São Gonçalo: novo talento da música surge na cidadeReprodução/Internet

São Gonçalo - A black music, uma das referências que ajudaram a moldar o pagode nos anos 1990, volta a ganhar força entre artistas da nova geração. Entre os nomes que representam esse movimento está Coimbra, cantor de 24 anos, nascido e criado em São Gonçalo- terra de Claudinho & Buchecha, Os Garotin e até de um período da vida de Seu Jorge, quando morou na casa de uma tia.

Coimbra viralizou nas redes sociais ao interpretar “I’ll Be There”, clássico do Jackson 5, em uma versão com batucada de pagode. A escolha da música não é por acaso. Coimbra cresceu ouvindo referências da música negra e encontrou no encontro entre soul, R&B e samba uma maneira de construir sua própria identidade artística.

A trajetória também passa por dois dos maiores nomes do pagode brasileiro: Thiaguinho e Péricles. Referências desde a infância, os artistas hoje fazem parte de momentos importantes da carreira de Coimbra, que já teve a oportunidade de cantar ao lado dos dois.

Para ele, a experiência tem um significado que vai além da música. Quando criança, Coimbra via Thiaguinho como uma inspiração e se reconhecia naquele artista negro que ocupava um espaço de destaque no cenário musical. Anos depois, estar próximo de nomes que ajudaram a formar sua identidade artística representa emoção e responsabilidade.

Do pagode escondido ao primeiro palco

A relação de Coimbra com a música começou ainda na infância. Criado em uma família religiosa, ele conta que descobriu o pagode por influência do pai, enquanto a mãe era evangélica. “Eu ouvia pagode escondido dentro do banheiro, porque durante muito tempo aquilo me foi apresentado como pecado”, conta.

Durante a pandemia, Coimbra cursava Enfermagem e chegou a fazer formação técnica na área. A música, porém, continuava presente. A mudança definitiva aconteceu após a morte de uma tia muito próxima. No último Natal que passaram juntos, ela disse ao sobrinho: “Filho, a sua voz vai ecoar pelos cantos da Terra”.

A frase se tornou um marco. Coimbra passou a estudar canto e instrumentos e decidiu transformar o sonho em profissão. O primeiro show veio pouco depois, a partir do convite de uma amiga para uma festa de arraiá. Em menos de quatro semanas, ele montou uma banda e subiu ao palco pela primeira vez. “Foi ali que eu entendi que era isso que eu queria. O palco era o lugar que me mantinha vivo”, lembra.
A aproximação com a black music dialoga com a própria história do pagode. Nos anos 1990, grupos como Raça Negra, Negritude Júnior, Só Pra Contrariar, Katinguelê e Soweto incorporaram diferentes referências musicais e estéticas da cultura negra, ajudando a transformar o gênero em um dos grandes fenômenos da música brasileira. Três décadas depois, essa influência aparece novamente com força. Thiaguinho lançou recentemente o álbum “Bem Black”, enquanto Péricles está confirmado no Rock in Rio deste ano com um espetáculo dedicado aos clássicos da Motown.

Coimbra surge como parte de uma geração que não precisa escolher entre o samba e outras vertentes da música negra. Para o cantor, essa mistura é justamente uma forma de manter o pagode vivo e conectado ao presente. Homem preto, gay, casado e macumbeiro, Coimbra também encontrou na música uma maneira de transformar sua própria vivência em representação. “Quando eu consegui me reconhecer, a barreira entre o artista e quem estava do outro lado caiu”, afirma.

Ainda no início da carreira, Coimbra sabe que o caminho está apenas começando. A intenção é conquistar espaço sem perder a essência. “Eu não quero apenas chegar. Quero construir. Quero olhar para trás e saber que cada passo foi dado com verdade, respeito e amor, sem esquecer de onde eu vim.”
Entre as batidas do pagode, as referências da black music e as experiências que o trouxeram até aqui, Coimbra começa a escrever sua própria história — com a certeza de que ainda há muitos palcos pela frente.