Aline Derradi, professora no Ciep 320 Ercília Antônio da SilvaDivulgação/ Ellan Lustosa/ Seeduc-RJ

Muito além da sala de aula, professores transformam vidas, superam desafios e constroem caminhos para o futuro. No Rio de Janeiro, histórias de profissionais da educação que fazem a diferença dentro e fora das escolas revelam a importância de quem dedica a vida ao ensino. Neste Dia dos Professores, celebrado nesta quinta-feira (15), conheça trajetórias que inspiram e ajudam a transformar a realidade fluminense.
É na comunidade do Timbau, na Maré, Zona Norte, que a diretora Alessandra Aguiar, 53 anos, encontrou uma maneira de transformar as dificuldades enfrentadas pelos alunos em oportunidades de aprendizagem. À frente do GET IV Centenário há 15 anos, a educadora criou o projeto "Fábrica de Sonhos: Uma Maré de Possibilidades" para ajudar as crianças a lidar com as emoções e a enxergar novas perspectivas para o futuro. A escola atende aproximadamente 260 estudantes do Ensino Fundamental I e está entre as dez melhores do mundo.

A iniciativa nasceu da observação de situações recorrentes na rotina escolar. Em dias de operações policiais e episódios de violência na comunidade, Alessandra percebia que algumas crianças chegavam à unidade mais quietas, tristes e desmotivadas, além de apresentarem dificuldades de concentração.

"Às vezes, o corpo estava presente, mas era possível perceber que emocionalmente elas precisavam de outra coisa antes de começar a aprender. Eu recebia dos professores as situações, eu via as carinhas das crianças e conversava com elas, ouvia os relatos dos responsáveis e como gestora, eu me perguntava: como podemos exigir que uma criança esteja pronta para aprender se, naquele momento, ela precisa primeiro se sentir segura e escutada? Essa pergunta provocou uma mudança importante no nosso olhar", conta a professora, em entrevista ao O DIA.

A partir dessa inquietação, Alessandra e a equipe pedagógica passaram a incorporar práticas de acolhimento emocional à rotina dos estudantes. A iniciativa deu origem a atividades que estimulam a escuta, o diálogo e a expressão dos sentimentos, como o Café com Música e Prosa e o termômetro das emoções.

"Foi assim que começamos a construir práticas que deram origem à Fábrica de Sonhos. Criamos momentos em que a escuta, a música, a conversa e a expressão das emoções passaram a fazer parte da rotina escolar. Hoje, por exemplo, temos o Café com Música e Prosa, realizado nos primeiros 20 minutos do dia, além do termômetro das emoções, que ajuda as crianças a reconhecerem e expressarem como estão se sentindo", diz a diretora.

A relação de Alessandra com a educação começou ainda na infância. Filha de uma professora, ela cresceu nas escolas em que a mãe trabalhava e se identificou desde cedo com o ambiente escolar. Aos 15 anos, ingressou no Instituto de Educação de Niterói, onde iniciou sua formação como educadora.

Ao chegar à universidade, decidiu seguir outro caminho. Embora gostasse da área escolhida inicialmente, não se sentia plenamente realizada. Após concluir a graduação, surpreendeu a família ao ingressar no curso de Pedagogia, no qual encontrou sua vocação.

"Depois que comecei a trabalhar em escolas, aos 15 anos, nunca mais troquei de profissão, mesmo tendo escolhido outro caminho na faculdade. Foi no curso de Pedagogia que me encontrei e tive a certeza de que era na educação que eu queria seguir", lembra.

A experiência profissional e os anos de atuação na Maré fortaleceram sua convicção de que a escola precisa ser um espaço de proteção, pertencimento e aprendizagem, especialmente em territórios marcados por desigualdades e situações de violência. Para a diretora, oferecer oportunidades e valorizar as potencialidades dos estudantes é fundamental para que eles possam construir seus próprios caminhos.

"Meu maior sonho é que nenhuma criança tenha seu futuro limitado pelas circunstâncias em que nasceu ou pelo território onde vive. Quero continuar construindo uma escola pública que ofereça oportunidades reais de aprendizagem, acolha as diferenças, valorize as potencialidades e prepare nossas crianças para participar do mundo com autonomia, criatividade e consciência crítica", completa.
Neste Dia dos Professores, Alessandra também destaca a importância do trabalho coletivo para os resultados alcançados pela escola. Segundo ela, o comprometimento da equipe pedagógica é fundamental para oferecer uma educação de qualidade e fazer a diferença na vida dos estudantes e de suas famílias.

"São profissionais que não fogem dos desafios e fazem a diferença todos os dias. Ao mundo, digo: nunca subestimem a importância do trabalho realizado pelos professores. Cada gesto, cada palavra e cada esforço podem transformar vidas. Aos professores, eu diria: sei que ser professor exige muito: estudo, compromisso, sensibilidade e, especialmente em contextos de adversidade, uma força que muitas vezes nem sabemos que temos, mas continuem acreditando na potência de cada criança. Um olhar, uma palavra e um gesto podem mover montanhas. Nós fazemos a diferença todo dia na vida de uma família", conclui.

Professora de arte transforma escola em ateliê

No Ciep 320 Ercília Antônio da Silva, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a arte faz parte do cotidiano e se tornou uma forma de estimular a criatividade, a expressão e a aprendizagem dos estudantes graças a uma professora. À frente dessa iniciativa está Aline Derradi, que há 12 anos desenvolve projetos para levar a cultura para além dos livros e transformar diferentes ambientes da unidade em espaços de criação.

"Quero trazer luz e conhecimento para a vida destes jovens. Esse é um diferencial, um escape para eles. Tratamos esse momento como a cereja do bolo na vida de cada um. Nossa sala de aula é diferente, tem jeito de ateliê, e aqui a imaginação floresce", conta a professora.

A proposta vai além das atividades em sala de aula. Ao longo dos anos, as produções artísticas e os projetos que envolvem a comunidade escolar passaram a ocupar outros espaços da unidade. A preparação das atividades inclui planejamento fora do horário de aula e o reaproveitamento de materiais que seriam descartados, incorporando a sustentabilidade às experiências propostas aos alunos.

"Isso é a realização de um sonho. Nossa movimentação gerou tudo isso aqui. É um trabalho em equipe. Sozinho, ninguém faz nada. Ver a felicidade dos alunos, aprendendo e se divertindo, faz com que tudo valha a pena. Estamos colhendo alegrias", afirma a professora idealizadora do projeto.

"A Aline, além de ótima professora, nos dá muitos conselhos e força para seguir no caminho do bem e da educação", afirma Maria Isabel Moraes, de 14 anos, aluna do 8º ano do Ensino Fundamental.

De aluna a professora

Aos 6 anos, Rejany Oliveira descobria o mundo nas salas de aula da UMEI Julieta Botelho, em Niterói. Anos depois, retornou à Rede Municipal de Educação, desta vez como professora na UMEI Nilo Neves. Filha da escola pública, Rejany construiu toda a sua trajetória educacional em instituições públicas, da Educação Infantil ao mestrado em uma universidade federal. Foi nas experiências vividas como estudante que encontrou inspiração para seguir a carreira docente e contribuir para a formação de novas gerações.
"Sou filha da escola pública e sou uma prova de como a educação pública transforma a nossa vida. Quando lembro da menina de seis anos que estudava na Julieta Botelho, de tudo o que aprendi e vivenciei, é muito emocionante perceber que hoje estou aqui, como professora, podendo contribuir para que outras crianças tenham experiências tão importantes quanto as que eu tive. Encontrei na educação uma maneira de fazer a diferença, de realizar um trabalho que tenha sentido e valor", conta a professora.

Hoje, na sala de aula, Rejany procura proporcionar às crianças o mesmo sentimento de pertencimento e encantamento que marcou sua infância. Para ela, ensinar vai além da transmissão de conhecimentos: é construir vínculos, despertar a curiosidade e tornar a aprendizagem uma experiência prazerosa para estudantes e educadores.

"Procuro sempre oferecer uma educação que faça sentido para as crianças e que também seja prazerosa para elas. Quando percebemos que aquilo que fazemos tem importância, que traz alegria e significado para a vida das crianças, isso também dá sentido ao nosso trabalho. É muito gratificante fazer parte dessa Rede e poder contribuir para a história de outras pessoas", diz.

Envelhecimento da categoria

Dados divulgados em setembro pelo Instituto Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo) mostram que, entre 2015 e 2025, o número de docentes de até 24 anos no Ensino Médio caiu 31,1%, enquanto o contingente de profissionais com 60 anos ou mais cresceu 104,5%. Segundo o levantamento, para cada três professores que deixam a carreira, apenas um novo profissional ingressa na área.
As trajetórias de duas professoras ajudam a ilustrar as mudanças na profissão ao longo das últimas décadas. De um lado, uma educadora que começou a ensinar quando o giz e o quadro eram as principais ferramentas de trabalho. Do outro, uma jovem que ingressou na docência em meio à expansão da inteligência artificial e das novas tecnologias aplicadas à aprendizagem. Separadas por décadas de experiência, elas compartilham o desafio de despertar o interesse dos alunos e manter a profissão atrativa para as próximas gerações.
Aos 73 anos, Marilena Gonçalves soma 51 anos de atuação na mesma instituição de ensino. Ela começou aos 22, ao substituir temporariamente uma colega, e nunca mais deixou a escola. Ao longo desse período, acompanhou transformações que vão da chegada dos computadores às mudanças na relação entre educadores e estudantes, hoje mais próxima e individualizada.

Durante uma homenagem na escola, Marilena reencontrou integrantes de sua primeira turma e descobriu que três antigas alunas também haviam seguido a carreira docente. A experiência reforçou o sentimento de realização de uma trajetória marcada pela dedicação ao ensino. "Percebo que a pessoa que mais adquiriu conhecimento durante esse tempo fui eu. A escola faz parte da minha vida", afirma.

Em mais de cinco décadas de profissão, Marilena acompanhou mudanças significativas nos recursos utilizados em sala de aula e nas formas de ensinar e aprender. No início da carreira, usava mimeógrafo e máquina de escrever. Hoje, conta com computadores, internet, plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial.

"Essas mudanças transformaram a maneira de compreender a aprendizagem e o papel do professor. Hoje, também temos a educação inclusiva, e os alunos são muito mais participativos", observa a educadora em entrevista ao O DIA.

A relação entre professores e estudantes também passou por transformações. Segundo Marilena, mudaram a forma de exercer a autoridade, de estabelecer limites e de compreender o processo de ensino e aprendizagem. Uma das diferenças aparece até na maneira como é chamada pelos alunos. "Antigamente, eu era a dona Marilena. Hoje, eles me chamam apenas de Marilena", conta.

Para a educadora, perceber que seu trabalho continua presente na vida de antigos estudantes é reconhecer que o impacto da educação ultrapassa o período em que eles permanecem na escola. Os conhecimentos transmitidos e os gestos de incentivo seguem vivos nas memórias e nas atitudes de quem passou por sua sala de aula.

Encontrar ex-alunos que construíram trajetórias profissionais bem-sucedidas desperta nela sentimentos de alegria, orgulho, gratidão e realização. Depois de 51 anos dedicados à mesma instituição, Marilena vê nessas histórias a continuidade de seu trabalho e a dimensão do legado que construiu como professora.
Na outra ponta dessa trajetória está Julia Pereira Motta, 29, pedagoga e mestra em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora de turmas bilíngues do 2º e 3º anos da Escola Nova by SIS, onde ingressou em 2025, ela representa uma geração que já encontrou computadores, plataformas digitais e inteligência artificial incorporados ao cotidiano escolar.

Para Julia, essas ferramentas podem facilitar o planejamento das aulas, mas não devem substituir o conhecimento pedagógico nem o olhar crítico dos professores. "Acho que a inteligência artificial pode ajudar muito na organização e no planejamento, mas não pode ser a nossa fonte principal de informação", afirma.

Além dos desafios trazidos pelas novas tecnologias, a jovem professora destaca que o reconhecimento profissional e a possibilidade de participar das decisões também são fatores importantes para permanecer na carreira. Para ela, sentir-se ouvida e valorizada, com espaço para o diálogo e o desenvolvimento profissional, contribui para tornar a docência mais atrativa.