Edicarlos André, ortopedista e médico da dorDivulgação

Com mais de 10 anos de atuação na área da saúde, Edicarlos André é especialista em ortopedia e traumatologia, cirurgia do joelho, artrose, medicina da dor e sistema musculoesquelético. Atua na reabilitação funcional para recuperação da mobilidade utilizando, entre outros procedimentos, tratamento não cirúrgico da artrose, infiltrações articulares guiadas por ultrassom, proloterapia (tratamento injetável para reparar e fortalecer tecidos danificados) e mesoterapia (microinjeções para o alívio de dores crônicas).
SIDNEY: No Brasil, cerca de 40% da população adulta convive com dor crônica. Como diferenciar uma dor comum de um quadro que exige maior cuidado? Em que momento é necessário procurar ajuda médica?

EDICARLOS ANDRÉ: A dor comum geralmente tem uma causa identificável, melhora em poucos dias e responde bem a medidas simples, como repouso e/ou analgésicos leves. Já a dor crônica é aquela que persiste por mais de três meses ou que se repete com frequência, impactando a qualidade de vida. Alguns sinais de alerta são: dor que não melhora com o tempo, piora progressiva, limitação funcional, alteração do sono ou necessidade frequente de medicamentos. Nestes casos, a avaliação médica é essencial, porque quanto antes tratamos, maiores são as chances de evitar a cronificação da dor.

Existe uma relação direta entre sedentarismo e aumento de dores musculoesqueléticas? Qual é o impacto a longo prazo?

Sim, existe uma relação direta e muito relevante. O sedentarismo leva à perda de força muscular, redução da mobilidade e piora da estabilidade articular. Isso sobrecarrega estruturas como coluna, joelhos e ombros. A longo prazo, o impacto é significativo com aumento do risco de lesões, degenerações articulares, como artrose, e maior chance de desenvolver dor crônica. O corpo foi feito para o movimento — quando não usamos, ele "desaprende" a funcionar bem.

Como o senhor avalia o aumento de pacientes jovens? Quais os cuidados durante a prática de exercícios para evitar lesões esportivas?

Temos observado um aumento importante de pacientes jovens com dor, principalmente por dois fatores: sedentarismo alternado com atividade intensa e falta de orientação adequada. Muitos saem do zero direto para treinos de alta intensidade, sem preparo. Isso aumenta o risco de lesões. Os principais cuidados são progressão gradual de carga, orientação profissional, fortalecimento muscular, atenção à técnica e respeito aos sinais do corpo. Dor não é sinônimo de evolução — muitas vezes é um sinal de alerta.

Fatores emocionais, como ansiedade e estresse, agravam as dores físicas? Neste caso, é necessário um tratamento multidisciplinar?

Sem dúvida. A dor não é apenas física — ela é uma experiência que envolve o corpo e o cérebro. Ansiedade, estresse e até padrões de pensamento podem amplificar a percepção da dor. Por isso, em muitos casos, o tratamento multidisciplinar é fundamental. Associar abordagens médicas com suporte psicológico, atividade física e mudanças no estilo de vida traz resultados muito mais consistentes e duradouros.

O uso excessivo de medicamentos é preocupante. Quais são os riscos da automedicação?

A automedicação é um problema sério. O uso indiscriminado de analgésicos pode mascarar doenças, atrasar diagnósticos e levar a efeitos colaterais, como problemas gástricos, renais e até dependência em alguns casos. Além disso, tratar apenas o sintoma, sem abordar a causa da dor, pode favorecer a cronificação. O ideal é sempre buscar orientação para um tratamento direcionado e seguro.

A dor na coluna segue como uma das maiores queixas e um dos principais motivos de faltas ao trabalho e até mesmo aposentadoria por invalidez nos casos mais graves. Quais são as orientações e os tratamentos para uma boa saúde ortopédica?

A base da saúde da coluna está em três pilares: movimento, fortalecimento e hábitos de vida. Manter uma rotina de exercícios, cuidar da postura no dia a dia e evitar longos períodos na mesma posição são fundamentais. Também é essencial fortalecer a musculatura do core (regiões abdominal, lombar, pelve e quadris), que é o centro da força e estabilidade, essencial para o equilíbrio do corpo. Quando a dor já está instalada, o tratamento deve ser individualizado. Pode incluir desde reabilitação física até terapias intervencionistas para controle da dor. O mais importante é entender que a maioria dos casos tem solução sem cirurgia — desde que o paciente seja bem avaliado e tratado de forma adequada para ter qualidade de vida.
Colaboração de Claudia Villas Boas