'Chorei na cela, isolada, por 25 dias seguidos', diz Carminha Jerominho

Ex-vereadora, presa por suspeita de integrar milícia na Zona Oeste, volta à política e concorrerá a uma vaga na Câmara em 2020

Por CÁSSIO BRUNO

A ex-vereadora Carminha Jerominho
A ex-vereadora Carminha Jerominho -
RIO - Carmem Glória Guinâncio Guimarães Teixeira, a Carminha Jerominho, de 41 anos, está de volta à política. Será candidata à vereadora pelo Rio, como a Coluna revelou no último dia 13. O anúncio ocorre pouco mais de 11 anos depois de a CPI das Milícias da Alerj pedir o seu indiciamento e de mais 225 pessoas, incluindo políticos, policiais, bombeiros e agentes penitenciários. Ela é filha de Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, e sobrinha do ex-deputado estadual Natalino José Guimarães, que vão inaugurar um centro social em Campo Grande. Ambos foram condenados por comandarem a maior milícia da Zona Oeste. Os irmãos ficaram presos por mais de uma década e, agora, estão soltos.

O DIA: Por que decidiu voltar à política como pré-candidata a vereadora?

CARMINHA JEROMINHO: Tenho ideais. Nunca desisti da política. Só fiquei afastada um tempo para provar toda a injustiça. Tudo que fizeram contra o meu pai. Tudo que Sergio Cabral fez contra ele. Era uma coisa que eu já tinha dentro do meu coração porque, na verdade, fui injustiçada. Não consegui ter um mandato inteiro porque me cassaram. Lutei na Justiça. Só fiquei dez meses no mandato. Então, é uma forma de rever uma injustiça. E, com o meu pai e meu tio, tenho certeza que a gente é muito mais forte.

Por que acha injustiça?

É só olhar o processo que me afastou da Câmara, alegando que eu estava sendo investigada. Quem devolveu o meu mandato foi a Cármen Lúcia (ex-ministra do Tribunal Superior Eleitoral). Foi uma arbitrariedade. Não mostrei a minha capacidade, porque o trabalho do meu pai e do meu tio as pessoas já conhecem bem.

Seu retorno teve influência do Jerominho e do Natalino?

Não. Quando recuei, achei conveniente porque a perseguição era tão grande que estavam usando a política para dizer que eles influenciavam. Parei e falei: "Não dá! Deixa meu pai e meu tio saírem (da prisão) que eles vão me ajudar e eu vou ficar bem mais tranquila de não fazerem nenhuma covardia".

Sua candidatura será pelo Avante?

A gente ainda vai definir. Estou no Patriota.

Quem você e sua família vão apoiar para prefeito na próxima eleição?

Não definimos. Veremos mais para frente como estará o quadro político.

Como está vendo o momento atual do Rio politicamente?

O Rio está um caos. Mas não posso dar uma opinião sobre o (prefeito Marcelo) Crivella (PRB). Se eu estivesse na Câmara, soubesse sobre os orçamentos, até poderia formar uma opinião. Acredito que ele tenha pegado o município realmente com uma dívida grande.

Quanto custou a construção do novo centro social da sua família?

Não está pronto. O custo será irrisório. Por exemplo: o ferro será doado por um rapaz que tem serralheria. É a própria população que ajudará. O custo será bem pequeno mesmo.

Pequeno quanto?

Não faço ideia. Não mexo com obra. Depois de aberto, o custo operacional será formado por pessoas voluntárias. O serviço social está sendo movimentando por meu pai e meu tio. Todos virão trabalhar gratuitamente, inclusive os médicos, ginecologistas, pediatras. Um amigo ou outro pagará uma conta de luz. Não estou envolvida diretamente por causa da campanha política.

Não teme que sejam acusados de comprar votos por causa do centro social?

Não. O trabalho social do meu pai é desde 1992. Ele e o meu tio não serão candidatos. A candidata sou eu.

Mas eles vão coordenar sua campanha.

Não. Sempre ajudei a coordenar as campanhas deles. A minha quem faz sou eu.

Você ficou presa 43 dias. Como foi esse episódio?

De muita humilhação. Tinha acabado de me formar. Trabalhei a vida toda.

Como era a rotina?

Chorei na cela, isolada, por 25 dias seguidos. Não tinha ninguém da família que pudesse estar lá. Existe uma demora, quando você chega no presídio federal, vai para o Regime Disciplinar Diferenciado e não pode receber visitas durante dias. Não podia pegar sol porque não tinha espaço. Fiquei completamente isolada, sem falar com ninguém, sem ler livros.

No que pensava?

Nos 25 dias que chorei, me concentrava e tinha certeza de que havia pessoas que acreditavam na gente porque existia uma injustiça e elas estariam lá lutando por mim. Tive consciência porque vi como amavam o meu pai e o meu tio na rua durante a campanha deles.

Em 2008, você foi eleita mesmo presa.

Fui eleita com 23 mil votos presa (na verdade, foram 22.049). Me prenderam, mas as pessoas continuaram fazendo a campanha. Com 30 dias para terminar, viram que não recuávamos. Logo depois, prenderam o meu tio. A uma semana das eleições, cassaram o meu registro e divulgaram nos jornais que eu não era candidata. Mesmo assim, fui eleita.
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