Ao todo, pontos de atuação desse tipo de esquema já foram identificados em pelo menos 37 dos 92 municípios fluminenses.Reprodução/
Crime organizado amplia atuação de internet clandestina na Região dos Lagos
Cabo Frio, Arraial do Cabo, Búzios, Iguaba Grande, Araruama e Saquarema aparecem em áreas afetadas por restrições impostas por facções e milícias a provedores legalizados
Cabo Frio - A exploração clandestina de serviços de internet por facções criminosas e milícias tem avançado no estado do Rio de Janeiro e já atinge municípios da Região dos Lagos. Levantamento divulgado pelo jornal Extra aponta que cidades como Cabo Frio, Arraial do Cabo, Armação dos Búzios, Iguaba Grande, Araruama e Saquarema estão entre as localidades onde empresas enfrentam dificuldades para atuar devido à imposição de taxas, ameaças e restrições de acesso por parte do crime organizado.
Segundo a apuração, grupos criminosos passaram a controlar a comercialização de sinal de internet em áreas dominadas por facções e milícias, impedindo que operadoras legalizadas façam manutenção ou instalem novos equipamentos. Em muitos casos, os próprios criminosos oferecem o serviço ou exigem pagamentos das empresas para permitir a operação nas regiões.
A investigação foi baseada em informações de inquéritos policiais, dados do Disque-Denúncia, relatos de moradores e informações repassadas por operadoras e provedores de internet. Ao todo, pontos de atuação desse tipo de esquema já foram identificados em pelo menos 37 dos 92 municípios fluminenses.
O delegado Pedro Brasil, titular da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), afirmou que o principal desafio para o combate à prática é o domínio territorial exercido pelas organizações criminosas.
“Eles monopolizam os serviços e produtos e passam a atuar em todos os locais que dominam. Não é só internet, mas também venda de gás, carvão e gelo. O problema é o domínio de território”, afirmou.
De acordo com a DDSD, são registradas, em média, 15 ocorrências mensais relacionadas a reclamações de concessionárias e provedores. Os casos incluem ameaças, extorsões, ataques a veículos e proibição de acesso de equipes técnicas para manutenção dos serviços.
Na Região dos Lagos, Cabo Frio e Saquarema aparecem entre os municípios citados em registros policiais relacionados à atuação criminosa. Empresários do setor afirmam que determinadas áreas da região já se tornaram de difícil acesso para as equipes técnicas.
Um empresário ouvido pela reportagem, sob condição de anonimato, afirmou que empresas têm deixado de expandir operações em municípios da Região dos Lagos devido ao risco enfrentado pelos funcionários.
“A Região dos Lagos também tem cidades com locais que você não consegue mais atender. Cabo Frio tem, Rio das Ostras tem, Búzios também”, relatou.
O levantamento também mostra que o modelo de exploração ilegal, inicialmente associado à milícia, foi adotado por facções do tráfico, principalmente pelo Comando Vermelho. Em algumas localidades, os criminosos criam empresas próprias, utilizando “laranjas” para operar formalmente o serviço. Em outras, cobram taxas de provedores já estabelecidos. Em certos casos, o valor exigido chega a representar metade da mensalidade paga pelos clientes.
Além das restrições de operação, o setor vem registrando episódios de violência. Somente nos quatro primeiros meses de 2026, veículos e estruturas de empresas de internet foram incendiados em cidades como Cachoeiras de Macacu, Japeri, Paracambi e Maricá.
Dados do Disque-Denúncia apontam crescimento nas denúncias relacionadas à comercialização clandestina de internet e TV a cabo. Em 2024, foram registradas 1.772 denúncias. Em 2025, o número subiu para 2.047, aumento superior a 15%. Entre janeiro e o dia 8 de maio deste ano, já haviam sido contabilizados 593 registros.
Diante do avanço da prática, o governo do estado apresentou ao Supremo Tribunal Federal um Plano de Reocupação Territorial, no âmbito da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas. O projeto prevê ações em comunidades dominadas pelo crime organizado e inclui um modelo piloto de distribuição de internet via rádio, sem cabeamento convencional, como forma de reduzir furtos, danos à infraestrutura e o controle ilegal do serviço.
Em nota, a Polícia Militar informou que a exploração clandestina de serviços ocorre de forma velada e destacou a importância das denúncias da população. Já a Polícia Civil afirmou que vem intensificando operações de inteligência para combater a estrutura financeira das facções criminosas.
A Conexis Digital, sindicato das empresas de telecomunicações, declarou que as restrições impostas pelo crime organizado têm afetado a qualidade do serviço e colocado em risco a segurança das equipes técnicas, defendendo uma atuação conjunta dos poderes públicos para garantir o acesso da população aos serviços de telecomunicações.

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