Parque das Ruínas, em Santa Teresa, agora se chama Parque Glória MariaCleber Mendes/ Agência O Dia

Rio - Um grupo de moradores de Santa Teresa, na região central, recorre ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) e ao Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) para solicitar medidas de preservação do Parque Glória Maria, antigo Parque das Ruínas. A iniciativa inclui o pedido de celebração de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e a formalização do tombamento estadual do equipamento cultural para preservação do espaço. 
A mobilização surgiu após a constatação de que o parque não possui tombamento em nível estadual formalizado. Segundo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o local também não é tombado no âmbito federal. Atualmente, a única proteção patrimonial é o tombamento municipal.

Inaugurado em 1997, o espaço nasceu a partir da recuperação das ruínas do antigo Palacete Murtinho Nobre. O projeto foi concebido para preservar o patrimônio histórico, proteger a paisagem de Santa Teresa e oferecer atividades culturais compatíveis com o perfil residencial do entorno.

De acordo com os moradores, a proposta original teria sido gradualmente descaracterizada ao longo dos anos. Eles afirmam que parte da programação passou a privilegiar eventos de grande porte, atraindo públicos numerosos para uma área localizada em uma rua sem saída e em uma zona residencial.

"O que está em discussão não é um evento específico, mas o futuro de um equipamento cultural histórico e o modelo de gestão que queremos para ele. O Parque nasceu para preservar um patrimônio. Agora é o próprio patrimônio que precisa ser preservado", pontua uma das articuladoras do movimento, a jornalista e produtora cultural Daniela Kvassay.

A comunidade sustenta que o problema não se resume ao volume de frequentadores. Entre as reclamações estão impactos na mobilidade, aumento do fluxo de pessoas, barulho, dificuldades de fiscalização e riscos à preservação das estruturas históricas.

Moradora da Rua Murtinho Nobre, Lourdes Novaes acompanhou o processo que resultou na criação do parque ainda nos anos 1990. Na opinião dela, o equipamento se afastou da proposta que motivou sua implantação.

"O que se propôs para o parque foi completamente desvirtuado. Com o tempo, começaram a buscar atrações que reunissem mais público e não deveria ser este o objetivo, pois o parque tem características diferentes que precisam ser observadas", diz.

Lourdes viveu por décadas em uma casa vizinha ao parque. Segundo integrantes da mobilização, ela deixou recentemente o imóvel onde morava desde os anos 1960 após anos convivendo com os impactos provocados pela realização de eventos.

Outro nome à frente do movimento é Leonardo Farias, morador da região e autor de representações anteriores. Para ele, o principal desafio é a ausência de regras permanentes que atravessem diferentes administrações.

"O que buscamos é um instrumento permanente que assegure, independentemente da gestão ou do governo, a preservação do parque, o cumprimento das regras e o respeito à comunidade", afirma.

Os moradores relatam que mantêm conversas com sucessivas gestões do equipamento desde 2004. Nesse período, foram realizadas reuniões com secretários municipais, gestores culturais e órgãos públicos, além de denúncias encaminhadas ao Ministério Público e ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea).

Para o professor e historiador Milton Teixeira, a ausência de um tombamento estadual formalizado causa surpresa diante da relevância histórica do local. Milton lembra que o imóvel tem forte ligação com a história cultural do Rio de Janeiro. Segundo ele, a casa pertenceu originalmente à família de Joaquim Murtinho e ficou conhecida por ter sido lar de Laurinda Santos Lobo, uma das figuras mais emblemáticas da vida cultural carioca no início do século XX.

"A Laurinda utilizava a casa para realizar saraus e reunir artistas, intelectuais e personalidades da época. Depois da morte dela, o imóvel ficou abandonado e sofreu saques. Móveis e objetos desapareceram ao longo dos anos", explica.

O historiador destaca que, quando o imóvel foi recuperado nos anos 1990, não havia registros suficientes para uma reconstrução fiel da edificação original.

"Por não existir documentação completa sobre como a casa era originalmente, optou-se por preservar as ruínas que já tomavam conta do local. Foi assim que nasceu o Parque das Ruínas", lembra.

Para ele, o tombamento pode contribuir para fortalecer a preservação do espaço e ampliar investimentos.

"Vejo o tombamento como importante e propício para melhorias e investimentos. A casa originalmente dava festas, recebia encontros culturais, saraus. É bom ter festas, lançamentos e eventos culturais. Mas é preciso haver controle, fiscalização e ordem. Estamos falando de um lugar de extrema importância para a história de Santa Teresa e da cidade do Rio de Janeiro", opina.

O Governo do Estado, através do Inepac, informa que o processo relacionado ao pedido de proteção patrimonial do espaço já está em andamento.
Já a Prefeitura do Rio, administradora do espaço, esclarece que os eventos realizados no Parque Glória Maria seguem a legislação vigente e contam com o apoio de órgãos municipais, como a CET-Rio, responsável pelo ordenamento do trânsito, e a Comlurb, encarregada da limpeza urbana. Segundo a administração municipal, as atividades ocorrem dentro dos horários permitidos por lei e respeitam os limites de emissão sonora, que são monitorados em tempo real.

A Secretaria Municipal de Cultura afirma que mantém diálogo permanente com os moradores e que tem adotado medidas para reduzir impactos à vizinhança, como a revisão dos formatos dos eventos, a diminuição da duração de algumas apresentações e a criação de intervalos entre atrações.

A pasta destaca que o Parque Glória Maria tem como objetivo promover o acesso à cultura e à arte, conciliando sua vocação cultural com a preservação das características históricas, ambientais e paisagísticas do local. Por fim, reforça que permanece aberta ao diálogo com a comunidade para aperfeiçoar a gestão do espaço e garantir que as atividades ocorram de forma responsável e em conformidade com a legislação.