Paulo Hirano afirma que estão sendo eliminados gargalos pré-operatórios, para a realização dos procedimentos Foto Secom/Divulgação

Campos - O tratamento oncológico pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Campos dos Goytacazes (RJ) passa por uma importante transição de rede para garantir a continuidade da assistência a cerca de 18 mil pacientes. Uma iniciativa emergencial do prefeito Frederico Paes acaba entrando na conta dos importantes avanços na saúde pública, com abrangência regional.
Trata-se da ativação de um plano de contingência e transferência com atendimento na Beneficência Portuguesa, forçada pela solicitação de descredenciamento do serviço de oncologia pública que vinha sendo prestado pelo Hospital Dr. Beda. O Secretário de Saúde, Paulo Hirano, explica que o sistema funciona como uma ampliação da Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) que o hospital já possuía.
Hirano assinala alguns pontos do que o governo vem desenvolvendo na rede municipal de saúde. Uma das medidas fundamentais foi a conclusão do ciclo de reformas estruturais com a abertura do novo ambulatório especializado em áreas como urologia, ginecologia e dermatologia no Hospital Geral de Guarus (HGG).
A reestruturação do Posto de Urgência (PU) convertida para atendimento focado em estabilização, clínica médica e pediatria é outra iniciativa destacada pelo secretário. No entanto, Hirano admite que há ainda gargalos que estão sendo identificados e eliminados, como exames, avaliações e consultas necessárias para a realização dos procedimentos pré-operatórios.
ENTREVISTA/PAULO HIRANO
Como o município planeja garantir a sustentabilidade financeira do atendimento regional caso os repasses estaduais de cofinanciamento continuem instáveis?
Paulo Hirano - O município trabalha com planejamento orçamentário e monitoramento contínuo dos custos assistenciais, buscando garantir a continuidade dos serviços independentemente de oscilações pontuais nos repasses de cofinanciamento. A estratégia envolve a articulação permanente com os governos estadual e federal, a revisão dos fluxos de produção e financiamento do SUS, a otimização dos recursos existentes e a busca por novas fontes de custeio. O objetivo é assegurar sustentabilidade financeira sem comprometer a qualidade e a continuidade da assistência à população.
Qual é o cronograma previsto para a transição completa dos pacientes oncológicos para a nova estrutura da Beneficência Portuguesa?
PH - A transição dos pacientes oncológicos está ocorrendo de forma gradual, planejada e segura, priorizando a continuidade do tratamento e evitando qualquer desassistência. O cronograma está considerando a capacidade instalada da nova estrutura, a transferência organizada dos prontuários e informações clínicas, a definição dos fluxos assistenciais e a comunicação adequada com pacientes e equipes. A prioridade é que nenhum paciente tenha seu tratamento interrompido durante o processo.
Quais medidas estão em curso para reduzir o tempo de espera por cirurgias eletivas na rede municipal?
PH - Estão sendo adotadas estratégias voltadas à ampliação da capacidade cirúrgica, melhor utilização dos centros cirúrgicos disponíveis, organização das filas por critérios clínicos e de prioridade, otimização das agendas e integração entre regulação, unidades solicitantes e serviços executantes. Também estamos identificando e eliminando gargalos pré-operatórios, como exames, avaliações e consultas necessárias para a realização dos procedimentos.
Como a rede municipal pretende integrar ainda mais a Atenção Básica com os novos centros de referência inaugurados?
PH - A integração será fortalecida por meio de sistemas de informação integrados, garantindo o registro adequado das informações nos processos de referência e contrarreferência. Também está prevista a ampliação das equipes multiprofissionais (e-Multi) para o matriciamento das equipes de Saúde da Família, favorecendo a discussão compartilhada dos casos e a ampliação da resolutividade da Atenção Primária.
Outro eixo importante será a criação e divulgação de protocolos de regulação, com critérios mais claros para os encaminhamentos aos serviços especializados. A partir desses documentos, será possível qualificar as solicitações, organizar melhor as filas de regulação e dar maior transparência aos fluxos de acesso, contribuindo para uma rede mais integrada e para a continuidade do cuidado.
Como a secretaria pretende ampliar a cobertura das equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) nos distritos mais afastados do centro?
PH - A estratégia envolve o fortalecimento das ações de assistência e acompanhamento das unidades apoiadas pelo Programa de Assistência a Assentamentos, Quilombolas e Comunidades Tradicionais, com atuação integrada e territorializada. A abertura de novas unidades de saúde que já estão em processo de construção em áreas que ainda apresentam vazios assistenciais, como a região da Baixada.
Também está prevista a oferta de veículos da Secretaria Municipal de Saúde para as unidades localizadas em áreas rurais do município, apoiando a assistência domiciliar aos pacientes com indicação desse tipo de cuidado pelas equipes de Saúde da Família e ampliando o acesso e a continuidade da atenção nos territórios mais distantes.
Outra frente importante é a ampliação da telemedicina, garantindo às unidades localizadas em áreas quilombolas e rurais maior conexão entre as equipes de Saúde da Família e médicos especialistas. A iniciativa busca reduzir barreiras de acesso, apoiar a tomada de decisão compartilhada e ampliar a resolutividade do cuidado no próprio território, fortalecendo a equidade na oferta de serviços de saúde.
Quais são as ações planejadas para conter a evasão de médicos generalistas das Unidades Básicas de Saúde (UBS)?
PH - A Secretaria pretende investir em educação continuada, com incentivo à longitudinalidade do cuidado e à construção de vínculo entre os profissionais e as comunidades. A ampliação das equipes multiprofissionais também contribuirá para o matriciamento e o apoio às equipes de Saúde da Família, aumentando a resolutividade da Atenção Primária e possibilitando a discussão compartilhada dos casos e a elaboração de Projetos Terapêuticos Singulares.
Outra estratégia é a aproximação com instituições de ensino, buscando estabelecer parcerias que possibilitem ao médico também desenvolver atividades de ensino e acompanhamento de estudantes em seu cotidiano de trabalho. A proposta é fortalecer a dimensão assistencial e, ao mesmo tempo, criar um ambiente profissional mais qualificado, com formação permanente e integração entre assistência, ensino e território.
Como o município pretende melhorar a distribuição interna e evitar a falta pontual de medicamentos de uso contínuo nos postos?
PH - Nossa estratégia está sendo atuar principalmente sobre o planejamento de estoque e a logística de distribuição. Isso envolve monitoramento sistemático do consumo, definição de estoques mínimos, programação antecipada das aquisições, redistribuição entre unidades quando necessário e acompanhamento dos medicamentos críticos. E com a utilização de ferramentas informatizadas de controle também identificamos previamente possíveis desabastecimentos para agir antes que a falta chegue ao usuário.
Qual é a estratégia atual para reduzir o tempo de espera na fila do SISREG para consultas com especialistas como cardiologistas e neurologistas?
PH - A redução das filas exige uma abordagem que vá além do simples aumento da oferta. É necessário qualificar a regulação, revisar protocolos de encaminhamento, estabelecer critérios de prioridade clínica, reduzir solicitações inadequadas e ampliar a oferta conforme a demanda identificada. Também é importante fortalecer a Atenção Primária, permitindo que situações que possam ser resolvidas nesse nível não sejam encaminhadas desnecessariamente à atenção especializada. O objetivo é tornar a fila mais eficiente, transparente e baseada na necessidade clínica.
Como a prefeitura planeja descentralizar exames de média complexidade (como ressonâncias e tomografias) para que os moradores de distritos distantes não precisem se deslocar tanto?
PH - A descentralização deve ser planejada a partir da análise territorial da demanda e da capacidade instalada. O município pode buscar ampliar a oferta em diferentes regiões, por meio da estrutura própria, contratação de serviços, parcerias e organização regionalizada da assistência. Para exames como tomografia e ressonância, também é necessário considerar critérios técnicos, disponibilidade de equipamentos, profissionais habilitados e logística de manutenção. A finalidade é aproximar o serviço do cidadão e reduzir deslocamentos desnecessários.
Além da oncologia, quais outras especialidades receberão centros de referência dedicados nos próximos anos?
PH - A expansão de centros de referência deve considerar o perfil epidemiológico da população, a demanda reprimida e as principais linhas de cuidado que apresentam maior necessidade de especialização. Entre as áreas que podem ser avaliadas estão cardiologia, neurologia, ortopedia, saúde da mulher, oftalmologia, endocrinologia, nefrologia e outras especialidades de alta demanda. A definição deve ocorrer a partir de estudos técnicos e da capacidade de financiamento e operacionalização da rede.
Quais parcerias com as faculdades de medicina locais estão sendo desenhadas para atrair novos médicos especialistas para a rede pública municipal?
PH - A aproximação com instituições de ensino é estratégica para fortalecer a formação e a fixação de profissionais no SUS. Temos desenvolvido parcerias envolvendo estágios, internato, residências médicas, programas de educação permanente, preceptoria e integração ensino-serviço. Também é importante criar um ambiente profissional atrativo, com estrutura adequada, oportunidades de formação e desenvolvimento e condições que favoreçam a permanência dos especialistas na rede pública.