Adam Newman, CEO da Favela ExperienceDivulgação

Nascido nos Estados Unidos, Adam Newman vive no Brasil desde 2012. Mora no Vidigal, na Zona Sul do Rio, onde é CEO da Favela Experience, empresa de turismo que proporciona imersão para pessoas vivenciarem o cotidiano dos moradores das comunidades, incluindo sua cultura. O projeto já atingiu mais de 7 mil visitantes de 46 países e gerou mais de US$ 1 milhão às comunidades do Rio. O americano também é o gestor da ONG Favela Inc e produz documentários em aldeias indígenas, que visitou sete vezes, e em favelas, tendo conhecido 150 no Brasil.
SIDNEY: O que leva um americano a fixar raízes no Vidigal e criar uma empresa voltada a moradores da comunidade?
ADAM NEWMAN: Fiz intercâmbio na faculdade, onde estudava economia latino-americana e marketing global em espanhol, e conheci algumas cidades da América do Sul em 2009. Nessa época, meu pai sugeriu conhecer a medicina ayahuasca (Santo Daime). Durante a experiência, me vi trabalhando em aldeias indígenas e entendi que, espiritualmente, nasci nos Estados Unidos para me reconectar com povos originários e construir pontes que viabilizem conhecimento entre mundos de abundância e escassez pelo benefício da humanidade. Depois da cerimônia, vi que as pessoas em condições mais simples eram mais felizes, apesar da desigualdade socioeconômica e racial. Quando voltei aos EUA, não me identifiquei mais com a cultura americana, onde faltava a felicidade. Eu entendi os sinais do universo: meu destino era o Brasil. Conheci vários projetos sociais nas favelas. Fui a uma por dia, totalizando 150 pelo Brasil. Conheci um morador da Rocinha, outro americano, Elliot Rosenberg, fundador da Favela Experience, que capacitou famílias em hospitalidade na favela. Achei genial. Ele desistiu e dei sequência ao trabalho. Não é um "turismo de safári" que não beneficia a população local, e sim inclusivo, gerando renda e quebrando preconceitos. O foco não são os becos sujos e a violência, mas as pessoas, suas histórias, os empreendedores dos projetos sociais que estão salvando vidas. Escolhi o Vidigal por ser na Zona Sul. Seria mais fácil conseguir parcerias porque não é tão distante e as pessoas não têm tanto medo quanto de outras favelas.
Baseado nos relatos de quem fez esse tipo de turismo, o que a experiência proporciona?
A Favela Experience é uma empresa de turismo de impacto social. Trabalhamos em 10 favelas, customizando experiências imersivas integrando líderes comunitários, empresas locais, ONGs, universidades e agências de turismo do mundo inteiro para a renda ser distribuída. Entre outras atividades, temos oficinas de capoeira e de passinho. O turista acaba tão impactado quanto a própria favela. Um visitante doou 60 mil dólares para comprar um prédio próprio para o projeto "Batucavidi", uma escola de percussão de criança com atividades complementares como tecnologia, inglês e marketing. Muitos se envolvem com projetos sociais. Alguns comentam que foi a melhor experiência e que mudou a forma de enxergar a vida. A favela é uma representação do Brasil: é composta por nordestinos, pessoas pretas, refugiados, indígenas - enfim,  uma diversidade imensa. Então, o visitante conhece o Brasil de uma forma melhor também.
O seu projeto é baseado em 3 pilares. Como eles funcionam?
Na incubação, temos uma marca que se chama "Raiz" para saber o propósito de cada pessoa. Depois, trazemos o conhecimento e o objetivo do trabalho. O foco é sempre ensinar empreendedorismo. A longo prazo, nosso objetivo é criar um fundo de investimento para investir em setores diferentes do Vidigal e outras favelas ao redor do Rio. O "Brota" é o primeiro coworking de favela do Brasil. É um espaço de 130 metros quadrados no coração do Vidigal, que inclui sala de trabalho, laptops com internet de alta velocidade, estúdios de música e de podcast, projetores e infraestrutura de trabalho. O terceiro pilar é a loja "Terra Fértil", que oferece produtos feitos por 20 empreendedores de periferias diferentes.
O senhor falou que a favela é um cemitério de projetos sociais. Diante disso, como evitar que os jovens de comunidade entrem para o crime?
É preciso proporcionar oportunidades mais atrativas do que o crime, que nós não vamos resolver. Não é nossa responsabilidade. Em vez de focar nos problemas, focamos nas soluções. É preciso disponibilizar educação com oportunidades de geração de renda a curto prazo para os jovens continuarem estudando ou criarem negócios que podem quebrar o ciclo de pobreza da família. Naturalmente, as pessoas vão buscar um caminho melhor.
Como anda o investimento de empresas e as políticas públicas para a qualificação e o desenvolvimento econômico das comunidades?
Existe muitas formas de as empresas contribuírem para projetos da favela, como lei de incentivo, mas é extremamente complexo. Nem uma ONG como a Favela Inc, que tem gestores com muito experiência, consegue captar recurso. A maioria das consultorias vão ganhar uma porcentagem. Os patrocínios para projetos sociais estão diminuindo ou acabando completamente. Vários patrocinadores dizem que não alcançaram as expectativas financeiras esperadas durante o ano, mas, pelo relatório anual, alcançaram lucros de milhões ou de bilhões, mas menos bilhões do que esperavam. Então, em vez de dar uma diminuída no salário já excessivo de um executivo, cortam os projetos sociais em primeiro lugar. Há muita pressão dos acionistas ou investidores para as empresas serem lucrativas. E exigem muitas contrapartidas que fazem os projetos sociais terem que beneficiar mais a empresa do que a comunidade. Quem investir será líder no futuro porque os consumidores estão preferindo comprar de quem investe em impacto social, ambiental e econômico. Circula muito dinheiro na favela, mas não permanece. Com a mesma velocidade que entra na conta bancária de uma pessoa preta, o dinheiro sai para uma pessoa branca — dono de uma empresa de energia ou para pagar um produto parcelado no e-commerce. A prioridade da Favela Inc é trabalhar com empresas em que o ecossistema inteiro possa evoluir, não somente o asfalto.
O trabalho da ONG Favela Inc rendeu frutos?
Sim, o projeto "Floresta Inc" com o objetivo de ampliar a experiência e o conhecimento que acumulamos para aldeias indígenas e comunidades que mantêm a floresta em pé. Trabalhamos com o filme "Somos Guardiões", com investimento de 80 mil dólares em aldeias no Pará, fortalecendo os guardiões da floresta com investimentos em equipamentos, tecnologia e conhecimento para proteger as nossas florestas. A longo prazo, a Favela Inc tem como foco unir os povos periféricos, pretos, favelados, quilombolas e indígenas para trabalharem entre si, compartilharem experiência e conhecimento, além de desenvolverem mecanismos para quebrarem os ciclos de desigualdade sistêmica, contribuindo para um Brasil cada vez mais justo.