Anitta foi um espetáculo no palco, mas a escolha da Globo de exibir essa simbologia justamente na Páscoa abriu uma discussão que talvez nem precisasse existir. Para este colunista, Cristo não segrega religiões, Cristo soma Foto: reprodução TV Globo

Anitta brilhou neste domingo, 5 de abril, no Domingão com Huck. A cantora foi anunciada pela própria Globo como atração musical do programa, com “Pinterest” e “Meia Noite”, e entregou exatamente o que dela se espera quando sobe ao palco: presença, impacto, personalidade e uma performance que prende o olhar.
E é importante que isso fique muito claro: não há aqui qualquer desmerecimento à artista. Muito pelo contrário. “Meia Noite” é forte, tem batida, tem identidade e, na avaliação deste colunista, é uma das melhores músicas do projeto. A canção e sua apresentação vieram acompanhadas de simbologia de candomblé, elemento que ajuda a explicar a leitura religiosa feita por parte do público. Anitta foi um espetáculo. Segura, dona da cena e absolutamente coerente com a imagem que construiu e com os símbolos que já vem assumindo publicamente há tempos.
O ponto da discussão, portanto, não está nela. Está na escolha da Globo. Numa data como a Páscoa, a emissora decidiu colocar no centro do horário nobre uma apresentação que, previsivelmente, abriria espaço para debate religioso, reação de setores cristãos e ruído nas redes. E isso num país em que o peso do cristianismo continua gigantesco. Segundo o Censo 2022 do IBGE, católicos e evangélicos somam 147,6 milhões de pessoas com 10 anos ou mais. Já o Pew Research Center aponta o Brasil como o segundo país com maior número absoluto de cristãos no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.
É justamente aí que entra a pergunta que esta coluna faz. Valia a pena? Valia a pena levar essa simbologia ao ar justamente no domingo em que milhões de brasileiros celebram a ressurreição de Cristo? Valia a pena transformar uma apresentação artisticamente potente em combustível para guerra cultural, embate religioso e polêmica previsível?
Este colunista deixa algo muito claro: Cristo não segrega religiões. Cristo soma. Cristo não exclui, não alimenta linchamento moral e não serve de instrumento para intolerância. Se a mensagem é fraternidade, acolhimento, amor e benevolência, não há sentido em usar a fé para atacar o diferente. Mas uma coisa é a visão espiritual do que Cristo representa. Outra é a leitura estratégica de televisão.
E, nesse campo, a Globo erra ao confundir impacto com provocação. Porque Anitta não precisava de polêmica para brilhar. A música não precisava de tensão religiosa para chamar atenção. A performance tinha força própria. Ao escolher a Páscoa para colocar esse debate no centro do palco, a emissora tirou parte do foco da arte e entregou ao público aquilo que hoje move tanta engrenagem de audiência: o barulho.
No fim, a pergunta continua no ar. Anitta brilhou, sim. Mas a Globo precisava transformar a Páscoa em polêmica?