Inaugurada um ano antes da fusão, a Ponte Rio-Niterói representa a integração que o estado do Rio de Janeiro precisaArquivo

No dia 15 de março de 1975, por decisão do então presidente da República, Ernesto Geisel, o estado do Rio de Janeiro se fundiu ao estado da Guanabara, formando uma única unidade federativa. O movimento geopolítico, inédito no Brasil, já se desenhava desde a década de 1950, quando a construção de Brasília antecipava a perda de poder político da cidade do Rio, então capital federal. Passados 50 anos, no entanto, ainda há muitas perguntas. A principal delas: a união dos dois estados foi benéfica?
Embora alguns historiadores entendam que a fusão tenha sido uma estratégia da Ditadura Militar para reduzir a influência política da Guanabara, considerado um reduto de oposição, oficialmente a união teve como objetivo criar um estado mais forte e competitivo, com melhor infraestrutura de serviços e custos administrativos reduzidos. A fusão também tinha como objetivo promover o desenvolvimento econômico e social da região, aproveitando as oportunidades oferecidas pela concentração de recursos e infraestrutura. Seria uma forma de manter o protagonismo frente ao crescimento do parque industrial do vizinho estado de São Paulo.
O choque de realidades foi inevitável. O antigo estado do Rio, cuja capital era Niterói, tinha um perfil mais rural e conservador. A antiga Guanabara guardava o dinamismo de ter sido capital, contando com uma infraestrutura urbana desenvolvida e uma forte identidade cultural. Do ponto de vista político, abriu-se uma disputa entre capital e interior por protagonismo e disputa de recursos públicos.
Aos poucos, a realidade se impôs às custas das demandas e oportunidades surgidas. Enquanto a capital se firmou como polo de turismo e cultura, o interior cresceu principalmente com a indústria do petróleo, a indústria naval, a siderurgia, o setor automobilístico, a agricultura e o turismo, aumentando sua participação do Produto Interno Bruto (PIB) estadual de 45% para 60%.
Mas, passadas cinco décadas, os desafios da fusão ainda são evidentes. Muitos políticos continuam acreditando que governar o estado é o mesmo que ser prefeito da capital. A Região Metropolitana, que concentra 80% da população, enfrenta o desafio da pobreza e da violência, enquanto o interior enfrenta dificuldades para se desenvolver economicamente de maneira equilibrada. Com pouca oferta de empregos nos municípios menores, muitos acabam migrando para o grande centro, agravando ainda mais o drama social.
Talvez seja este o principal desafio nos dias de hoje: tratar o Rio de Janeiro realmente como um estado, e não como uma proposta, estabelecendo uma política de integração e desenvolvimento estratégico a curto, médio e longo prazo. De onde viemos? Onde estamos? Para onde vamos? Como queremos chegar lá? Foi o que fez com sucesso o vizinho estado do Espírito Santo, onde um interior fortalecido pelos seus potenciais econômicos dialoga harmonicamente com a capital, Vitória – hoje reconhecida por sua excelente qualidade de vida.
O Rio precisa de um projeto de crescimento, imposto pela realidade. Enquanto a capital e cidades da Região Metropolitana perdem população, outras cidades crescem em ritmo assustador, demandando investimentos em infraestrutura. O Sul Fluminense se conecta cada vez mais com o Vale do Paraíba (SP), consolidando-se como parte de uma megalópole que une as duas maiores cidades do Brasil. No litoral norte, uma metrópole com mais de 1,5 milhão de habitantes está em formação, englobando os municípios da Bacia de Campos. O Porto do Açu caminha a passos largos para se tornar o maior complexo portuário do país e um polo de geração de energia limpa. A agricultura se fortalece e precisa ser vista com mais atenção, visto que 80% do que o estado do Rio consome de hortigranjeiros ainda é importado de outros estados.
Com opiniões contra ou a favor, a fusão é uma realidade sem volta. Portanto, o estado precisa olhar para a frente, unindo capital e interior num projeto de desenvolvimento efetivo. Não por acaso, a imagem que ilustra este artigo é da Ponte Rio-Niterói. Sua inauguração, em 1974 – um ano antes da fusão –, parecia já indicar o caminho: construir pontes para diminuir distâncias e aproximar realidades.