Pessoas com deficiência encontram muitas barreiras para ingressar e se manter no mercado de trabalhoDepositphotos/Agência Câmara de Notícias

Não importa se a porta da frente de uma empresa seja de vidro, madeira ou metal. Para muita gente, ela sempre foi uma porta difícil de atravessar. Não por falta de capacidade, formação ou vontade de trabalhar, mas porque o mundo do trabalho ainda não está preparado para receber todos.
Números do IBGE com base no Censo 2022 ajudam a dimensionar esse problema. Apenas cerca de três em cada dez pessoas com deficiência em idade de trabalhar estavam ocupadas no ano do levantamento. A taxa de ocupação ficou 26,8 pontos percentuais abaixo da registrada entre as pessoas sem deficiência. E nada me leva a crer que, quatro anos depois, esse índice tenha aumentado muito.
Imagine uma jovem chegando para uma entrevista de emprego. Ela estudou, preparou o currículo, escolheu a roupa e ensaiou as respostas. Mas, antes mesmo de falar sobre sua experiência, precisa enfrentar uma pergunta silenciosa: será que esta empresa está preparada para ela?
O obstáculo nem sempre está na deficiência. Muitas vezes, está no ambiente ao redor dela: na falta de acessibilidade física e comunicacional, no preconceito, na ausência de adaptações no posto de trabalho, em processos seletivos pouco inclusivos e na dificuldade de reconhecer diferentes formas de realizar uma mesma tarefa.
E existe outra porta dentro da própria porta: a desigualdade entre homens e mulheres. Entre as pessoas com deficiência, 35% dos homens estavam ocupados, contra apenas 24% das mulheres. A diferença revela que a deficiência se soma a outras desigualdades já existentes no mercado de trabalho. É muita gente ficando do lado de fora; não por falta de capacidade, mas por falta de acessibilidade.
Quando uma empresa contrata uma pessoa com deficiência, não está fazendo um favor. Está incorporando um profissional ao seu quadro, com direitos, responsabilidades, talentos e possibilidades de contribuição. Quando adapta um ambiente, oferece tecnologia assistiva ou revê um processo seletivo, não está diminuindo a exigência, e sim retirando uma barreira que limita o próprio crescimento do país. Que limita a cidadania. Limita sonhos. Limita o futuro de milhões de pessoas.
Inclusão no mercado de trabalho não deveria ser uma história sobre pessoas com deficiência tentando provar que conseguem trabalhar, e sim uma história sobre uma sociedade finalmente aprendendo que trabalho é lugar de todos. E que nenhuma porta pode ser considerada realmente aberta enquanto milhões ainda encontram dificuldade para atravessá-la.