Alexandre Santini, presidente da Fundação Casa de Rui Barbosadivulgação/ Marcella Saraceni

Alexandre Santini é produtor cultural, mestre em Cultura e Territorialidades pela UFF e doutorando em História, Política e Bens Culturais pelo CPDOC/FGV. Foi secretário das Culturas de Niterói, diretor de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura e diretor do Teatro Popular Oscar Niemeyer. Professor convidado de pós-graduação em Gestão e Políticas Culturais na FLACSO (Argentina), Universidad Andina Simón Bolívar (Equador) e Universidad de Chile. É autor do livro "Cultura Viva Comunitária: Políticas Culturais no Brasil e na América Latina".
SIDNEY: Qual é o papel das instituições culturais no combate à desinformação e apagamentos históricos?

ALEXANDRE SANTINI: As instituições culturais têm papel fundamental na preservação da memória, no acesso à informação de qualidade e na defesa da democracia. Em um cenário marcado pela desinformação e pela circulação de discursos de ódio nas plataformas digitais, fortalecer políticas públicas de cultura e memória é essencial. Nesse sentido, o Ministério da Cultura tem investido na ampliação do acesso à informação e à formação cultural, enquanto iniciativas como o "Acervos em Rede", em parceria com o Instituto Brasileiro de Museus e a Fundação Casa de Rui Barbosa, ajudam a preservar e democratizar o acesso ao patrimônio cultural brasileiro.

Como preservar a memória e o patrimônio em tempos digitais?

Preservar a memória e o patrimônio em tempos digitais exige fortalecer ambientes públicos que garantam acesso, difusão e proteção dos acervos culturais. O Brasil tem tradição de inovação na área e já mostrou - inclusive com políticas como os "Pontos de Cultura" e a "Cultura Digital" no primeiro governo Lula - que é possível unir tecnologia e democratização do acesso ao conhecimento. Diante do avanço do poder das grandes plataformas privadas, o desafio agora é ampliar o investimento público em ciência, tecnologia e infraestrutura digital soberana para que o país preserve sua memória, reduza dependências e volte a ocupar um papel de protagonismo na produção e circulação de conhecimento e cultura.

Na sua opinião, qual é o impacto dos investimentos culturais na educação, na economia criativa e na redução das desigualdades?

Os investimentos em cultura têm impacto direto na formação crítica da população, no fortalecimento da educação e na geração de trabalho e renda. A cultura amplia repertórios, preserva memórias, fortalece vínculos comunitários e cria oportunidades concretas para artistas, produtores e trabalhadores da economia criativa em todo o país. Ao mesmo tempo, quando chega aos territórios de forma estruturada e com investimento público, a política cultural também ajuda a reduzir desigualdades, ao ampliar o acesso a direitos, valorizar a diversidade e reconhecer a produção cultural de comunidades que historicamente foram invisibilizadas. Investir em cultura é fortalecer a democracia, gerar desenvolvimento e construir um país mais justo.

Qual é a importância simbólica e estratégica do Rio, considerado a capital cultural do país, para a produção cultural brasileira? Quais são os desafios enfrentados pelas instituições da cidade?

O Rio de Janeiro tem um papel simbólico e estratégico central para a cultura brasileira. Mesmo após deixar de ser a capital política do país, a cidade permaneceu como sede de importantes instituições federais, como a Fundação Casa de Rui Barbosa, a Fundação Nacional de Artes, a Agência Nacional do Cinema, a Biblioteca Nacional e o Museu Nacional de Belas Artes, que têm papel decisivo na preservação da memória, no fomento às artes e na formulação de políticas culturais em escala nacional. Ao mesmo tempo, o Rio reúne um ecossistema cultural diverso e potente — da produção audiovisual às culturas populares, das universidades aos coletivos de base comunitária — que faz da cultura um ativo fundamental para o desenvolvimento da cidade. O principal desafio é fortalecer esse patrimônio institucional e articular de forma mais integrada as políticas federais, estaduais e municipais, garantindo investimento e valorização da cultura como elemento estratégico para a geração de emprego, renda e para a própria identidade cultural do país.

Como está sendo o processo de recuperação institucional da Casa de Rui Barbosa?

A Fundação vive um importante processo de reconstrução institucional e de reposicionamento público, após ter sido uma das instituições culturais mais afetadas pelo desmonte promovido nos últimos anos. Com a recriação do Ministério da Cultura, a Casa voltou a integrar o Sistema MinC e retomou seu papel como espaço de pesquisa, preservação da memória e reflexão sobre a cultura brasileira, ampliando o diálogo com a sociedade e fortalecendo uma atuação de dimensão nacional. Este processo reúne recuperação da infraestrutura e da segurança do patrimônio, recomposição da equipe com a realização do primeiro concurso público em 12 anos e iniciativas de democratização e reparação histórica, com destaque para a preservação de acervos de intelectuais e escritores negros e indígenas, além de parcerias com instituições como o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros e o Museu Nacional dos Povos Indígenas. A Casa Rui Barbosa entra, assim, em um novo ciclo, mais diverso, fortalecido e preparado para ampliar seu papel na preservação do patrimônio e na vida cultural do país.

Quais são os projetos da Fundação para atrair o público jovem?

Temos investido na ampliação do diálogo com o público jovem por meio do fortalecimento da comunicação digital e da criação de atividades culturais voltadas a novos públicos. Nos últimos anos, a Fundação ampliou de forma significativa sua presença nas redes sociais e passou a desenvolver iniciativas pensadas tanto para o ambiente on-line quanto o presencial. A primeira Festa Literária da Casa de Rui Barbosa, a FLIRui, em 2025, foi um marco desse processo ao reunir milhares de pessoas em torno do tema "Literatura e Democracia", com programação diversa e grande participação de jovens. Ao mesmo tempo, a renovação da Biblioteca Infantojuvenil Maria Mazzetti, com atividades gratuitas de incentivo à leitura, contação de histórias e programação cultural nos jardins históricos, reforça esse compromisso de aproximar novas gerações da literatura, da memória e da vida cultural brasileira.

Colaboração de Claudia Villas Boas