"Mais que tolerância, a fé de cada um deve ser respeitada"

Vereador Átila Alexandre Nunes concedeu entrevista ao Dia.

Por Sidney Rezende

Átila Alexandre Nunes
Átila Alexandre Nunes -
A família Átila Nunes é tradicional na política do Estado do Rio de Janeiro e com profundas raízes na história no MDB. Atualmente, quem representa o clã na Câmara de Vereadores é Átila Alexandre Nunes Pereira. Ele é o neto de Átila Nunes Pereira, difusor da religião umbandista, falecido em 1968, e filho de Átila Nunes Filho, além de irmão de Átila Nunes Neto (falecido em 2012). O entrevistado de O Dia deste domingo é formado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, pós-graduado pelo IBMEC em Comunicação e Marketing, e com extensão em Finanças na Universidade de Berkeley, no estado da Califórnia, nos Estados Unidos. Além de legislador, ele já passou pelo Executivo quando tornou-se, em 2017, o titular da Secretaria de Estado de Direitos Humanos e Políticas para Mulheres e Idosos (SEDHMI). No Governo, Átila Alexandre desenvolveu projetos, instaurou comitês e comissões em prol da diversidade. Foi durante a gestão dele que a comunidade LGBT garantiu o direito à Carteira de Identidade Social e as mulheres ganharam um novo Centro Integrado de Atendimento à Mulher, o CIAM Manguinhos, na Zona Norte. Nesta entrevista, tratamos de intolerância religiosa para entender por que muitos cariocas que, aparentemente, demonstravam boa convivência com a fé alheia, agora destroem centros espíritas e ameaçam seguidores de religiões de matriz africana.

Vereador, qual a razão para tantos casos de intolerância religiosa no Rio de Janeiro?

Temos que ter em mente que, mais do que a tolerância, queremos que a fé de cada um seja respeitada. A intolerância, em geral, tem encontrado terreno fértil nas redes sociais. Discursos de ódio se tornaram comuns. Podem ser manifestações de racismo, de radicalização política ou perseguição religiosa. Intolerantes se encontram nas redes sociais e se sentem à vontade para expor seus pensamentos preconceituosos. Especificamente com relação às religiões afro-brasileiras, depois de mais de 20 anos sofrendo ataques, sendo vilipendiadas através de meios de comunicação, como canais de TV e Rádio, criou-se um segmento da população que menospreza, desrespeita e até ataca essas matizes religiosas. A impunidade também alimenta esse comportamento.

Centros espíritas estão sendo atacados em favelas e regiões mais pobres da cidade. O senhor tem explicação para este fenômeno?

Quando fui secretário de Estado, identificamos que esses ataques vinham de uma determinada facção criminosa, pois alguns de seus membros se comportavam como falsos evangélicos. Inclusive vimos registros de fuzis raspados com o nome de Cristo. Obviamente não são cristãos, mas, dentro da lógica de domínio territorial típica de facções, ameaçam zeladores de santo para que abandonem seus terreiros e, assim, impedir a diversidade religiosa nesses territórios. Esse assunto vem sendo acompanhado pela Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância) com alguns resultados importantes, delegacia essa inaugurada pela Polícia Civil com o apoio da nossa Secretaria em dezembro de 2018.

Há possibilidade de convivência pacífica entre pessoas que professam fé diferente?

Com certeza! É assim que concebo uma sociedade evoluída, com adeptos de diferentes crenças e ateus convivendo em harmonia. A pluralidade, não só na religião, mas em diversos aspectos da vida, é muito positiva. Princípio fundamental em um país democrático e civilizado. Para isso, precisamos ampliar o diálogo e o conhecimento. Vale lembrar que o preconceito é fruto da ignorância.

Os evangélicos e católicos possuem poderosos meios de comunicação para expressar sua convicção, já os espíritas não contam com as mesmas plataformas. Por que isso?

A questão financeira aí faz toda diferença, já que o custo para possuir TVs e Rádios, ou mesmo alugar tempo de programação, é muito caro. Além disso, nas religiões espiritualistas, não existe a preocupação em promover conversões e, por isso, não há razão para utilizar meios de comunicação em massa. Todos são bem-vindos, mas nenhum espiritualista tem como missão converter novos adeptos. O entendimento é de que quem abraça uma religião é porque se identificou com ela, fez bem a essa pessoa. Simples assim!

O senhor também é um homem de comunicação. Qual a melhor maneira de combater as notícias falsas (fake news)?

As redes sociais, com a lógica dos seus algoritmos, são campos férteis para a propagação de fakes news com base em teorias da conspiração e ressentimentos, sempre com uma linguagem radicalizada. Para começar, essas empresas de mídias sociais precisam assumir a responsabilidade para impedir que suas redes sejam usadas como meios de propagação em massa dessas fake news. As providências tomadas até aqui são muito tímidas. Para se ter uma ideia, a previsão para esse ano é de que só o Facebook terá um faturamento de mais de U$ 80 bilhões em publicidade. Não pode querer se isentar dessa responsabilidade.
Segundo, da mesma forma que todos têm voz agora, a credibilidade tem que ser levada cada vez mais em consideração. Aquele amigo que sempre posta uma notícia falsa, sem comprovação alguma, tem que começar a ser ignorado como referência. Isso é um processo, mas é a tendência conforme vamos aprendendo a lidar com esses meios.

O senhor é vereador, qual sua avaliação sobre a situação do Rio? O que a administração atual acertou e o que ela errou?

Qual legado essa administração deixará para o Rio? Qual marca positiva será lembrada pelos cariocas? Simplesmente nenhuma! Basta cada carioca perguntar se estava melhor antes desse governo ou agora. Além de não avançar, ainda fez a cidade regredir em várias áreas. Crivella ganhou a eleição prometendo que cuidaria das pessoas, mas naquele episódio do 'fale com a Márcia', ficou claro com quem ele está realmente comprometido. A obrigação de um governante é governar para todos, independente de religião ou ideologia política. Um prefeito não pode oferecer vantagens indevidas a um determinado segmento. Por isso, apresentei o primeiro pedido de impeachment do Crivella a partir desse episódio. Apesar do impeachment não ter avançado, a Justiça determinou à época 12 restrições à administração Crivella, proibindo que um determinado segmento religioso fosse beneficiado em detrimento do resto da população.

O presidente Bolsonaro é do Rio, o que ele fez de concreto pela cidade?

Quando governantes se desentendem, quem sempre sai prejudicado é a população. O ambiente anda muito radicalizado. Para o Estado do Rio, será fundamental renovar o regime de recuperação fiscal por mais 3 anos, caso contrário ele quebra. A cidade, por sua vez, já está quebrada. O rombo na virada desse ano estava em R$ 4 bilhões, mesmo com o acréscimo da arrecadação em decorrência do aumento do IPTU. Depois da pandemia, esse valor pode até dobrar. Por isso, mais do que nunca, será preciso trabalhar em parceria com o Governo Federal, mas não vimos nada de concreto até agora em benefício do carioca.

Qual a agenda que o senhor gostaria de ver discutida na eleição deste ano?

Teremos muito trabalho pela frente no pós-Crivella. Precisamos recuperar a capacidade de investimento da cidade para que as coisas avancem novamente. Para isso, teremos que retomar o protagonismo da cidade no cenário nacional em diversos setores, em especial na economia. O Rio costumava ter uma das menores taxas de desemprego do país, mas hoje a realidade é outra. Vários negócios fecharam suas portas, em especial no comércio, e deixamos de atrair investimentos privados. Sem contar o abandono generalizado. É um ciclo vicioso que estrangula a renda do carioca e impede a capacidade de investimento da Prefeitura.

Comentários