido no braço na noite de segunda (6).
"Eu só senti o impacto. Meu braço já estava estraçalhado, com muito sangue. O osso tinha quebrado e eu conseguia ver meu bíceps para fora. Um pedaço do meu braço ficou dentro do carro, que está cheio de marcas de tiros. Faço um apelo por mais segurança. Não dá para o povo carioca viver com esse medo constante de ir ao trabalho ou visitar a família. Ninguém aguenta mais. O Rio de Janeiro está muito caótico", disse Natan ao deixar o Hospital Getúlio Vargas.
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O operador revelou que a mulher, a professora Renata Pellegrini, de 31, tinha acabado de buscá-lo no trabalho e que os três haviam parado para ir a uma farmácia. Ele e a filha ficaram esperando no veículo enquanto a educadora foi até o estabelecimento.
"Minha filha estava no banco de trás do carro, a gente só parou para pegar um remédio na farmácia, e do nada começou um tiroteio muito forte, falei para ela abaixar, ela abaixou e eu também estava abaixando, mas do nada senti uma pancada e o braço já tinha estourado, o tiro entrou e atravessou o carro", afirmou.
Segundo ele, a família pretende se mudar da região. "Não dá pra viver assim nessa situação, a minha filha não pode nem ver sangue, viu meu braço naquela situação, achei que ela fosse ter um infarto, falei pra ela não olhar, ficar abaixadinha. A minha esposa estava na farmácia ainda, e minha filha continuou comigo no carro", acrescentou.
Natan também agradeceu aos profissionais de saúde e falou sobre a recuperação. "Só quero agradecer a Deus, ao 20ºBPM que prestou todo apoio até minha chegada ao hospital, a equipe médica e a enfermagem, que fizeram todo procedimento para recuperar meu braço. Está doendo bastante, mas agora é só ter repouso, tomar medicação, aguardar a recuperação e esquecer o ocorrido", frisou.
Socorro em meio ao tiroteio
Em meio ao confronto, Renata conta que conseguiu retirar a filha do carro e levá-la para os fundos da farmácia, enquanto funcionários do estabelecimento a ajudavam a prestar os primeiros socorros ao marido.
"Eu só consegui ouvir os disparos, estourou o vidro do meu carro e minha filha começou a gritar socorro, falou que ele estava ensanguentado e ele ficou falando que tinha perdido o braço. No meio do tiroteio, os funcionários da farmácia foram comigo, todo mundo com medo ao mesmo tempo, mas a gente foi lá, conseguimos pegar ela, escondi no fundo da farmácia e ele conseguiu abrir a porta e se jogar no chão para evitar ser atingido por outros disparos.", acrescentou.
Durante o socorro, a professora ressalta que o carro ficou travado por conta dos tiros e que, com a ajuda de moradores da região, precisou quebrar a porta.
"Deu algum problema no segredo e a gente precisou quebrar a porta, o vizinho entrou, ajudou. Eu vim para o hospital, parei uma viatura no meio da rua, eles vieram fazendo a escolta da gente até aqui o Getúlio Vargas. Eu não dormi nem uma hora essa noite, não tenho mais lágrimas pra chorar, a sensação era que a gente estava numa guerra, foram os dois minutos mais longos da minha vida", frisou.
Ela destacou também que a rua estava cheia no momento do ocorrido.
"Fizemos o caminho que a gente sempre faz, passamos pela Avenida Brasil, entramos dentro do mercado, que por ali a gente tem acesso a comunidade e segue para nossa casa. A gente estava precisando de uns itens de farmácia, a rua estava cheia, tinha criança soltando pipa, voltando da escola, gente chegando do trabalho. Eu estacionei o carro na frente da farmácia, pedi pra ele e para minha filha esperarem porque seria coisa rápida, eu ia entrar, pegar e sair, mas assim que eu me direcionei para o caixa começaram os tiros", explicou.
No caminho do hospital, a professora contou que pediu ajuda a uma viatura da polícia, que os acompanhou até a unidade.
"Por sorte ele conseguiu sobreviver, a gente chegou aqui no hospital e foram cenas apavorantes, eu nunca vi tanto sangue na minha vida, o braço dele chegou aqui pendurado. Inicialmente, foi pensado em amputação, mas felizmente tem profissionais maravilhosos aqui nesse hospital. Ontem o hospital estava lotado, não tivemos a oportunidade de agradecer, mais dois ortopedistas que foram enviados pelos céus, por Deus, pelo universo, e conseguiram fazer a recuperação do braço dele. Vai ser uma recuperação longa, ele teve uma fratura exposta", disse.
Natan tinha acabado de retornar de uma licença de dois meses e estava animado para voltar ao trabalho, mas a rotina foi interrompida pela violência.
"Nada te prepara pra ver a cena da pessoa que você ama baleada no chão, uma pessoa de bem, que trabalha, que acorda cedo todos os dias. Eu estava indo na farmácia comprar um item de higiene para limpar a mão porque ele é operador de máquina. Enquanto isso, a gente vê milhões de pessoas que não contribuem para sociedade e seguem aí impunes, enquanto meu marido foi vítima mais uma vez da falta de segurança pública e da violência do Rio de Janeiro", revelou Renata.
A família acredita que o operador tenha sido atingido por tiro de fuzil devido à gravidade do ferimento. "Estraçalhou completamente o braço dele e agora ele está lá com os pinos no braço. Meu carro foi completamente fuzilado, ele levou mais de seis tiros, o carro foi perfurado, tem sangue no meu carro", reforçou.
Por fim, a mulher fez um apelo a segurança pública. "A gente acorda sabendo que está vivo, mas não sabe se vai voltar para casa. Acho que isso precisa servir de alerta. A maioria de nós, moradores, acorda às 5h, pega transporte público e precisa passar pelas comunidades para trabalhar. A criminalidade precisa ser combatida para que pessoas como eu possam ir e vir sem medo de morrer no meio do caminho ou de perder um ente querido nesse processo", finalizou.
Complexo de Israel
Brás de Pina é um dos bairros que integra o Complexo de Israel, um dos principais pontos de domínio do Terceiro Comando Puro na cidade do Rio. O local leva esse nome devido ao domínio de Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, que é adepto de símbolos de Israel, como a Estrela de Davi.
Peixão está na mira das polícias Civil e Militar há mais de 10 anos, quando começou sua política de expansionismo violento para tomar territórios do Comando Vermelho.
O Complexo de Israel é formado por comunidades de bairros como Cordovil, Parada de Lucas, Vigário Geral e Brás de Pina.
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