O deputado federal Daniel Soranz recebeu este colunista em sua residência, na Glória, para uma entrevista exclusiva sobre política, eleições e os desafios da saúde pública no Rio de Janeiro Arquivo pessoal

Reeleito com 107.849 votos, o deputado federal Daniel Soranz (PSD) recebeu este colunista em sua casa, no bairro da Glória, para uma entrevista exclusiva. Na conversa, falou sobre os bastidores da política fluminense, o futuro de Eduardo Paes e Eduardo Cavaliere, a relação com o novo governo estadual e os desafios da saúde pública. Também abordou a possibilidade de retornar à Secretaria Municipal de Saúde e não poupou críticas a antigos adversários políticos. Confira a entrevista na íntegra.
Andrei Lara: Você foi reeleito com 107.849 votos e teve a maior votação do PSD para deputado federal no Rio. Quanto desse resultado você atribui ao trabalho na Saúde e quanto já representa uma força política própria do Daniel Soranz?
Deputado Daniel Soranz: 100% atribuído ao trabalho na saúde. Eu sou um deputado parlamentar da saúde. Quem vota em mim vota porque acredita que é possível construir um sistema de saúde melhor. Todas as minhas pautas são ligadas à melhoria do nosso sistema de saúde.
No meu mandato tenho três principais pautas: consegui melhorar o orçamento da saúde. A segunda é tornar esse orçamento mais eficiente, do ponto de vista administrativo (nosso recurso poder entregar mais saúde para a população). E a terceira pauta é a fiscalização da saúde federais e do Executivo Federal.
Então todo mundo que me apoia, que vota em mim, vota por isso.
Andrei Lara: Há a possibilidade de você voltar à Secretaria Municipal de Saúde, o que também abriria espaço para Hugo Leal na Câmara. Você já conversou sobre isso com Cavaliere? Seria uma escolha sua ou uma necessidade de acomodação do grupo político?
Daniel Soranz: A decisão é eu permanecer na Câmara de Deputados, como deputado federal, e poder contribuir muito na pauta da saúde de todo o nosso estado, de todo o Brasil e das cidades também, atuando como deputado federal.
Andrei Lara: Mas você não pensa em voltar para a Secretaria de Saúde? Mas pode acontecer?
Daniel Soranz: Pode acontecer, claro. Mas o desenho atual, inclusive o que tem me movido, é que a gente consiga criar leis e exercer o mandato de deputado federal para melhorar a nossa saúde.
Inclusive agora eu estou trabalhando na regulamentação da minha lei mais importante, que é a lei do Sicx, que é uma lei de compras públicas, que muda o formato de compras públicas no Brasil. Só em compra de medicamentos a gente vai economizar 8,2 bilhões de reais no Sistema Único de Saúde. Uma economia superior a todos os salários, daria para pagar o salário de todos os deputados da Câmara Federal ou daria para pagar todo o orçamento da Secretaria Municipal de Saúde do Rio em um ano.
Isso é uma economia para o Brasil incrível, é super importante. E foi um deputado aqui do Rio, eu, que desenhei a lei, consegui aprovar na Câmara, consegui aprovar no Senado e agora é a sanção do presidente da República, agora a regulamentação do Ministério.
Andrei Lara: Na sua gestão, a Saúde conseguiu zerar contratos emergenciais para serviços. O que você mudou para chegar a esse resultado? E como traduzir essa conquista para quem continua esperando uma consulta ou uma cirurgia?
Daniel Soranz: Pra isso é um trabalho muito sério, é de muito planejamento e de muito desenho. A gente conseguiu zerar os emergenciais porque a gente planejou para isso.
Quando você compara com a Secretaria de Estado de Saúde, por exemplo, 86% dos contratos de lá não são licitados na Secretaria Estadual de Saúde. De zero para 86, tem uma diferença muito grande.
E a gente conseguiu avançar muito nas atribuições do município, que é ampliar a atenção básica, atenção primária, avançar na gestão dos leitos de baixa complexidade.
Mas a gente vive uma situação muito grave e muito crítica, com o que é de responsabilidade do estado, que é a média e alta complexidade. Hoje o Rio tem um estado que menos gasta em saúde, que menos investe. Isso é reflexo nas filas de regulação, reflexo nos tempos de espera.
O Rio de Janeiro é o estado que tem o maior tempo de espera para tratamento de câncer, por exemplo. Hoje tem 450 pessoas nas unidades de saúde de emergência, nas salas amarelas e nas salas vermelhas, esperando uma vaga de transferência num hospital de alta complexidade.
Então a gente tem uma ausência completa do governo do estado no Sistema Único de Saúde.
Andrei Lara: Se Lula for reeleito, o que você cobraria de diferente na Saúde? Qual problema não pode continuar sendo adiado por mais quatro anos?
Daniel Soranz: Eu acho que a construção do novo INCA. Eu acho que é uma situação que precisa avançar, é que a gente possa ter mais investimentos, como aconteceu no Hospital do Andaraí, no Hospital Cardoso Fontes, também no Clementino Fraga Filho, no Fundão, que é um hospital que precisa de uma reforma completa, como aconteceu no Andaraí e no Cardoso Fontes. É isso.
Andrei Lara: Você saiu da eleição com uma vitória pessoal, mas viu Eduardo Paes perder a disputa pelo governo. Como foi viver esses dois sentimentos ao mesmo tempo? Vocês conversaram depois do resultado?
Daniel Soranz: É muito triste a gente ver o resultado eleitoral. Quando você vê um possível governador, um cara experiente, muito preparado, com muitas entregas, perder a eleição para uma pessoa completamente desconhecida.
E é claro que a gente sabe o que vai acontecer no estado do Rio de Janeiro. Novamente um governo do PL que vai abandonar a saúde, investir muito pouco no sistema de saúde e não priorizar o que é mais importante para a população.
Andrei Lara: O PSD reelegeu seus quatro deputados federais pelo Rio, mas perdeu a disputa pelo governo estadual. O partido saiu dessa eleição fortalecido pela bancada ou enfraquecido pela derrota de seu principal nome?
Daniel Soranz: Eleição, um dia se ganha, outro se perde. O PSD venceu no Rio de Janeiro, fui o terceiro deputado mais votado na cidade do Rio de Janeiro.
Andrei Lara: Depois desse resultado, Eduardo Paes continua sendo quem dá a última palavra no PSD do Rio? Ou chegou a hora de outras lideranças terem mais espaço, inclusive você?
Daniel Soranz: Não, de maneira nenhuma. O PSD continua com esse cara que a gente admira, o nosso superprefeito Eduardo Paes.
Andrei Lara: A Saúde administra um orçamento grande e desperta muito interesse político. Até onde você já aceitou indicações de aliados? Já precisou dizer um “não” que deixou alguém importante contrariado?
Daniel Soranz: Não, eu tenho critérios de nomeação no Rio de Janeiro. Então tem critérios para você nomear um diretor de posto de saúde, um diretor de hospital.
E esses critérios eles seguem o critério de experiência, critério de formação acadêmica e também de participação em eventos científicos e programas científicos de pesquisa. Então são critérios importantes na hora que você escolher qualquer pessoa na saúde.
O Rio de Janeiro tem esses critérios publicados, o que evita indicações políticas desestruturadas dentro do sistema. Então eu nunca precisei dizer não quando fui secretário.
Andrei Lara: Você conhece bem Eduardo Paes e Eduardo Cavaliere. Longe das câmeras, qual é a maior diferença entre os dois? Quem cobra mais e quem escuta mais?
Daniel Soranz: Os dois são muito parecidos e são pessoas muito sensíveis, que têm capacidade de entender a dinâmica de uma gestão pública, que cobram que as metas sejam alcançadas, que o sistema seja eficiente, que os contratos estejam sendo feitos sempre de maneira correta. Acho que são muito parecidos.
Andrei Lara: Os ataques do vereador Marcelo Diniz, que chegou a chamá-lo de “vagabundo” e “bicha pão com ovo” na Câmara Municipal, chamaram atenção porque vieram de dentro do próprio PSD. Depois do pedido de desculpas, ficou tudo resolvido mesmo ou houve apenas uma trégua para preservar o partido?
Daniel Soranz: Acho que foi um episódio lamentável. Ele se retratou. Tem uma ação judicial correndo sobre isso. Da minha parte, o que ainda considero é lamentável.
Andrei Lara: Você percorreu o interior e construiu relações com prefeitos de vários partidos, inclusive do PL. Depois da derrota de Eduardo Paes, essas portas continuam abertas? Você quer ter um papel maior na articulação política do grupo?
Daniel Soranz: Eleição não é porque alguém pensa diferente de você e que ele seja seu inimigo. E o deputado precisa ter isso. O deputado precisa saber escutar o diferente, se relacionar com o diferente. Então, eu sempre fui assim.
Quem me viu conduzindo a pandemia na cidade do Rio de Janeiro sabe que eu não xinguei nenhum governo, trato sempre tudo de maneira muito técnica e trato de maneira muito pragmática, o que de fato é bom para o Sistema Único de Saúde, o que de fato faz o nosso sistema de saúde avançar.
Ter sempre o meu apoio, o que prejudica a nossa população na saúde, o que prejudica o desenvolvimento do nosso sistema não pode ser apoiado.
Andrei Lara: Eduardo Cavaliere já é o nome do PSD para disputar a Prefeitura do Rio em 2028? Isso está acertado ou ele ainda precisa conquistar essa posição dentro do partido?
Daniel Soranz: Naturalmente. Isso é uma posição natural. Ele é o prefeito e candidato à reeleição.
Andrei Lara: Cavaliere chegou à prefeitura como sucessor de Eduardo Paes. O que ele precisa fazer para chegar a 2028 com uma identidade própria? Em que momento a proteção do padrinho pode começar a limitar o crescimento do sucessor?
Daniel Soranz: Acho que um dos maiores erros de governos é querer ter identidade própria. A gente precisa defender políticas de Estado.
Então, o que, na minha visão, é essencial para um prefeito ir para o Cavaliere é conseguir entregar um sistema de saúde, um sistema de educação, um sistema de transporte, não necessariamente com a sua marca, mas sim que de fato seja eficiente para a população.
Andrei Lara: A aproximação com o PT pode continuar numa aliança municipal em 2028? Ou o PSD precisará ampliar suas alianças para alcançar também o eleitor que rejeita Lula?
Daniel Soranz: Não sei avaliar isso. Essa coisa é uma coisa para ser avaliada na frente, no futuro, não agora.
Andrei Lara: Com Douglas Ruas no governo estadual e a possibilidade de Flávio Bolsonaro chegar à Presidência, Cavaliere pode enfrentar dois governos comandados pelo PL. Esse cenário ameaça o projeto do PSD para 2028? Como evitar que a prefeitura fique politicamente isolada?
Daniel Soranz: É muita futurologia. Não consigo avaliar.
Andrei Lara: Qual deve ser a sua relação com Douglas Ruas: oposição política, colaboração na Saúde ou as duas coisas ao mesmo tempo? Onde você colocaria o limite entre cooperar com o governo e aderir a ele?
Daniel Soranz: Sempre a gente vai trabalhar para que o melhor para a população aconteça. Se ele estiver fazendo coisas que sejam boas para o sistema de saúde, ele vai ter o apoio não só meu, mas de todos os defensores do SUS.
Se ele continuar fazendo o mesmo tipo de política do seu padrinho político, que foi o Cláudio Castro, investindo pouco em saúde, desmontando o sistema estadual de saúde, dando calote nos municípios, obviamente que a gente vai ter que defender a população do estado do Rio de Janeiro.
Andrei Lara: Como você avalia a passagem de Ricardo Couto pelo governo estadual? Houve alguma medida ou postura daquele período que o próximo governo deveria preservar?
Daniel Soranz: Claro, acho que essa auditoria dos contratos foi essencial. Isso precisa acontecer. Eliminação de cargos que não estejam atuando próximo da população é muito importante e definir critérios técnicos de repasse de recursos para os municípios também foi uma boa doação.
Andrei Lara: E você, pessoalmente: quem apoia neste segundo turno presidencial? O que pesa mais nessa escolha, a sua convicção, a posição do grupo de Eduardo Paes ou os interesses do Rio?
Daniel Soranz: O que pesa é a minha decisão pessoal. A gente não tem uma decisão partidária. O PSD sempre deixa os seus deputados muito livres. Mas eu conheço muito do sistema de saúde.
Eu vivi o governo Bolsonaro, onde os hospitais federais foram completamente destruídos no Rio de Janeiro, onde a ciência foi completamente ignorada. E mesmo com muitas críticas ao governo do PT, eu vejo que é um governo que investe em saúde.
O Rio de Janeiro no governo Lula foi a capital do país que mais recebeu investimentos na área da saúde. O Rio de Janeiro recebeu 850 milhões de reais de investimento na área de saúde por ano, financiou os supercentros, a manutenção deles, que são um objetivo público essencial para reduzir o sistema de regulação, financiou a reforma do Andaraí e a reforma do Cardoso Fontes.
Então o governo Lula foi essencial para o avanço da saúde do nosso estado. E Lula sabe de fato a importância que a gente tem no Brasil.
Infelizmente, no governo Bolsonaro, a prefeitura do Rio, mesmo no governo Marcelo Crivella, foi uma das primeiras prefeituras a receber recursos e quase quebrou.
Andrei Lara: Se Flávio Bolsonaro for eleito, você considera participar da base do governo? Que compromissos com o SUS seriam necessários para você dar esse apoio?
Daniel Soranz: O compromisso é fazer o nosso sistema de saúde crescer. Esse é o nosso objetivo como deputado.
Andrei Lara: Mas você participaria da base de apoio?
Daniel Soranz: Eu tenho um candidato a presidente da República, que é o presidente Lula.
Andrei Lara: Deputado, o senhor afirma que uma lei de sua autoria pode economizar R$ 8,2 bilhões para o Brasil. Como isso será possível?
Daniel Soranz: Meu principal objetivo agora, neste fim de ano, é conseguir implementar o Sicx na prática. É o Sistema de Compras Expressas, uma lei de minha autoria que muda o formato de compra de itens padronizáveis no Brasil.
Hoje, os governos fazem cerca de três mil licitações por ano para comprar atenolol. É um medicamento que todos os municípios e universidades compram. Só que temos 13 grandes fabricantes nacionais desse medicamento. Então, não faz sentido realizar três mil licitações para 13 produtores.
Essa lei, que já foi aprovada na Câmara, no Senado, sancionada pelo presidente da República e regulamentada, cria um marketplace, onde os entes federativos poderão realizar suas compras diretamente, como já acontece em países como Chile e Dinamarca.
O comprador faz a nota de empenho, sem precisar passar por todo o processo burocrático de uma licitação tradicional. A empresa que vendeu tem 30 dias para entregar o produto e, após a entrega, o comprador tem 30 dias para efetuar o pagamento.
A plataforma já foi lançada pelo Ministério da Gestão e da Inovação (MGI) e deve começar a funcionar nos próximos dias. É uma lei nacional que vai gerar uma economia de R$ 8,2 bilhões para o Brasil.