Fábio ZambeliDivulgação
Diretor de Public Affairs do Grupo In Press, Fábio Zambeli é jornalista com 34 anos de experiência em cobertura política e econômica, especializado em risco político, relações governamentais e análise do processo decisório em Brasília. Foi repórter, chefe de pauta e editor da Folha de S. Paulo, coordenador editorial da Associação Paulista de Jornais, diretor da FSB Comunicação e analista-chefe do JOTA, onde acompanhou os três Poderes e as eleições de 2022. Também foi vice-presidente da Ágora Assuntos Públicos.
SIDNEY: A polarização política é resultado de divisões ideológicas na sociedade?
FÁBIO ZAMBELI: Em parte, sim, mas no Brasil a polarização é muito mais sobre identidade, emoção e pertencimento do que sobre um debate ideológico estruturado. O eleitor costuma decidir menos pelo “que” e mais pelo “quem”. Há também um componente de bastidor importante: líderes fortes mantêm o próprio campo com mão de ferro e vão ocupando o espaço que poderia formar novos quadros. Quando a disputa se concentra em nomes, o sistema vira uma vitrine de marcas repetidas, e a sociedade passa a enxergar a política como um jogo de torcida.
Em situações de crise econômica, como a polarização política continua sendo decisiva na hora do voto?
A crise não derruba a polarização; ela muda o tipo de pergunta que o eleitor faz. Em vez de “qual proposta é melhor?”, passa a ser “de quem é a culpa?” e “quem vai me proteger?”. A polarização entrega uma narrativa pronta. E, no ambiente digital, essa narrativa se sustenta no excesso de versões e ruídos. Não é preciso comprovar tudo; basta gerar a sensação de que ninguém é confiável e, no fim, o eleitor volta ao atalho emocional do time e do líder.
As pessoas estão realmente mais radicalizadas ou apenas vivem em “bolhas” de informação que reforçam suas opiniões?
Tem bolha, mas há também radicalização, só que, muitas vezes, é uma radicalização de humor, não de conteúdo. Menos tolerância, mais impaciência, mais suspeita em relação ao outro lado. A bolha reforça isso porque transforma percepção em “prova”. Se parece verdade e confirma o que eu já sinto, torna-se verdade suficiente. O efeito prático é um país menos ideológico, mas mais difícil de convencer, onde qualquer conversa vira uma disputa de autoridade e confiança.
Por influência das redes sociais, o Brasil está mais polarizado que outros países?
Talvez não seja o país mais polarizado do mundo, mas é um dos mais vulneráveis ao ritmo acelerado do conflito. Aqui, a rede social não é apenas debate; é infraestrutura política. Mobiliza, pressiona, pauta e cria lealdade. Isso se combina com um sistema muito personalista e, no fim, o país entra numa lógica de repetição. A reedição de Lula contra Bolsonaro, com Flávio Bolsonaro aparecendo como extensão política do bolsonarismo, ilustra bem como o conflito vai ganhando formatos de continuidade, quase como uma franquia.
Eleitores menos informados tendem a se afastar da política?
Muitos se afastam da política formal, mas não deixam de ser afetados por ela. Continuam atentos ao que mexe com a vida real: preço no mercado, segurança, filas, transporte, emprego. O que muda é o tipo de decisão. Em vez de propostas, entram em cena atalhos de confiança e identificação. E, quando o ambiente vira um barulho constante, cresce o cansaço. A pessoa passa a querer menos debate e mais sensação de solução. Isso abre espaço para mensagens simples e para lideranças que prometem ordem, previsibilidade e proteção.
Qual a sua aposta, a polarização política tende a se intensificar ou diminuir nos próximos anos?
Eu apostaria em uma polarização alta e persistente, talvez com menos explosões contínuas, mas com um nível de base elevado. Há três razões fortes. A primeira é a lógica de líderes que não saem de cena e travam a renovação do próprio campo. A segunda é o caos informacional, que virou instrumento político, porque confundir é barato e eficiente para empurrar o eleitor de volta ao instinto e ao time. A terceira é a fadiga de movimentos de sustentação social baseados em transferência de renda. O benefício segue relevante, mas o eleitor começa a cobrar mobilidade e serviço público funcionando, não apenas alívio imediato.
E aqui entra o eleitorado “nem nem”, que não gosta dos polos, mas acaba refém do voto útil. É o eleitor que tem rejeição aos dois lados, mas teme um deles e, na reta final, vota para evitar o pior cenário. Ele se torna um eleitor pragmático por ansiedade, não por entusiasmo. Esse grupo cresce quando a eleição vira um plebiscito moral e diminui quando surge uma alternativa crível, com chance real e um discurso que não pareça nem ingenuidade nem oportunismo. No Brasil de hoje, com Lula de um lado e o bolsonarismo buscando se reorganizar com figuras como Flávio Bolsonaro do outro, esse “nem nem” tende a continuar decisivo, mas quase sempre empurrado a escolher contra alguém, e não a favor de alguém.
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.