'Não sei se é bom para o Moro', diz imortal da ABL sobre novo ministro de Bolsonaro

Para Joaquim Falcão, no entanto, "a democracia exige que você dê crédito a quem foi eleito mesmo que você não esteja de acordo"

Por CÁSSIO BRUNO

O jurista Joaquim Falcão é o mais novo membro da ABL
O jurista Joaquim Falcão é o mais novo membro da ABL -

Rio - Aos 75 anos, o jurista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Joaquim Falcão tomou posse mês passado como o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele ocupa a cadeira três após a morte de Carlos Heitor Cony, em janeiro. Em entrevista exclusiva à coluna, Falcão falou sobre as indicações ministeriais do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).

"Só conheço bem o Sérgio Moro (Ministério da Justiça). Foi bom para o Brasil, mas não sei se é bom para o Moro. Me preocupa a indicação para a Educação", disse.

O DIA: O Brasil está no rumo certo?

JOAQUIM FALCÃO: Quem é Brasil? É o povo, os eleitores. O povo votou e estabeleceu valores cujos os principais são segurança e (combate à) corrupção. Ou seja: são os valores da vida. Por isso que o Judiciário e o Moro têm tido importância. Pela primeira vez, não prevalecem como decisivos os fatores econômicos, emprego, inflação e até mesmo educação e saúde. Prevaleceram valores que dizem respeito à soberania.

A nossa democracia está ameaçada?

Está em um momento difícil em todo mundo. Cada país tem o seu problema. A Alemanha tem o da imigração. Os Estados Unidos têm o da imigração e do autoritarismo cultural do presidente Trump. E nós temos os nossos problemas. Mas as instituições estão funcionando. Devem ter alguma turbulência. Porém, nada que obrigue o avião a parar.

E quais são os nossos problemas?

A concentração de renda, que cresce. O rico fica mais rico e o pobre mais pobre. Se o Brasil continuar com uma política apenas financeira e não com uma política de produção de produtivismo, teremos um problema complicado.

Como o senhor avalia os ministros indicados por Jair Bolsonaro?

Só conheço bem o Sérgio Moro. Foi bom para o Brasil, mas não sei se é bom para o Sérgio Moro. Me preocupa a indicação para (o Ministério da) Educação (Ricardo Vélez Rodríguez). Os movimentos sociais, as associações de professores, de estudantes, são ativos. Haverá de ter uma convivência, uma pauta comum. Do contrário, é possível que tenha turbulência.

Não foi boa a indicação para a Educação?

Eu não o conheço. Mas vamos ver. Não podemos ser contra antes de saber como será. A democracia exige que você dê crédito a quem foi eleito mesmo que você não esteja de acordo.

A Escola sem Partido é a solução?

A questão não é essa. É cada um assumir a sua responsabilidade. Sou contra a interferência na liberdade de cátedra. A não ser que exista um processo explicitamente e de padrão internacional de doutrinação, o que não é o nosso caso.

Como será a atuação na ABL?

Os direitos não chegam a todos, como saúde, educação e emprego. Precisamos é construir e desobstruir a infraestrutura da liberdade e da democracia.

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