'Veja a vida que o Freixo vive', diz vereador do Psol sobre não enfrentar mais as milícias

João Batista Oliveira de Araújo, o Babá, ocupa o lugar de Marielle Franco há um ano e diz não ter condições de combater paramilitares. Segundo ele, existem "quatro ou cinco" parlamentares que são milicianos na Câmara

Por CÁSSIO BRUNO

O vereador do Rio, Babá, do Psol
O vereador do Rio, Babá, do Psol -

João Batista Oliveira de Araújo, o Babá, de 65 anos, é vereador após substituir Marielle Franco, assassinada há um ano. Professor universitário e engenheiro mecânico, se elegeu vereador em Belém e deputado estadual e federal pelo Pará, onde nasceu. Sempre pelo PT, partido do qual o expulsaram. Ajudou a fundar o Psol, sua atual legenda.

Hoje, o parlamentar do Rio diz que não há condições de enfrentar as milícias: "É mais grave que o tráfico. Veja a vida que o Marcelo Freixo vive". Segundo Babá, na atual legislatura, "devem ter quatro ou cinco milicianos".

O DIA: Como foi assumir o mandato após a tragédia?

BABÁ: Estava em casa. Tinha vindo do trabalho. Recebi um telefonema: "olha, assassinaram a Marielle". Fui ao local. Jamais quis assumir um cargo nessas condições.

Manteve os assessores dela? Eram quantos?

Dezoito, algo assim. Não era justo que, por força de uma tragédia, ficassem sem dinheiro. Combinei o seguinte: nomeei 25% do meu mandato e 75% do grupo da Marielle. Pouco a pouco fomos acolando em outros gabinetes.

Como está sendo o trabalho hoje?

É difícil substituí-la. Sentei com a bancada para defender as bandeiras. Dos projetos dela, só não conseguimos acordo para o Dia contra a Homofobia.

Por quê?

Por causa do conservadorismo da Câmara. Vamos lutar até aprovar.

Qual foi a principal dificuldade neste período?

As características. Fui por 18 anos parlamentar pelo Pará. Respeitei as bandeiras dela, mas a prioridade são as lutas pelos trabalhadores e campanhas salariais.

Tomou alguma medida de segurança?

Não.

Por quê?

Porque dentro da Câmara não temos mais um enfrentamento contra as milícias. No mandato passado, havia um miliciano. Hoje, devem ter quatro ou cinco.

Melhor não enfrentar?

Não tenho condições. Hoje é mais grave a milícia do que o tráfico. Veja a vida que o Marcelo Freixo vive.

O que está faltando?

Enfrentamento do Estado.

De que forma?

Indo para cima com força para retomar os territórios. Quando falo Estado, quero dizer o governo, que tem controle das polícias estaduais, e a Polícia Federal.

Como vê as investigações do caso Marielle?

Tem que ter a Polícia Federal. O (governador Wilson) Witzel, que comanda as investigações, é o mesmo que estava junto com os dois parlamentares que quebraram a placa em homenagem à Marielle.

Tem mágoa do Lula?

Não (risos). É ele quem deve ter porque o enfrentei desde o primeiro momento quando ele pôs o José Sarney como presidente do Senado e levou o Henrique Meirelles para comandar o Banco Central.

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