Em Atafona o mar toma conta de quase tudo, já tendo já engolidas cerca de 500 edificações e dizimados pelo menos 15 quarteirões Foto Reprodução/Gomes
No mapa, três cidades aparecem entre as mais impactadas no extremo norte do estado: Campos dos Goytacazes, São João da Barra e São Francisco de Itabapoana. Formatam o cenário uma junção elevada de prejuízo econômico, desespero de moradores e uma corrida contra o tempo liderada pela ciência e pelo poder público.
Literalmente, o mar vem “fazendo o que bem entende”, simbolizando a força destrutiva em escala de ponta principalmente no distrito de Atafona, em São João da Barra, há mais de cinco décadas: já foram engolidas cerca de 500 edificações e dizimados pelo menos 15 quarteirões. É assunto até em pautas internacionais.
O fenômeno talvez seja o de maior destaque no gênero em nível nacional, estando os moradores da região enfrentando um desdobramento ainda mais complexo, com o canal principal da foz do Rio Paraíba do Sul se deslocando gradualmente para o norte do município. A redução de vazão de água doce deixa a costa completamente desprotegida contra a erosão marinha.
O mar avança também a passos largos na Praia do Açu — onde está localizado o maior complexo portuário e industrial privado de águas profundas da América Latina —, gerando apreensão em comunidades de pescadores e no entorno do porto. Mas o governo sanjoanense já oficializou o início do Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) no quadro geral.
O trabalho, orçado em R$ 5,6 milhões, é realizado pela empresa Caruso Jr. Estudos Ambientais & Engenharia, com um cronograma de 18 meses de duração com foco em modelagem computacional e levantamento de campo. A proposta demandará aprovação e cofinanciamento junto aos órgãos estaduais e federais devido ao alto impacto regional.
REFLEXO MÚLTIPLO — Maior município do estado em extensão territorial, Campos também experimenta impactos causados pela força do mar, sofrendo as consequências da última grande ressaca. A Defesa Civil Municipal tem estado atenta, acompanhando os efeitos gerados pelo fenômeno e emitindo seguidos alertas de atenção máxima para a Praia do Farol de São Thomé.
A situação recente é uma das mais preocupantes, com a força da arrebentação arremessando toneladas de areia diretamente sobre a pista de rolamento da Avenida Olavo Saldanha, levadas por ondas violentas, bloqueando parcialmente o tráfego de veículos no trecho que conecta o Farol à Barra do Furado, em Quissamã.
Além do bloqueio de vias de transporte, o recuo da linha de costa gera uma desvalorização imobiliária em efeito cascata na orla campista, pressionando o município a manter frentes de limpeza contínuas e monitoramento estrutural nas áreas públicas. Nos três últimos dias, o trecho de acesso ao vizinho município ficou totalmente intransitável.
A crise ganha contornos de urgência também em São Francisco de Itabapoana, onde a praia de Manguinhos vive o drama da destruição iminente. No local, propriedades residenciais de veraneio e comércio encontram-se à beira do colapso devido à perda acelerada do terreno e da vegetação nativa de restinga. Para agravar, o reflexo do que acontece em São João da Barra agora ecoa em Gargaú.
Na praia sanfranciscana, com a foz do Rio Paraíba do Sul migrando fisicamente em direção ao norte, a hidrodinâmica local mudou drasticamente. A foz agora pressiona o ecossistema de Gargaú, forçando intervenções ambientais complexas. Por meio da Secretaria de Meio Ambiente, a prefeitura busca solução.
PARADOXO NATURAL — Uma das iniciativas é a condução de um programa agressivo de retirada de vegetação exótica invasora ao longo de mais de 15 quilômetros de orla, incluindo as praias de Guaxindiba, Manguinhos e Gargaú. A ideia é que a eliminação de plantas não nativas busque abrir espaço para a regeneração da flora original, considerada a única barreira biológica capaz de fixar a areia e desacelerar o avanço das marés sobre a infraestrutura urbana.
Embora os prejuízos causados sejam incalculáveis, a proeza da erosão acaba formando um paradoxo, principalmente na região de Atafona, no pontal, onde o Rio Paraíba desemboca: o cenário de destruição atrai turistas de várias cidades. E à proporção que o mar toma conta, a preocupação aumenta.
Em todos os municípios-alvo, as respectivas gestões buscam alternativas. No entanto, pesquisadores e gestores municipais convergem em um ponto: ações isoladas de curto prazo, como a colocação de pedras ou barreiras improvisadas, são paliativos ineficazes diante da magnitude do Oceano Atlântico.
Uma das conclusões básicas é que o esvaziamento histórico do Rio Paraíba do Sul — provocado pelo barramento e uso intensivo de suas águas ao longo de três estados (São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro) — cessou o fornecimento natural de sedimentos (areia) para o litoral fluminense, o mais castigado de todo o processo.
E a conclusão científica é que, sem a barreira natural dos sedimentos e diante da elevação real do nível médio global dos oceanos, a sobrevivência econômica e habitacional dessas comunidades costeiras dependerá crucialmente do sucesso e da celeridade dos megaprojetos de engenharia oceânica que começam a ser desenhados pelas prefeituras locais.

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