'A todo tempo sou chamada de louca', diz Taliria Petrone, sobre machismo no Congresso

Ela conta ainda que, apesar de contar com escolta da polícia legislativa, em Brasília, continua recebendo ameaças

Por Gabriela Oliva*

Deputada federal Talíria Petrone
Deputada federal Talíria Petrone -
Em seu primeiro mandato como deputada federal, Talíria Petrone (PSOL-RJ), de 34 anos, fala sobre os desafios de ser uma parlamentar mulher e negra em um Congresso com maioria de homens brancos. Mesmo após contar com escolta da polícia legislativa, em Brasília, diz que as ameaças continuam, incluindo de gente armada em comitê do PSOL. Militante do movimento negro, foi autora de representação contra a nomeação de Sérgio Camargo, para a presidência do Instituto Palmares: "Alguém que quer acabar com o movimento negro não poderia estar nesse cargo".
Este é seu primeiro mandato como deputada federal e sua atuação na Câmara tem sido marcada pelo enfrentamento. Como você avalia o espaço das mulheres no Congresso?

Acho que houve uma ampliação de mulheres no Congresso este ano. Mas isso também inclui mulheres que rejeitam a pauta feminista. A gente tem que trabalhar para o aumento da representatividade de mulheres que defendam os direitos das mulheres. A gente tem a Damares Alves, no Ministério da Mulher (da Família e dos Direitos Humanos). Mas ela está na contramão dos nossos direitos.Ao mesmo tempo, a gente lançou a Frente Feminista Antirracista que pretende atuar com a participação de mulheres de diferentes partidos. É um avanço importante.

Já enfrentou alguma atitude racista ou machista no Congresso?

A todo tempo sou chamada de ‘menina’, de forma pejorativa, e de ‘louca’ por deputados.‘Manda essa menina ficar quieta’ e ‘maluca’ são frases que já ouvi. É constante a tentativa de deslegitimar o nosso papel. Hoje estou na Comissão de Constituição e Justiça que é uma das mais importantes da Casa. É uma comissão muito masculina e muito branca. Mesmo a ideia de transversalizar a luta de gênero e racial é presente. Quando vou discutir orçamento, previdência e economia, também discuto gênero e raça.
Como é o seu trabalho na Comissão?

É um cotidiano intenso. São três reuniões semanais e mais de 80 pautas diárias.Infelizmente está sendo um trabalho muito diferente do que eu ouvi dos assessores dos últimos anos. O presidente (da Comissão de Constituição e Justiça, Felipe Francischini) tem pautado o que é prioridade para o governo. É quase uma instrumentalização para o governo. As pautas penais que são as que mais atingem as mulheres negras e seus filhos têm sido prioridade na Comissão, assim como o aumento de pena e a tentativa de aprovar o excludente de ilicitude. Uma série de ações que alargam o estado penal policial que já vitima tantos jovens negros, que foram mais de 1.500 mortos pela polícia este ano, um recorde desde 1998.
O novo presidente da Fundação Palmares, Sérgio Nascimento de Camargo, negou a existência de racismo. Como você encara tal nomeação?

Ele não tem nenhuma legitimidade para estar à frente da Fundação Palmares,que é um órgão público com objetivo de enfrentar o racismo e promover a cultura afro-brasileira. Alguém que não reconhece o racismo no país, quer acabar com o movimento negro e rejeita Zumbi é alguém que não poderia estar neste cargo. Eu e a deputada Áurea Carolina (PSOL-MG) entramos com uma representação contra ele e essa nomeação na Procuradoria Geral da República porque entendemos que isso é inadmissível.

Em suas redes sociais, ele diz que a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), assassinada em março do ano passado, usava a pauta racial para se aproveitar. Como você encara isso?

Além de rejeitar Zumbi, ele rejeita uma personalidade do nosso tempo como a Marielle, um símbolo de resistência negra. Mas ele é um homem negro que,com certeza, tem no seu corpo marcas do racismo. Mas infelizmente ele reproduz o racismo nas suas práticas.

Você e Marielle eram grandes amigas, além de companheiras políticas. Ela foi assassinada e você já recebeu inúmeras ameaças. Como tem se protegido?

Desde que eu topei a tarefa de ser figura pública recebo muitas ameaças. Desde difamação e injúria, até coisas mais concretas, como pessoas armadas em frente a comitê de campanha e ligações com ameaça de morte para a sede do PSOL. Recentemente a Polícia Federal identificou um risco à minha vida.Desde então, conto com escolta da polícia legislativa.

Você ainda recebe ameaças? Há um monitoramento para saber de onde elas vêm e quem são seus autores?

Nosso mandato questiona parte das instituições como a polícia, que age de forma equivocada. Existe o principal problema no Rio, que é a milícia. A gente tem um arquivo só de ameaças de morte recebidas em redes sociais. Mas, para além disso, existe o submundo da deepweb. Um verdadeiro escritório do crime se organiza na deepweb, onde há até chefes da milícia. A gente monitora, mas o papel de investigar é da polícia. E o meu mandato com certeza é influenciado por isso. Temos um mandato muito vinculado à periferia. Mas não é em qualquer lugar que você consegue chegar com carros pretos blindados e homens armados. Não é em todo lugar que se pode circular livremente como eu fazia antes. Toda minha agenda é monitorada antes para ver se eu consigo ir. Mais de um ano depois da morte de Marielle, os mandantes ainda não foram descobertos.

Como você encara isso?

Embora a gente fique satisfeito parcialmente em saber quem apertou o gatilho – o que mostra que o caso está andando - é um absurdo ainda não sabermos quem mandou matar Marielle e Anderson. É com muita indignação que a gente vê essa falta de resposta. Infelizmente, a gente tem o crescimento do ódio e o crescimento das milícias através do Estado. Os grupos de extermínio elegem até presidentes e senadores. Então, se a milícia tem um de seus braços no Estado, não basta saber quem apertou o gatilho, precisamos responsabilizar os mandantes.
* Estagiária sob supervisão de Maria Luísa de Melo
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