Preso nesta sexta-feira (26) no Paraguai após tentar fugir, o ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal (PRF) Silvinei Vasques foi condenado por improbidade administrativa por usar a estrutura da corporação para interferir no segundo turno das eleições de 2022.
O ex-servidor também recebeu pena de 24 anos e seis meses de prisão por envolvimento em uma trama golpista para manter Jair Bolsonaro (PL) no poder após a derrota nas urnas.
Paranaense, Silvinei faz parte do quadro da PRF desde 1995. Em apenas um ano, entre 2007 e 2008, o servidor ocupou dois cargos de confiança na prefeitura do município de São José, quarta cidade mais populosa do estado, durante a administração do então prefeito Elias Fernando Melquíades (PSL).
Foi Secretário Municipal de Segurança Pública e depois comandou a pasta dos Transportes, além de ocupar outras posições de gerência, inclusive como superintendente da PRF em Santa Catarina. Antes de se tornar diretor, seu último posto foi como Superintendente da PRF no Rio de Janeiro, entre 2019 e 2021.
Em abril de 2021, Silvinei assumiu o posto de diretor-geral da PRF quando o então presidente Bolsonaro deu posse a Anderson Torres no Ministério da Justiça. O policial ficou 8 meses na posição e, durante esse tempo, chegou a fazer diversas publicações em sua conta pessoal com fotos com o ex-presidente durante eventos e com legendas em que continham agradecimentos ao governo e ao ex-chefe do Executivo pelos investimentos na instituição.
Silvinei nunca escondeu o apoio ao ex-presidente. Durante as eleições de 2022, o policial usou a conta para defender o voto em Bolsonaro. A publicação em formato de stories mostrava uma foto da bandeira do Brasil e a escrita: "Vote 22, Bolsonaro presidente". A postagem foi apagada horas depois. O apoio político público fez com que o ex-diretor-geral da PRF passasse a ser investigado pela Justiça do Rio de Janeiro por improbidade administrativa.
Durante o segundo turno, sob liderança de Vasques, a PRF realizou mais de 500 operações nas estradas e rodovias. Durante o dia, eleitores denunciaram abordagens irregulares da corporação e a corporação foi acusada pelo PT de atuar para dificultar o voto de eleitores.
A justificativa era que seria preciso combater o transporte irregular de eleitores, principalmente no Nordeste, onde o então candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, tinha mais votos. Desde então, Vasques começou a ser investigado sobre essa ocorrência.
Primeiro interrogado pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do 8 de Janeiro, Vasques falou por 12h e negou que policiais da instituição tenham sido usados para boicotar ou dificultar o deslocamento de eleitores no dia da votação. O policial aposentado também tentou blindar o ex-presidente das acusações de uso da estrutura da PRF no pleito de 2022.
"Eu nunca utilizei do cargo para benefício eleitoral do presidente, se fosse assim nós teríamos que autorizar metade dos servidores públicos daquela época", afirmou Silvinei em sua defesa.
"As fotos que tenho com o presidente Bolsonaro foi porque ele deixou eu tirar e as fotos foram postadas na minha hora de folga", prosseguiu. "Não seria eu que mudaria o resultado da eleição", concluiu durante oitiva.
Após deixar a PRF, assumiu a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Inovação de São José, na Grande Florianópolis, mas pediu exoneração em dezembro de 2025, logo após as condenações judiciais por causa da trama golpista.
Condenações
Em uma das decisões, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2), no Rio de Janeiro, condenou Vasques por improbidade administrativa, ao concluir que ele utilizou a PRF de forma indevida para favorecer a candidatura à reeleição de Bolsonaro.
De acordo com a sentença, o então diretor-geral promoveu uma "confusão intencional" entre sua condição de agente público e suas manifestações políticas.
Entre as condutas apontadas estão publicações em redes sociais com farda e símbolos da PRF, participação em eventos oficiais com pedidos explícitos de voto e a entrega de uma camisa com o número "22" ao então ministro da Justiça, Anderson Torres, às vésperas do segundo turno.
Como penalidade, Vasques foi condenado ao pagamento de multa de cerca de R$ 546,6 mil, equivalente a 24 salários da época, além de ficar proibido de contratar com o poder público por quatro anos.
Já o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou o ex-diretor a 24 anos e seis meses de prisão em regime fechado por participação em uma organização criminosa que atuou para tentar reverter o resultado das eleições presidenciais de 2022.
Para a segunda turma do STF, Vasques integrou o chamado "núcleo 2" da trama golpista, responsável por ações operacionais. A Corte entendeu que ele atuou deliberadamente para dificultar o voto de eleitores, especialmente na região Nordeste, por meio de operações da PRF no dia do segundo turno.
A decisão também cita o envolvimento em ações de monitoramento de autoridades públicas e na coordenação de iniciativas voltadas à ruptura institucional. Além da pena de prisão, Vasques teve os direitos políticos suspensos, tornou-se inelegível e foi condenado a contribuir para uma indenização coletiva de R$ 30 milhões.
Polêmica em processo envolvendo agressão de frentista
Antes de se envolver com a polêmica com o TSE por descumprir a decisão do Ministro Alexandre de Moraes, Vasques também esteve no centro de outra confusão envolvendo a agressão de um frentista de um posto de gasolina. No depoimento a vítima afirma que o agressor só parou para espancá-lo após funcionários do posto gritarem para parar.
"Diante da recusa do requerente (de lavar as viaturas) um dos policiais começou a espancá-lo, com a ajuda de um segundo policial, começou a desferir socos em seu abdômen e suas costas".
O trabalhador alegou na justiça do estado de Goiás ter sido espancado por policiais rodoviários por 'se recusar a lavar as viaturas da PRF'. A ação correu em âmbito estadual até 2012, até a primeira condenação, onde a União foi obrigada a pagar valor fixado em R$ 20 mil à vítima da violência policial.
A União pagou a indenização e cobrou o valor de Silvinei que recorreu então à Justiça de Santa Catarina, estado onde servidor fez carreira na PRF e chegou à superintendência da unidade regional em 2011. O jornal 'Metrópoles' chegou a solicitar acesso aos processos envolvendo o servidor, mas foi informada que ações tem "acesso restrito pelo prazo máximo de 100 anos".
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.