Pedro Paulo: 'A situação financeira do Rio e do Estado é gravíssima'

Em entrevista, deputado aponta ainda divergências que tem em relação ao governo Bolsonaro.

Por Sidney Rezende

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Pedro Paulo -
O deputado Pedro Paulo (DEM) tornou-se um dos representantes do Rio de Janeiro mais atuantes em Brasília. Ele ganhou destaque este ano pelo seu desempenho na formatação do projeto de auxílio aos estados e municípios aprovado por 431 votos a 70 pelo plenário da Câmara dos Deputados. Nesta entrevista, o parlamentar mostrou a dimensão da sua preocupação com a situação financeira do governo do estado e do município. "A Prefeitura do Rio encerrou 2019 com R$ 1 bilhão de déficit orçamentário e R$ 4 bilhões de rombo de caixa, somados os restos a pagar. Quanto ao Estado, é mais desesperador, o orçamento de 2020 já veio com déficit de R$ 10 bilhões, e R$ 18 bilhões de restos a pagar descobertos". Numa conversa franca, Pedro Paulo demarcou suas divergências com estilo de governança do presidente Jair Bolsonaro e do prefeito Crivella. "O hospital de campanha do Riocentro não tem sequer processo montado, nenhuma transparência. Vai dar cadeia", acusou. Quanto a Bolsonaro, Pedro Paulo também foi veemente. "Ele critica o isolamento social, mas não implementa sequer uma ação planejada, coordenada do modelo vertical. Há governadores, ainda que poucos, que concordam com suas teses. Por que ele não as implementa nesses estados, de forma responsável e com todo o aparato de apoio do Governo Federal, aplica o que defende, e mostra ao Brasil - e para o mundo - que estamos errados?".

O senhor relatou o projeto de socorro a estados e municípios. Qual é a real situação financeira da prefeitura do Rio e do governo do estado?

O quadro é gravíssimo para ambos. A Prefeitura do Rio encerrou 2019 com R$ 1 bilhão de déficit orçamentário e R$ 4 bilhões de rombo de caixa, somados os restos a pagar. Quanto ao estado, é mais desesperador: o orçamento de 2020 já veio com déficit de R$ 10 bilhões, e R$ 18 bilhões de restos a pagar descobertos. Ambos, estourados na despesa de pessoal, com capacidade de investimento zero e serviços precários. Todos esses números são pré-pandemia. Com apenas 15 dias de isolamento, há cerca de um mês, o estado já projetava elevação do déficit de R$ 10 bilhões para R$ 25 bilhões. Ou seja, o que já estava péssimo, infelizmente, vai piorar.

É possível que no segundo semestre os salários dos servidores do município e do estado não sejam pagos em dia? O que fazer?

Para ambos, do lado das despesas, uma redução drástica e rigorosa do custeio em, no mínimo, 30%. Paralisando serviços não essenciais. Do lado da receita, é hora de criatividade e articulação política. Oferecer descontos agressivos para pagar em dia e até antecipar impostos e dívidas administrativas e ativa. Criaria uma central na Fazenda dedicada para reduzir inadimplência e negociar antecipações dessas obrigações. Com metas ousadas e bônus vinculados a resultados. Articular politicamente receitas extraordinárias junto ao governo federal, por exemplo, na cobertura de despesas extras na saúde e proteção social.

Há uma dificuldade de relacionamento político entre os três senadores que representam o Rio e o governador. Os senadores fluminenses poderiam ser mais atuantes?

Acredito que o conflito entre Witzel e Bolsonaro, que se amavam na eleição de 2018, além de ser uma traição para esses eleitores, terá consequências desastrosas para o Rio. O Estado, já está com dificuldade de cumprir o Regime de Recuperação Fiscal, sofre crise gêmeas - a Covid-19 e o Petróleo. Sem a ajuda da União, a tarefa é praticamente impossível. Setembro acaba o RRF. E o que vamos fazer? Renovar por mais três anos, o modelo atual não resolve mais. Para aprovar um novo modelo, por mais que eu, Rodrigo Maia, os deputados e senadores ajudemos no Congresso, ele vai precisar do Bolsonaro. Acredito que os senadores, que também fizeram campanha juntos, poderiam ser mais bombeiros e menos incendiários.

O presidente Jair Bolsonaro tem vida política no Rio e o ministro Paulo Guedes construiu sua carreira também no estado. Esta proximidade tem ajudado ou atrapalhado na luta por recursos?

Infelizmente, hoje, a briga política nos isola e atrapalha muito. Esta semana, o ministro Paulo Guedes e eu conversamos ao telefone sobre esses dilemas. Espero que, nos momentos decisivos para o Rio, nossa naturalidade fale mais alto.

Qual a sua avaliação sobre o desempenho do prefeito Marcelo Crivella no combate ao coronavírus?

Péssima e irresponsável. Estamos colhendo o desmonte do sistema de saúde municipal durante três anos. Não podemos esquecer que, em dezembro, já com a Covid-19 saindo da China, quase tivemos uma intervenção federal na saúde do Rio por atrasos sucessivos dos salários dos profissionais de saúde e desabastecimento. Crivella não tem liderança e coordenação entre as demais esferas. Somando todos os hospitais instalados na cidade, 1.840 leitos estão desativados por motivos simples de resolver. Ao mesmo tempo, hospital de campanha superfaturado, que já custou mais de R$ 100 milhões, e ainda está sem respirador. Não há higienização de ruas, o Cartão Família Carioca reduzido, e a educação sem planejamento e investimento em soluções remotas, só entrega cestas básicas. Uma tragédia absoluta.

Muita gente suspeita que possa ocorrer muita corrupção com a liberdade de contratação de empresas durante a pandemia sem licitação. Este risco existe?

Esse risco é real. Já tivemos um subsecretário de saúde do Estado preso. Daqui a pouco, será na Prefeitura do Rio. Principalmente, se continuar uma disputa entre vereador e político aposentado de quem vai comandar a subsecretaria municipal de compras emergenciais da Saúde. O hospital de campanha do Riocentro não tem sequer processo montado, nenhuma transparência. Vai dar cadeia.

O Brasil corre o risco de uma ruptura democrática?

O flerte autocrático de Bolsonaro é permanente. É difícil separar do que pensou e falou durante 27 anos como parlamentar, mas acredito que sua intenção é mais de assustar, ameaçar, do que romper com a democracia. Seu acerto, a simplicidade, a honestidade e a capacidade de se comunicar nesse novo tempo. Como erro, sua presidência voltada para seus eleitores mais fanáticos. Sua falta de liderança e coordenação das ações na crise tem sido responsável por uma sociedade dividida, sem coesão e confusa nas ações de enfrentamento, seja na saúde, na proteção social ou na economia.
Os ataques virtuais e pessoais colocam em risco a reputação das pessoas e sua integridade física. Por que isso tem se multiplicado e o que fazer para retornar com a civilidade?

A velocidade de proliferação da mentira é mais rápida que a capacidade de checagem e restabelecimento da verdade. Isso tem que ser freado. O caminho que parece mais óbvio é aperfeiçoar o arcabouço legal na direção da criminalização. Mas não é só isso e tampouco tão simples. Também é preciso avançar em outros pontos: construir métricas e ferramentas de acompanhamento e monitoramento do impacto da desinformação; iniciar a preparação de grandes plataformas de tecnologia para antecipar processos de "linchamentos virtuais"; e o mais importante e decisivo: usar a educação contra a desinformação. Adotar algumas lições, como identificar imagens manipuladas, verificar informações fora de contexto, checar dados, identificar robôs em perfis falsos, entre outras. Tudo isso se torna ainda mais necessário e urgente.
Muitos brasileiros não só não acreditam na existência do coronavírus como dizem que reconhecem em Bolsonaro o seu líder e que devemos quebrar o isolamento imediatamente. Qual o papel do presidente neste processo?
Discordo das opiniões do presidente, mas queria discordar de suas ações concretas e não de desabafos. Me explico: o Bolsonaro critica o isolamento social, mas não implementa sequer uma ação planejada, coordenada de isolamento vertical. Por exemplo, há governadores, ainda que poucos, que concordam com suas teses e falas. Então por que ele não as implementa nesses estados, de forma responsável e com todo o aparato de apoio do Governo Federal, aplicando o que defende, e mostrando para o Brasil e para o mundo que estamos errados? Acredito que o papel do presidente é liderar um grande esforço nacional, de forma coordenada, sem brigas, unindo mesmo aqueles que pensam diferente dele. Mas não é o que acontece. O comportamento dele contamina. Perdemos a coesão, estamos divididos e perdidos, batendo boca. Estamos passando vergonha mundial. E, o pior, perdendo milhares de vidas. 

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