O que começou com a denúncia de abandono de três gatinhos terminou em barraco, agressão verbal e forte repercussão em Barra do PiraíFoto: reprodução rede social

Um caso que começou com três gatinhos encontrados na rua acabou se transformando em um dos episódios mais comentados de Barra do Piraí nos últimos dias. O que inicialmente parecia ser apenas mais uma discussão sobre acolhimento animal rapidamente descambou para barraco, agressão verbal, revolta, repercussão política e um debate mais amplo sobre responsabilidade e misoginia.
A repercussão começou a ganhar força a partir do vídeo em que aparece Luciene Maria, secretária municipal de Bem-Estar Animal de Barra do Piraí, recebendo os gatinhos na unidade e explicando que o espaço não funciona como abrigo nem como lar de passagem. Na gravação, ela afirma que o caso foi tratado como abandono, menciona o registro de ocorrência e cita a legislação municipal para sustentar que, a partir do momento em que uma pessoa recolhe um animal em situação de rua, passa a assumir responsabilidade sobre ele.
A base legal mencionada no caso também existe. A Lei Municipal nº 3.484/2021, de Barra do Piraí, institui a proteção e o bem-estar dos animais no município e trata do conceito de responsável e de práticas enquadradas como maus-tratos.
Depois disso, veio a reação da família. Em um segundo vídeo, o irmão do homem citado no caso dos gatinhos, identificado nas redes sociais como Carlos Alberto, aparece exaltado e reclama da repercussão. Mas o que realmente incendiou o caso foi o tom adotado na gravação. Em meio ao ataque, ele dispara: “P, vocês continuam publicando e falando do meu irmão que p****, maus-tratos de animal, os gato ainda. Vocês não têm o que fazer nessa p**** dessa prefeitura, não? Vocês não têm animal pra cuidar, não? Vêm cuidar do meu p****”**. A fala, somada ao gesto obsceno exibido no vídeo, fez a discussão sair da esfera da causa animal e entrar de vez no terreno da baixaria, da agressão verbal e da humilhação pública.
Na noite de ontem, quarta-feira, 8, a prefeita de Barra do Piraí, Kátia Miki, decidiu se pronunciar publicamente. Em vídeo, afirmou que sabia que em algum momento precisaria abordar o assunto, repudiou qualquer tipo de violência contra a mulher, disse que não permitiria esse tipo de ataque na cidade e declarou que as medidas jurídicas já haviam sido tomadas. No posicionamento, a prefeita enquadrou o episódio no contexto de violência política de gênero, deixando claro que, para ela, a situação ultrapassou os limites da divergência política e entrou no campo da ofensa pessoal e do ataque à condição feminina.
Esse enquadramento encontra respaldo na Lei nº 14.192/2021, que estabelece normas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher.
Mas o caso não parou na resposta da prefeita. Depois da forte repercussão, o mesmo homem voltou a aparecer em um novo vídeo. Nele, tenta explicar o contexto da reação, diz que tudo começou com “três gatinhos órfãos”, afirma que a família ficou abalada com a possibilidade de prisão do irmão, acusa a gestão de desviar o foco dos animais e sustenta que sua reação foi motivada pela defesa de um familiar. Em seguida, entra em outro ponto delicado: pede desculpas às mulheres, afirma que não queria ofender mulheres, mas uma gestora, e diz que não tem intenção de atacar o sexo feminino. Mesmo assim, também declara que não se arrepende do que falou em defesa do irmão e afirma estar à disposição da polícia e da Justiça.
Passada a narrativa dos fatos, entra aquilo que, na visão deste colunista, precisa ser dito com toda clareza.
Nenhum departamento público, seja de bem-estar animal, unidade veterinária, hospital veterinário ou qualquer outro setor ligado ou não à causa animal, existe para funcionar como local de despejo ou entrega informal de animais abandonados. Isso precisa ficar muito claro. Uma coisa é cobrar atendimento, política pública, castração, fiscalização e estrutura. Outra coisa, completamente diferente, é agir como se qualquer órgão público tivesse obrigação automática de receber bicho encontrado na rua como se fosse depósito.
A legislação municipal de Barra do Piraí reforça a seriedade desse debate. A lei usada como base no próprio caso define parâmetros de proteção animal no município. Ou seja, o debate não pode ser reduzido à ideia de que basta recolher um animal por compaixão e depois largá-lo em uma unidade pública. A partir do momento em que a pessoa assume aquele recolhimento, entra também o dever de responder por essa decisão.
Outro ponto fundamental, e aqui vale uma observação para elucidar o debate, ainda que os protetores independentes não estejam diretamente no centro dessa confusão: protetor animal não pode ser tratado como extensão compulsória da irresponsabilidade alheia. Protetores fazem o que fazem por paixão, compaixão, luta e entrega. Na maioria das vezes, sem remuneração, sem estrutura adequada e sem o reconhecimento que mereciam ter. Não são obrigados a receber bicho atropelado, doente, abandonado ou recolhido por terceiros. Solidariedade não pode virar imposição moral automática.
E a mesma lógica vale para abrigos. Abrigo não é depósito. Abrigo não pode ser tratado como local de abandono disfarçado, nem como espaço para simples transferência de responsabilidade. Algumas pessoas tentam sustentar que, diante de um animal encontrado na rua, bastaria deixá-lo na porta de um abrigo. Não. Isso também não resolve o problema da forma correta e não transforma, por mágica, a responsabilidade de quem recolheu o animal em obrigação de terceiros.
Se alguém encontrou um animal na rua e ficou sensibilizado, ótimo. Faça postagem, peça ajuda, mobilize rede social, busque orientação, tente doação, tente adoção, procure atendimento. Tudo isso é válido. O que não parece razoável é pegar o animal e, logo depois, querer transferir a responsabilidade integral para outra pessoa, para um protetor, para um abrigo ou para um setor público, como se o problema deixasse magicamente de ser seu.
Mas há outro ponto igualmente sério aqui, e esse precisa ser nomeado como é. Quando o debate sai da crítica e mergulha em fala sexualizada, humilhação e ofensa à mulher em posição de poder, o caso toca também em misoginia. Pode até haver tentativa posterior de separar “mulher” de “gestora”, mas, quando o ataque usa esse tipo de linguagem degradante e esse tipo de exposição, a fronteira entre revolta política e agressão misógina fica muito evidente. E foi exatamente isso que ajudou a incendiar ainda mais a repercussão em Barra do Piraí.
No fim, o episódio expõe duas feridas ao mesmo tempo. De um lado, a falta de compreensão sobre responsabilidade no trato com animais abandonados. Do outro, a facilidade com que parte do debate público ainda escorrega para o insulto, para a baixaria e para a violência verbal contra mulheres. Crítica é legítima. Cobrança é legítima. Revolta pode até existir. Mas abandono não pode ser tratado com naturalidade, e ofensa degradante não pode ser normalizada como se fosse coragem.