Bella Campos expõe o que ainda tentam calarFoto: Redes sociais/ Reprodução
Exclusivo Do sorriso no encontro à firmeza ao se posicionar: Bella Campos nunca foi o que disseram
Minha análise nasce de uma experiência com a atriz e aponta para uma estrutura que insiste em se repetir
Há textos que a gente não escreve apenas como jornalista, escreve como corpo presente na história. Este é um deles.
Nos últimos dias, a entrevista de Bella Campos reverberou com força. Não só pelo que foi dito, mas pelo que foi reconhecido. Quando uma mulher preta, jovem, protagonista de uma das maiores produções da televisão brasileira, decide nomear o que viveu, misoginia, silenciamento, constrangimento, ela não está abrindo apenas uma ferida individual. Ela está escancarando uma estrutura.
E estrutura, no Brasil, tem cor, gênero e endereço.
Falo também a partir de onde piso. Sou homem preto, jornalista, morador da Baixada Fluminense. Aprendi cedo que, antes mesmo de abrir a boca, já existe uma narrativa pronta sobre quem somos. Foi com esse histórico que cheguei, no dia 19 de março, ao Copacabana Palace, para o chamado 'Jantar Preto'. E foi também com esse acúmulo que ouvi, antes de encontrá-la: "Bella é difícil", "pise em ovos".
Não precisei de muito tempo para entender o quanto esses rótulos dizem mais sobre quem os cria do que sobre quem os carrega.
Ao me aproximar de Bella, microfone em mãos, fui interrompido, não com resistência, mas com acolhimento. Um gesto simples, mas potente, ela segurou minha mão antes mesmo que eu terminasse de me apresentar. "Claro que falo", disse, com um sorriso que não era protocolo, era presença. E emendou, "Que maravilha, um profissional preto".
Aquilo não é detalhe. Aquilo é leitura de mundo.
Vi uma mulher que, antes de qualquer entrevista, fez questão de cumprimentar as recepcionistas, de reconhecer quem geralmente não é reconhecido. Vi uma artista que entende que o brilho não precisa apagar ninguém ao redor para existir. E, principalmente, vi uma consciência racial que não se aprende em assessoria de imprensa, se constrói na vida.
Nossa conversa foi leve, mas nunca superficial. Falamos de carreira, de audiovisual, de representatividade, dos ataques que recebeu ao interpretar Maria de Fátima no remake de Vale Tudo. E ali, diante de mim, não estava apenas uma atriz de 28 anos. Estava uma mulher com uma clareza rara sobre o lugar que ocupa e o preço que se paga por ocupá-lo.
Por isso, quando assisto à entrevista recente, não vejo surpresa. Vejo coerência.
Quando Bella relata episódios como um homem que se acha no direito de mandar que ela "cheire o sovaco" ou insinuar desejos a partir de estereótipos, não estamos diante de "casos isolados". Estamos diante do funcionamento mais cru do racismo estrutural e do sexismo que organizam as relações de poder no Brasil. É o mesmo sistema que historicamente violou corpos pretos, que os controlou, que os silenciou, agora travestido de bastidor de novela, de "brincadeira", de ambiente de trabalho.
E é preciso dizer com todas as letras, não há humor possível na humilhação.
Bella não critica a emissora em que trabalha. O que ela expõe é mais profundo, é um sistema sustentado, majoritariamente, por homens brancos que naturalizam comportamentos abusivos e esperam, em troca, silêncio e complacência. Quando ela se recusa a dizer que "está tudo bem", ela rompe um pacto antigo da indústria, o de sofrer calada para continuar empregada.
E isso incomoda.
Incomoda tanto que, no vácuo do silêncio dela naquele momento, houve quem se apressasse em falar. Mulheres, repórteres brancas, por motivações que não cabem a mim afirmar, mas que também não posso ignorar, empenharam-se em limpar a imagem de quem foi apontado como agressor. E aqui há um ponto que não pode ser suavizado, justamente mulheres, reproduzindo um padrão historicamente patriarcal, colocando-se contra outra mulher que denunciava violência.
Não se trata de um caso isolado, tampouco de uma característica individual. É, infelizmente, algo recorrente. A falta de letramento de gênero ajuda a sustentar esse tipo de postura, uma lógica em que mulheres também são levadas a validar estruturas que, no fim, as oprimem. Porque esse comportamento não é inato, ele é construído social e culturalmente, aprendido e reiterado ao longo do tempo. Esse é um dos mecanismos mais eficientes de manutenção do poder, quando a própria engrenagem se alimenta de quem também é atravessado por ela.
Depois perguntam por que Bella escolhe não falar com certas pessoas.
A resposta está dada.
Mas há uma outra dimensão que me atravessa e que, curiosamente, nem sempre ganha o mesmo destaque. Bella, a mesma mulher que denuncia violências, é também aquela que age. Recentemente, ela usou sua visibilidade para incentivar um senso coletivo ao doar seu acervo pessoal para um bazar beneficente. Não é sobre roupa. É sobre consciência social, sobre entender que influência, quando não serve ao coletivo, é apenas vaidade bem iluminada.
Essa postura dialoga diretamente com a trajetória dela. Criada em uma casa simples em Cuiabá, enfrentando dificuldades financeiras, cuidando da avó ainda jovem, escolhendo entre pagar contas ou comer, trabalhando como balconista antes de chegar à televisão, Bella não romantiza a própria história. Ela a compreende. E, ao compreender, transforma.
Talvez por isso a palavra que melhor sintetize nossa troca naquele dia seja "ubuntu", eu sou porque nós somos.
Desligamos as câmeras, mas o encontro continuou. Conversamos, nos emocionamos, nos abraçamos. E ali ficou evidente algo que deveria ser básico, mas ainda é tratado como privilégio, Bella quer apenas trabalhar com o que ama e ser respeitada.
Só isso.
Mas, para corpos como o dela e, em alguma medida, como o meu, o básico ainda precisa ser reivindicado em voz alta.
Até quando?
Essa não é uma pergunta retórica. É um chamado.
Porque enquanto histórias como a de Bella continuarem sendo tratadas como exceção, estaremos fingindo não ver o óbvio. E o óbvio, no Brasil, é que ser mulher e preta ainda significa enfrentar mais obstáculos, mais vigilância e mais violência, inclusive nos espaços que se vendem como progressistas.
Bella falou. E ao falar, abriu caminho para que muitas outras não precisem escolher entre dignidade e trabalho.
Cabe a nós, enquanto imprensa, decidir de que lado dessa história queremos estar.

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