Leandro Damaceno, assessor-chefe da Subsecretaria de Planejamento Estratégico da Secretaria de Planejamento e GestãoJuliana Alves
Bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), Leandro Damaceno é mestre em Políticas Públicas, Estratégia e Desenvolvimento pelo Instituto de Economia da Universidade Federal (UFRJ). Assessor-Chefe na Subsecretaria de Planejamento Estratégico da Secretaria de Planejamento e Gestão, é servidor do Estado na carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, tendo atuado nas Secretarias da Casa Civil, de Governo, de Saúde, de Fazenda, além da Fundação Ceperj.
SIDNEY: O senhor ficou em primeiro lugar no Prêmio Friperj-Faperj-IPP (Fórum de Reitores das Instituições Públicas de Ensino - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado - Instituto Pereira Passos) abordando problemas na trajetória política do Estado que dificultam o desenvolvimento socioeconômico do Rio. Quais são os principais pontos?
LEANDRO DAMACENO: A dificuldade em promover um ciclo contínuo e virtuoso de desenvolvimento socioeconômico vem da ruptura institucional pela implantação da ditadura militar em 1964 e a consolidação de Brasília como capital federal. A mudança criou um marco numa trajetória anteriormente identificada com a representação dos interesses nacionais que passa a ser associada a práticas localistas, clientelistas e patrimonialistas que já coexistiam aqui, mas não eram hegemônicas. Essas práticas vêm sendo reforçadas, consolidando um modus operandi de características clientelistas que perduram até hoje.
Como essa trajetória institucional se moldou?
Para entender é preciso remontar o período em que o Rio era capital. A pesquisadora Marly Motta afirma que aqui coexistiam duas lógicas políticas: de um lado, a representação de espectros ideológicos bem definidos e o debate das questões nacionais; de outro, uma política local marcada por ausência de eleições diretas locais e pouco poder dos vereadores eleitos para interferir na vida da cidade. Alguns acontecimentos foram determinantes para "criar" um vazio institucional: a descrença com a efetividade da mudança da capital para Brasília, a convicção de que o Rio continuaria a ter papel central no processo político e o processo de cassação das principais lideranças políticas fluminenses a partir da ditadura, ambos de espectros ideológicos. Entre esses acontecimentos, novas elites políticas ascenderam ao poder e orquestraram uma mudança interna com a ascensão e hegemonia de Chagas Freitas e seu grupo político e a institucionalização desse modus denominado "chaguismo" a partir da década de 1970. As relações clientelistas sustentavam a estrutura partidária que, por sua vez, subsidiava a estrutura administrativa, primeiro na Guanabara, depois no novo Estado do Rio pós-fusão, caracterizado por um modus operandi político bem definido, ramificado e consolidado. A arraigada prática clientelista do período e a inércia institucional contribuiu para que não se desenvolvesse práticas mais adequadas ao interesse público, inclusive um desenvolvimento mais equânime (equilibrado).
O senhor defende que a mudança da capital federal para Brasília dificultou a adoção de políticas de desenvolvimento para o Estado do Rio. Tem como reverter essa situação?
Sim. O primeiro ponto é compreender a história político-institucional do estado. O professor Mauro Osório, um dos idealizadores do Prêmio, não cansa de falar sobre a falta de reflexão estruturada, que cria falsos sensos comuns que impedem bons diagnósticos. Para receitar o remédio certo é preciso conhecer a doença a fundo. O prêmio estimula a pesquisa para conhecermos melhor problemas que precisamos enfrentar para um desenvolvimento mais equilibrado do Estado. É preciso sair da inércia e pensar em novas perspectivas que mudem a trajetória com novas institucionalidades capazes de fomentar uma política de desenvolvimento.
Como pensar em uma integração para o desenvolvimento de um estado marcado pela forte desigualdade socioeconômica entre as regiões?
É fundamental a institucionalização e o fortalecimento de novas governanças regionais capazes de articular e integrar um estado estagnado economicamente e fragmentado entre uma metrópole "macrocefálica" e seu interior. Existe um movimento errático para a retomada do desenvolvimento urbano-regional nos últimos 20 anos puxado pelo governo federal que precisa ser fortalecido a nível estadual. As tentativas com o Ministério de Integração e Desenvolvimento Regional e seus Planos Nacionais nas últimas duas décadas, os Estatutos da Cidade e da Metrópole e a possível constituição de fundos para desenvolvimento são perspectivas que carecem de maior efetividade, mas podem indicar novas trajetórias. A retomada da discussão metropolitana a partir de 2015 com a criação de um órgão metropolitano e o Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano e Integrado (PEDUI), recentemente aprovado na Alerj, e o Plano Estratégico de Desenvolvimento Econômico e Social do Estado do Rio de Janeiro (PEDES), a partir de 2024, se forem efetivamente implementados, podem apontar novos caminhos para o desenvolvimento regional do estado.
Os planos PEDUI e PEDES - um para a Região Metropolitana do Rio e outro para o estado - já foram implantados. Há obstáculos para terem andamento?
Existem dois grandes desafios à implementação desses planos, que são extensos, robustos e complexos de serem executados. Um é sobre a governança dos planos, que procura estabelecer boas práticas de gestão viáveis, efetivas e adequadas aos diferentes níveis das organizações que compõem a administração pública. A governança deve garantir a construção de arranjos institucionais que preservem a autonomia estadual e colaborem com demandas sociais. Outro desafio é superar as restrições fiscais que perduram há quase uma década com baixos níveis de investimento público principalmente em infraestrutura urbana e em condições de fomentar as cadeias produtivas da economia fluminense, aspectos centrais abordados nos planos. São necessários vultosos investimentos e processos interinstitucionais horizontais (entre os órgãos e entidades estaduais) e verticais (entre Estado, União, municípios, comunidade científica, sociedade civil e entes privados).
O senhor destaca a necessidade de maior envolvimento da sociedade civil para a implementação de políticas públicas com transparência e controle social. O que é preciso para incentivar a participação dos cidadãos?
É dever dos entes públicos criarem os espaços adequados para a sociedade civil atuar nas políticas públicas e no controle social. A criação das regiões metropolitanas se deu no período militar e ficou associada com o autoritarismo do período. A retomada dessa discussão em âmbito estadual se deu apenas há uma década. Os eventos da Friperj, Faperj e IPP são uma oportunidade para isso. Nos próximos dias 26 e 27, a partir das 18h, haverá o webseminário das instituições com lançamento das teses e dissertações premiadas que abordam vários temas sobre o estado do Rio de Janeiro. É preciso criar novas rotinas, hábitos e costumes que considerem a participação social como algo inerente aos processos de formulação e avaliação dessas políticas para o desenvolvimento. Afinal, é no território onde as pessoas vivem, convivem, trabalham e têm o seu lazer que elas se materializam. Esse é o caminho para a institucionalização de políticas efetivas.
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