Munições apreendidas no Complexo do Alemão, no Rio de JaneiroMarcello Casal Jr/Agência Brasil

Um estudo sobre a origem e as rotas de abastecimento das munições de fuzil usadas pelo Comando Vermelho (CV), uma das maiores facções criminosas do país e a maior do Rio de Janeiro, mostra que a organização passou a ter acesso a cartuchos que haviam sido destinados inicialmente às forças de segurança pública.
A pesquisa, intitulada “De onde vem o tiro? Análise sobre origem e rotas de abastecimento das munições de fuzil do Comando Vermelho”, foi realizada pelo Instituto Sou da Paz e analisou 31.699 munições vinculadas à organização criminosa em 29 casos judiciais, entre 2018 e 2025.
Nesse período, ocorreu a megaoperação mais letal da história do Rio de Janeiro, em 28 de outubro de 2025. Na Operação Contenção, o CV conseguiu sustentar 14 horas de tiroteio contra milhares de policiais. O estudo destaca que essa capacidade bélica não depende apenas dos fuzis: as munições também fazem parte da infraestrutura que sustenta o poder das organizações criminosas.
Entre os cartuchos analisados, 31.205 eram originais de fábrica. Desses, 40,9% foram fabricados no Brasil. Entre as munições nacionais, 51,9% apresentavam código de rastreabilidade institucional, indicando que haviam sido inicialmente adquiridas pelas Forças Armadas ou por instituições públicas de segurança e, posteriormente, desviadas para abastecer a facção.
O levantamento também identificou que, em seis dos 29 casos analisados, os envolvidos tinham acesso legal privilegiado à munição. Eram militares ou policiais, da ativa ou da reserva, Colecionadores, Atiradores e Caçadores (CACs) ou pessoas que se enquadravam nas duas condições. 
Segundo Bruno Langeani, autor do estudo e consultor sênior do Instituto Sou da Paz, esses grupos possuem cotas de compra maiores que as de um cidadão comum e podem ter acesso a redes de contatos que facilitariam o desvio e dificultariam a fiscalização. 

Munições de outros países

Embora 40,9% das munições originais de fábrica fossem brasileiras, outros países também aparecem entre os locais de fabricação identificados pelo estudo. Cerca de 28,1% eram provenientes da Rússia, 14,1% dos Estados Unidos, 4,6% da Suíça e 3,4% do Paraguai.
 
Distribuição das munições apreendidas, por país de fabricação (2018 - 2025) - Reprodução/Instituto Sou da Paz
Distribuição das munições apreendidas, por país de fabricação (2018 - 2025)Reprodução/Instituto Sou da Paz
O Brasil é um dos países pioneiros na exigência de códigos de rastreabilidade gravados nas munições destinadas à venda para instituições públicas. A marcação permite identificar o lote e, consequentemente, o comprador institucional ao qual aquela munição foi originalmente destinada.
Segundo o estudo, o código alfanumérico individualiza lotes de até 10 mil cartuchos e permite identificar o comprador institucional, além de facilitar o controle da distribuição entre unidades e integrantes. Com isso, em tese, seria possível localizar o ponto em que a munição deixou a cadeia legal e responsabilizar os envolvidos no desvio.
Na análise, foram identificados 119 códigos de rastreabilidade transcritos nos laudos das munições brasileiras apreendidas. No entanto, o estudo conseguiu identificar a instituição pública compradora em apenas 34 deles.
A Polícia Militar do Distrito Federal liderou o número de cartuchos apreendidos com códigos vinculados a uma instituição, seguida pela Secretaria de Segurança de Mato Grosso e pela Polícia Militar do Rio de Janeiro.
 
Cartuchos e lotes rastreados, segundo a instituição compradora identificada (2018 - 2025) - Reprodução/Instituto Sou da Paz
Cartuchos e lotes rastreados, segundo a instituição compradora identificada (2018 - 2025)Reprodução/Instituto Sou da Paz
Os números, porém, não permitem afirmar que essas instituições sejam responsáveis pelos maiores volumes de munição desviada para o Comando Vermelho. Isso porque a maior parte dos códigos encontrados nos laudos não pôde ser rastreada até o comprador.

Munições recentes indicam possíveis desvios próximos à cadeia legal

O estudo também chama atenção para a idade das munições. Entre os cartuchos que tinham o ano de fabricação identificado, quatro em cada dez haviam sido fabricados até dois anos antes da apreensão.
Para os pesquisadores, a presença de munições tão recentes entre os cartuchos apreendidos pode indicar que parte dos desvios ocorreu pouco tempo depois de sua fabricação ou aquisição.
“O principal achado é a parcela de munição com até dois anos, categoria que aproxima o conceito de time to crime inferior a três anos usado pela ATF como possível indicador de tráfico. Munições recentes apreendidas com uma facção sugerem desvio recente e uma cadeia de custódia com maior potencial de reconstrução”, aponta o estudo.

Falhas no rastreamento 

O estudo identificou problemas no monitoramento e no rastreamento das munições. Um deles é que a identificação dos códigos costuma ser solicitada diretamente à fabricante, a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), em vez de ser feita a partir de um sistema próprio do órgão regulador responsável pela fiscalização da produção e da comercialização de munições, o Exército Brasileiro.
Na prática, isso faz com que forças de segurança dependam da própria empresa fabricante para obter informações utilizadas na reconstrução da trajetória dos cartuchos apreendidos.
“Essa dependência transfere à empresa regulada uma função central na reconstrução da cadeia de custódia em explícito conflito de interesse, especialmente quando a informação solicitada pode revelar falhas de produção, de registro, de comercialização ou de cumprimento das regras de marcação”, diz o estudo.
Outro problema apontado pelo levantamento é o tamanho dos lotes associados a um mesmo código. Segundo o estudo, códigos que deveriam ser destinados a lotes de até 10 mil cartuchos foram aplicados a volumes próximos ou superiores a 100 mil unidades.
Quanto maior o número de munições que compartilha uma mesma marca de rastreabilidade, maior é também o universo de locais, unidades e pessoas que precisam ser investigados para descobrir onde ocorreu o desvio.
Outro ponto levantado pelo estudo é a munição adquirida legalmente por civis. Segundo Langeani, as vendas de munição de fuzil para esse público aumentaram significativamente a partir de 2019. 
"Quando o governo Bolsonaro e o Exército permitiram que um atirador tivesse até 30 fuzis, com cota de mil cartuchos por arma por ano, abriram brechas amplas, e os dados indicam que o Comando Vermelho soube aproveitá-las". 
Os dados apresentados pelo pesquisador mostram que as vendas de munição de fuzil a civis passaram de cerca de 69 mil cartuchos por ano, em 2018 e 2019, para aproximadamente 4,1 milhões por ano entre 2020 e 2022. 
O Instituto Sou da Paz afirma que, quando as autoridades não investigam a origem das munições apreendidas, as fontes de abastecimento permanecem desconhecidas e os pontos vulneráveis da cadeia legal continuam permitindo novos desvios.

Pesquisa encontrou obstáculos para mapear a origem

Para chegar aos 29 casos analisados, os pesquisadores precisaram buscar os processos judiciais individualmente. Isso porque não existe uma base pública que reúna apreensões de munições vinculadas a facções criminosas.

“A primeira foi encontrar os casos. Não há base pública que vincule apreensões a facções, então buscamos processo por processo em tribunais, com apoio da Defensoria Pública em parte deles. Chegamos a 29 casos e 31.699 cartuchos com vínculo comprovado ao Comando Vermelho”, explica Langeani.

O pesquisador ressalta que o levantamento não é uma amostra representativa de todo o mercado ilegal de munições do país. Ainda assim, considera relevante o volume de cartuchos analisados, especialmente porque as informações foram obtidas a partir de laudos periciais.

A segunda dificuldade foi a qualidade desigual dos laudos. Em muitos casos, os documentos não registravam informações como marca, ano de fabricação ou código de rastreabilidade.

Também houve limitações no acesso a informações oficiais. O pedido feito ao Exército por meio da Lei de Acesso à Informação foi respondido apenas parcialmente.

De acordo com Langeani, a falta de dados também aparece nos estados. O Rio de Janeiro é, segundo ele, o único estado que publica regularmente informações sobre munições apreendidas.

“Isso mostra o quanto o tema ainda é invisível na política de segurança.”

Estudo propõe mudanças

Diante dos problemas identificados, o estudo apresenta uma série de medidas para aumentar o controle sobre a cadeia de produção, comercialização e distribuição de munições.
Entre as recomendações estão:
  • Estender a marcação rastreável às munições destinadas ao mercado civil, sejam elas fabricadas no Brasil ou importadas, mantendo a vinculação entre sublote, embalagem, venda e comprador;
  • Fiscalizar o limite máximo de 10 mil cartuchos do mesmo tipo e calibre por código e adotar sublotes menores para as aquisições;
  • Manter registros eletrônicos do código desde o recebimento na fábrica até a entrega ao usuário, passando por treinamento, operação, consumo, devolução, perda ou descarte;
  • Criar alertas para divergências de estoque, perdas recorrentes, compras incompatíveis com renda ou atividade e consumo atípico por pessoas físicas e jurídicas;
  • Priorizar investigações sobre rotas, depósitos e intermediários, já que apreensões realizadas durante o transporte ou em locais de armazenamento concentram volumes maiores de munição e podem ajudar a identificar os pontos de abastecimento;
  • Criar uma base nacional que possa ser consultada por órgãos autorizados para cruzar informações sobre lotes, ocorrências, laudos e investigações administrativas.