Operação Unha e Carne foi deflagrada pela Polícia Federal, com apoio da Polícia CivilReginaldo Pimenta / Agência O Dia

A oitava fase da Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (15), mirou um grupo suspeito de utilizar uma rede de postos de combustíveis, na Região Metropolitana do Rio, para lavar dinheiro. Seis pessoas foram presas, incluindo o deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil), o delegado Marcus Amim e outros quatro policiais civis. De acordo com as investigações, os detidos fazem parte de três núcleos da organização criminosa.
Segundo a Polícia Federal, Canella - segundo deputado mais votado no estado - integra o núcleo político e institucional da quadrilha. Ele é apontado como o patrono político e articulador de alto escalão do grupo, exercendo papel de ligação entre os integrantes do núcleo econômico, agentes públicos e estruturas políticas.
As apurações indicaram que o ex-prefeito de Belford Roxo, cidade da Baixada Fluminense, seria beneficiário recorrente de valores provenientes da atividade ilícita do organização, além de ter atuado na indicação de agentes para cargos estratégicos da administração pública.
De acordo com a PF, o delegado Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil, faz parte do mesmo núcleo de Canella. Ele teria atuado como operador institucional da organização criminosa, proporcionando proteção administrativa e policial ao grupo, além de receber recursos por meio de empresas vinculadas a seus familiares.
O inspetor Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo, é considerado integrante do núcleo financeiro e de lavagem de dinheiro do grupo. Segundo a investigação, ele é o principal operador econômico da quadrilha e exercia o controle de uma extensa rede de postos de combustíveis, formalmente registrada em nome de terceiros, usando as empresas para ocultar o patrimônio, movimentar recursos ilícitos e lavar dinheiro.
As apurações indicam que Pablo exercia funções de administração, coordenação financeira e de interlocução com diversos agentes públicos e particulares vinculados aos interesses do grupo. Um dos contatos teria sido feito com um escrivão da própria Polícia Federal. O agente da PF, que teve pedido de afastamento decretado, pode ter disponibilizado acesso privilegiado a informações sobre investigações em curso para o inspetor.
José Carlos Alves de Souza Júnior, do mesmo núcleo de Pablo, foi identificado como gestor operacional e financeiro do grupo, responsável pelo controle da arrecadação e distribuição de valores entre os integrantes. Diversos documentos apreendidos durante as apurações mostraram que o inspetor repassou dinheiro para diferentes membros da organização.
Os irmãos Giovanni Gaspar Fernandes e Christiano Gaspar Fernandes, que seriam integrantes do núcleo de lavagem de capitais e ocultação patrimonial, são apontados com sócios ocultos de empresas vinculadas ao grupo e beneficiários de repasses financeiros oriundos da atividade investigada. Ambos ficariam responsáveis por lavar o dinheiro conquistado.
Christiano é secretário municipal de Ordem Urbana de Belford Roxo. A reportagem enviou um e-mail para a prefeitura, às 11h40, pedindo um posicionamento sobre a prisão, mas ainda não recebeu retorno. O espaço está aberto para manifestação.

Operação

As investigações realizadas pela Polícia Federal culminaram na prisão dos seis citados nesta quinta. Os mandados foram expedidos pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), na terça-feira (13).
Agentes também cumpriram 16 mandados de busca e apreensão contra investigados. Além dos seis presos, também foram alvos o delegado Gláucio Paz da Silva, que sucedeu Amim na presidência do Departamento Estadual de Trânsito do Rio (Detran-RJ), e Fábio Henrique Ferreira dos Santos, escrivão da PF.
Canella foi encontrado em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio, e Amim em Niterói, na Região Metropolitana.
Durante as buscas, as equipes encontraram diversas residências de luxo, incluindo uma cobertura avaliada em R$ 22 milhões, no bairro Camboinhas, em Niterói.
De acordo com a PF, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou que a organização investigada movimentou mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos.
As investigações descobriram que a organização investigada conta com a participação de agentes públicos e tem uma articulação político-institucional. A Justiça determinou o sequestro de bens e valores de suspeitos, além da suspensão das atividades econômicas de 112 empresas ligadas à rede de lavagem de dinheiro. Do total, 96 são postos de combustíveis.
Além do crime de organização criminosa armada, os investigados ainda podem responder, na medida de suas responsabilidades, por lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel, além de outros que poderão surgir no decorrer das investigações.
Em nota, a Polícia Civil informou que a Corregedoria-Geral da corporação participou da operação, em apoio à Polícia Federal. A instituição destacou que não compactua com desvios de conduta de seus funcionários.
"A Polícia Civil não compactua com qualquer desvio de conduta e adota, de forma rigorosa, as medidas administrativas e disciplinares cabíveis diante de indícios de irregularidades. A instituição mantém atuação integrada com outras forças de segurança e órgãos de controle, respeitando as atribuições de cada instituição, para garantir a apuração dos fatos e a responsabilização dos envolvidos, quando cabível", disse.
A reportagem ainda não conseguiu localizar a defesa dos suspeitos. O espaço está aberto para manifestação.