Escritor Felipe Afonso, autor de "Nuances do Silêncio" e "Nuances da Exclusão"Babi Simas

Bacharel em Engenharia da Computação e desenvolvedor de software, Felipe Afonso usa aparelhos auditivos desde adolescente. Paralelamente à carreira em TI, transformou sua vivência em literatura e reflexão social. É autor do romance "Nuances do Silêncio" (2025), obra de ficção inspirada em experiências relacionadas aos impactos emocionais de viver entre o som e o silêncio, e "Nuances da Exclusão", lançado este mês, em que revela as contradições entre o discurso de inclusão e a realidade de quem depende dela.

SIDNEY: Na sua perspectiva, qual é o preço social e financeiro que uma pessoa com deficiência paga por viver em um país ainda não inclusivo?

FELIPE AFONSO: Acredito que esse preço seja conhecido, mas a dimensão do impacto ainda é pouco compreendida por quem não é PcD. Muitas pessoas conhecem alguém com deficiência ou já ouviram falar de quem precisou pagar dezenas de milhares de reais por uma tecnologia assistiva. A questão é se nós, como sociedade, vamos questionar por que tudo isso custa tão caro. Por que uma pessoa com deficiência precisa arcar com equipamentos caríssimos - cujo preço inclui as margens de lucro de quem fabrica, distribui e vende -, além dos impostos, para ter o mínimo de autonomia? Vem a sensação de que vivemos num país em que "se vira quem pode, quem não pode fica pra trás". Somado às dificuldades que a pessoa enfrenta por causa da deficiência, pode tirar a vontade de sair de casa, conviver e participar da sociedade. Com esse afastamento, oportunidades são perdidas e há sensação de não fazer parte.

No seu livro, o senhor denuncia o descaso de empresas com funcionários PcDs. A Lei de Cotas promoveu a inclusão?

Já participei de entrevistas em que me diziam, sem constrangimento, que minha função era apenas ajudar a cumprir a cota. Houve ocasiões em que fui contratado para um cargo compatível com a minha formação, mas com salário irrisório e nenhuma tarefa para executar durante meses. Negociar uma pretensão salarial era um sonho, porque as vagas para PcD que encontrava já tinham salário fixo, independentemente da minha experiência. Também tive empregos que tinham condições melhores, mas era obrigado a atender telefone, mesmo sendo surdo. E sempre fui cobrado por não ser mais participativo nas reuniões, como se bastasse me esforçar para ouvir melhor. Ainda assim, tive a sorte e o privilégio de acumular experiência técnica suficiente para ser contratado pelo meu currículo e, de quebra, ajudar a empresa a cumprir a cota. Apesar de tudo o que passei, acredito que, sem a Lei de Cotas, eu jamais estaria em um emprego como o que tenho hoje. A Lei de Cotas, por si só, não garante a inclusão, mas precisamos reconhecer seu valor.

O senhor fala no isolamento social das pessoas com deficiência. Como evitar essa situação?

Antes de pensar numa possível solução, precisamos entender os verdadeiros impactos de ser uma pessoa com deficiência no Brasil: o quanto isso afeta a vida de alguém, tanto psicologicamente quanto financeiramente, e como esse peso pode se transformar em falta de ânimo para sair de casa. Nós, PcDs, precisamos batalhar muito mais do que a média para lidar com as dificuldades do dia a dia, seja pelo esforço emocional ou pelos gastos exorbitantes com tecnologias assistivas para preservar o mínimo de autonomia. Daí, quando resolvemos descansar um pouco dessas batalhas e curtir a vida, percebemos que até isso exige uma nova batalha. Para um cadeirante ou uma pessoa com deficiência visual, uma cidade sem acessibilidade transforma um simples passeio num desafio. Para um surdo, receber convite para um local barulhento pode até parecer irônico. É difícil ter vontade de sair quando sabemos que vamos encontrar mais obstáculos do que acolhimento.

A história de superação de pessoas com deficiência que "venceram na vida" ajuda ou pressiona?

Quando eu era mais novo e ainda estava sem esperança por causa do avanço da minha surdez, eu via essas histórias como inspiração. Mas, conforme fui vivenciando as diversas formas de violência estrutural que atingem as pessoas com deficiência, passei a olhar para essas "histórias inspiradoras" com mais desconfiança. Pois quando omitem as barreiras que enfrentamos, elas acabam funcionando como uma propaganda enganosa de que a sociedade está preparada para nos acolher. Em vez de encarar uma realidade que tantas vezes nos diz "vocês não são bem-vindos", a sociedade destaca quem conseguiu vencer, apesar dela. Isso pode alimentar falsas esperanças e criar a cobrança de que todos deveriam conseguir o mesmo. E essa visão se tornou tão comum que vejo o tempo todo pessoas se referindo a mim como "uma PcD que venceu na vida". Entendo a intenção, mas acredito que seria mais útil mostrar também tudo o que enfrentei para chegar até aqui. Minha trajetória pode inspirar, mas não deveria servir para esconder as barreiras que continuam existindo nem para cobrar a mesma superação de outras pessoas.

Quais são as barreiras e os preconceitos enfrentados pelos surdos oralizados, que se comunicam em português, e não pela Língua de Sinais (Libras)?

Uma das principais dificuldades de ser um surdo oralizado é que, em algumas situações, conseguimos nos comunicar bem, enquanto, em outras, enfrentamos muita dificuldade. Essa diferença nem sempre é fácil de explicar ou de entender, porque muitos fatores interferem: o nível de ruído do ambiente, a forma como as outras pessoas falam, o benefício que o aparelho auditivo oferece e o grau de perda auditiva. Como isso nem sempre fica claro para quem convive conosco, é comum que as pessoas tirem conclusões precipitadas sobre nossas capacidades e mudem a forma como nos tratam. Já me habituei, por exemplo, a ser tratado como uma "criança especial" em algumas situações, quando o que precisava era de condições adequadas para acompanhar a conversa. Acredito que boa parte do preconceito que sofremos vem dessa falta de conhecimento. Muitas vezes, as pessoas presumem o que somos ou não capazes de fazer, sem antes perguntar do que precisamos.

Quais atitudes capacitistas devem ser evitadas, sobretudo no mercado de trabalho?

Poderia listar inúmeras atitudes, mas prefiro olhar para o problema de forma mais ampla. Enquanto as empresas enxergarem a contratação de pessoa com deficiência apenas como obrigação, haverá espaço para muitas formas de capacitismo. A pessoa corre o risco de ser tratada como um custo para cumprir a lei, sem que a empresa reconheça a sua capacidade e aproveite o seu trabalho. Mesmo empresas com mais recursos, que se apresentam como inclusivas, podem cair nessa contradição: de um lado, um marketing inclusivo bonito; do outro, funcionários com deficiência insatisfeitos com as condições de trabalho e se perguntando se estão ali apenas para preencher cota. Acredito que o capacitismo perderia força se houvesse melhores chances de se qualificar e crescer profissionalmente, para que cada vez mais PcDs fossem contratadas por mérito, e não por obrigação de cumprir a lei.
Colaboração de Claudia Villas Boas