Aline Derradi, professora no Ciep 320 Ercília Antônio da SilvaDivulgação/ Ellan Lustosa/ Seeduc-RJ
A iniciativa nasceu da observação de situações recorrentes na rotina escolar. Em dias de operações policiais e episódios de violência na comunidade, Alessandra percebia que algumas crianças chegavam à unidade mais quietas, tristes e desmotivadas, além de apresentarem dificuldades de concentração.
"Às vezes, o corpo estava presente, mas era possível perceber que emocionalmente elas precisavam de outra coisa antes de começar a aprender. Eu recebia dos professores as situações, eu via as carinhas das crianças e conversava com elas, ouvia os relatos dos responsáveis e como gestora, eu me perguntava: como podemos exigir que uma criança esteja pronta para aprender se, naquele momento, ela precisa primeiro se sentir segura e escutada? Essa pergunta provocou uma mudança importante no nosso olhar", conta a professora, em entrevista ao O DIA.
A partir dessa inquietação, Alessandra e a equipe pedagógica passaram a incorporar práticas de acolhimento emocional à rotina dos estudantes. A iniciativa deu origem a atividades que estimulam a escuta, o diálogo e a expressão dos sentimentos, como o Café com Música e Prosa e o termômetro das emoções.
"Foi assim que começamos a construir práticas que deram origem à Fábrica de Sonhos. Criamos momentos em que a escuta, a música, a conversa e a expressão das emoções passaram a fazer parte da rotina escolar. Hoje, por exemplo, temos o Café com Música e Prosa, realizado nos primeiros 20 minutos do dia, além do termômetro das emoções, que ajuda as crianças a reconhecerem e expressarem como estão se sentindo", diz a diretora.
A relação de Alessandra com a educação começou ainda na infância. Filha de uma professora, ela cresceu nas escolas em que a mãe trabalhava e se identificou desde cedo com o ambiente escolar. Aos 15 anos, ingressou no Instituto de Educação de Niterói, onde iniciou sua formação como educadora.
Ao chegar à universidade, decidiu seguir outro caminho. Embora gostasse da área escolhida inicialmente, não se sentia plenamente realizada. Após concluir a graduação, surpreendeu a família ao ingressar no curso de Pedagogia, no qual encontrou sua vocação.
"Depois que comecei a trabalhar em escolas, aos 15 anos, nunca mais troquei de profissão, mesmo tendo escolhido outro caminho na faculdade. Foi no curso de Pedagogia que me encontrei e tive a certeza de que era na educação que eu queria seguir", lembra.
A experiência profissional e os anos de atuação na Maré fortaleceram sua convicção de que a escola precisa ser um espaço de proteção, pertencimento e aprendizagem, especialmente em territórios marcados por desigualdades e situações de violência. Para a diretora, oferecer oportunidades e valorizar as potencialidades dos estudantes é fundamental para que eles possam construir seus próprios caminhos.
"Meu maior sonho é que nenhuma criança tenha seu futuro limitado pelas circunstâncias em que nasceu ou pelo território onde vive. Quero continuar construindo uma escola pública que ofereça oportunidades reais de aprendizagem, acolha as diferenças, valorize as potencialidades e prepare nossas crianças para participar do mundo com autonomia, criatividade e consciência crítica", completa.
"São profissionais que não fogem dos desafios e fazem a diferença todos os dias. Ao mundo, digo: nunca subestimem a importância do trabalho realizado pelos professores. Cada gesto, cada palavra e cada esforço podem transformar vidas. Aos professores, eu diria: sei que ser professor exige muito: estudo, compromisso, sensibilidade e, especialmente em contextos de adversidade, uma força que muitas vezes nem sabemos que temos, mas continuem acreditando na potência de cada criança. Um olhar, uma palavra e um gesto podem mover montanhas. Nós fazemos a diferença todo dia na vida de uma família", conclui.
Professora de arte transforma escola em ateliê
"Quero trazer luz e conhecimento para a vida destes jovens. Esse é um diferencial, um escape para eles. Tratamos esse momento como a cereja do bolo na vida de cada um. Nossa sala de aula é diferente, tem jeito de ateliê, e aqui a imaginação floresce", conta a professora.
A proposta vai além das atividades em sala de aula. Ao longo dos anos, as produções artísticas e os projetos que envolvem a comunidade escolar passaram a ocupar outros espaços da unidade. A preparação das atividades inclui planejamento fora do horário de aula e o reaproveitamento de materiais que seriam descartados, incorporando a sustentabilidade às experiências propostas aos alunos.
"Isso é a realização de um sonho. Nossa movimentação gerou tudo isso aqui. É um trabalho em equipe. Sozinho, ninguém faz nada. Ver a felicidade dos alunos, aprendendo e se divertindo, faz com que tudo valha a pena. Estamos colhendo alegrias", afirma a professora idealizadora do projeto.
"A Aline, além de ótima professora, nos dá muitos conselhos e força para seguir no caminho do bem e da educação", afirma Maria Isabel Moraes, de 14 anos, aluna do 8º ano do Ensino Fundamental.
De aluna a professora
Hoje, na sala de aula, Rejany procura proporcionar às crianças o mesmo sentimento de pertencimento e encantamento que marcou sua infância. Para ela, ensinar vai além da transmissão de conhecimentos: é construir vínculos, despertar a curiosidade e tornar a aprendizagem uma experiência prazerosa para estudantes e educadores.
"Procuro sempre oferecer uma educação que faça sentido para as crianças e que também seja prazerosa para elas. Quando percebemos que aquilo que fazemos tem importância, que traz alegria e significado para a vida das crianças, isso também dá sentido ao nosso trabalho. É muito gratificante fazer parte dessa Rede e poder contribuir para a história de outras pessoas", diz.
Envelhecimento da categoria
Durante uma homenagem na escola, Marilena reencontrou integrantes de sua primeira turma e descobriu que três antigas alunas também haviam seguido a carreira docente. A experiência reforçou o sentimento de realização de uma trajetória marcada pela dedicação ao ensino. "Percebo que a pessoa que mais adquiriu conhecimento durante esse tempo fui eu. A escola faz parte da minha vida", afirma.
Em mais de cinco décadas de profissão, Marilena acompanhou mudanças significativas nos recursos utilizados em sala de aula e nas formas de ensinar e aprender. No início da carreira, usava mimeógrafo e máquina de escrever. Hoje, conta com computadores, internet, plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial.
"Essas mudanças transformaram a maneira de compreender a aprendizagem e o papel do professor. Hoje, também temos a educação inclusiva, e os alunos são muito mais participativos", observa a educadora em entrevista ao O DIA.
A relação entre professores e estudantes também passou por transformações. Segundo Marilena, mudaram a forma de exercer a autoridade, de estabelecer limites e de compreender o processo de ensino e aprendizagem. Uma das diferenças aparece até na maneira como é chamada pelos alunos. "Antigamente, eu era a dona Marilena. Hoje, eles me chamam apenas de Marilena", conta.
Para a educadora, perceber que seu trabalho continua presente na vida de antigos estudantes é reconhecer que o impacto da educação ultrapassa o período em que eles permanecem na escola. Os conhecimentos transmitidos e os gestos de incentivo seguem vivos nas memórias e nas atitudes de quem passou por sua sala de aula.
Encontrar ex-alunos que construíram trajetórias profissionais bem-sucedidas desperta nela sentimentos de alegria, orgulho, gratidão e realização. Depois de 51 anos dedicados à mesma instituição, Marilena vê nessas histórias a continuidade de seu trabalho e a dimensão do legado que construiu como professora.
Para Julia, essas ferramentas podem facilitar o planejamento das aulas, mas não devem substituir o conhecimento pedagógico nem o olhar crítico dos professores. "Acho que a inteligência artificial pode ajudar muito na organização e no planejamento, mas não pode ser a nossa fonte principal de informação", afirma.
Além dos desafios trazidos pelas novas tecnologias, a jovem professora destaca que o reconhecimento profissional e a possibilidade de participar das decisões também são fatores importantes para permanecer na carreira. Para ela, sentir-se ouvida e valorizada, com espaço para o diálogo e o desenvolvimento profissional, contribui para tornar a docência mais atrativa.



