Investimentos em ciência e tecnologia geram produtos com valor agregado mais alto, fundamentais para a balança comercialArquivo/Agência Brasil
Ciência e tecnologia, um caminho para as exportações brasileiras
Para crescer com sustentabilidade e protagonismo global, o Brasil precisa ampliar a exportação de produtos com maior valor agregado.
Há décadas o Brasil figura entre os maiores exportadores de commodities do mundo — soja, minério de ferro, petróleo, café, carne, milho, etc. Graças a esses produtos, o país sai bem na foto quando o assunto é a balança comercial. Mas poderia ser bem melhor.
O modelo baseado em bens primários, de baixo valor agregado, já não é suficiente para garantir crescimento econômico sustentável, geração de empregos qualificados e protagonismo global. O presente e o futuro pertencem às nações que apostam em tecnologia e inovação como motores do desenvolvimento.
Países como Estados Unidos, Alemanha, China, Japão e Coreia do Sul se voltaram para essa realidade. Seu sucesso não se baseia em vender matéria-prima, mas sim em exportar conhecimento incorporado em bens de consumo duráveis, eletrônicos, máquinas, equipamentos de ponta, softwares e serviços tecnológicos. Nesses países, a inovação é estratégica, planejada e incentivada por políticas públicas robustas.
O Brasil, embora tenha alguns casos de sucesso, ainda está longe desse padrão. Uma das exceções é a Embraer, terceira maior fabricante de aviões do mundo. Com engenharia de ponta, capacitação técnica e investimentos em pesquisa, a empresa se consolidou como exportadora de produtos sofisticados. Da mesma forma, a Embrapa revolucionou a agricultura tropical com ciência, possibilitando que o país assumisse a dianteira na exportação de produtos agropecuários.
Apesar de avanços pontuais, o Brasil ocupa a 64ª posição no Índice Global de Inovação (IGI), muito atrás de outros países latino-americanos como o Chile. Mesmo investindo em pesquisa e desenvolvimento (28ª colocação global em gastos), o país não consegue traduzir esse esforço em resultados práticos — ainda aparece em 64º lugar em Produtos de Conhecimento e Tecnologia e 78º em Produtos Criativos. Esse descompasso entre investimento e resultado tem raízes profundas: falta de mão-de-obra qualificada, insegurança jurídica, burocracia, infraestrutura deficiente e uma cultura empresarial ainda pouco orientada à inovação.
A boa notícia é que o país tem base para mudar essa realidade. A agroindústria, o setor energético, a biotecnologia e mesmo o setor digital já apresentam nichos de excelência. O que falta é escala — e vontade política. Políticas públicas que incentivem startups, facilitem o acesso a crédito, protejam a propriedade intelectual e estimulem a formação de engenheiros, cientistas e programadores são fundamentais. Também é essencial estreitar laços entre universidades, centros de pesquisa e empresas, transformando conhecimento em produto, serviço e solução.
A aposta em tecnologia é fundamental para desenvolver o mercado interno, diversificar e sofisticar as exportações brasileiras. Produtos com maior valor agregado não apenas geram mais receita, como também reduzem a vulnerabilidade do país a oscilações nos preços internacionais das commodities. Com inovação, o Brasil pode acessar mercados mais exigentes, vender inteligência em vez de apenas matéria-prima e, principalmente, criar uma economia mais resiliente e inclusiva.
É hora de romper com o modelo primário-exportador e mirar um futuro em que a criatividade, a ciência e a tecnologia movem a economia nacional. Os exemplos de sucesso já existem. Falta transformá-los em política de Estado. Com inovação, é possível gerar empregos qualificados, aumentar a produtividade, ampliar as exportações e garantir um crescimento econômico com mais qualidade, inclusão e competitividade global. Afinal, um país que quer ser grande não pode se contentar em exportar o que extrai — precisa exportar o que sabe fazer.

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