Escritor Paulo Otávio Barreiros GravinaShiie Lacca
SIDNEY: Qual é o olhar dos estrangeiros e da imprensa internacional sobre o comportamento dos brasileiros nas urnas?
PAULO BARREIROS: O Brasil é visto como a maior democracia da América Latina. Pesquisando sobre as eleições no Brasil em inglês, francês e espanhol, vários veículos de imprensa relatam em detalhes todo o processo eleitoral e as pesquisas mais recentes para a Presidência. A imagem da democracia no Brasil é muito bem vista, com alguns arranhões, como os escândalos de corrupção "mensalão" e "petrolão". Houve também destaque à cobertura da mídia e aos julgamentos, com Joaquim Barbosa, em 2013, e Sergio Moro, em 2016, entrando na listagem das 100 pessoas mais influentes do mundo, segundo a revista estadunidense "Time". As reações brasileiras a certas sinalizações antidemocráticas, como os ataques de 8 de janeiro de 2023, foram muito elogiadas, sobretudo quando contrapostas a movimentos antidemocráticos em outras partes do mundo.
A expressão "O Brasil é o país do futuro" ainda faz sentido?
Certamente! Desde que Stefan Zweig publicou, em 1941, "Brasil, um país do futuro", continuamos sendo o país do futuro, talvez para sempre. Até o tema da redação da UFRJ em 2001 foi "Brasil, país do futuro… até quando?". E como se enfrenta e se supera essa eterna promessa de um futuro que nunca chega? Investindo em educação, segurança, saúde, saneamento e cultura. Perguntaram a um educador muito bem-sucedido qual era o segredo das reformas educacionais que havia promovido. A resposta surpreende de tão simples: leitura e matemática, temas que aprendemos desde o primário. Assim se pode alcançar um altíssimo desenvolvimento social, cultural e tecnológico. Uma excelente proposta é, portanto, prosseguir por aí.
Quais problemas históricos continuam influenciando o voto do eleitor?
Tanto o populismo quanto a falta de uma tradição democrática são visíveis em discursos de diversos candidatos. Alguns chegam a fazer propostas contrárias à Constituição brasileira. Além disso, uma questão muito séria nas eleições atuais é a polarização. Esse partidarismo exacerbado, às vezes até se tornando um personalismo, gera um ambiente político no Brasil muito pouco propositivo. O nosso país tem muitos problemas que precisam ser endereçados. E não se faz isso simplesmente criticando o outro lado.
De que forma a imagem do Brasil no exterior afeta o orgulho ou a desilusão do brasileiro com o país?
O Brasil teve uma longa história de imposições de ordem social, cultural, moral e intelectual, que permanecem arraigadas em nossas vivências e visões de mundo, além de limitarem as noções relativas às nossas capacidades. Daí ocorre o fenômeno conhecido como "autoexotismo": uma falta de identificação dos brasileiros com o que vem do Brasil e um grande valor atribuído a percepções estrangeiras, muitas vezes estereotipadas do nosso país, a ponto de assumirmos essa visão para nós. Nesse sentido, é muito importante investirmos no nosso convívio social, na nossa cultura, na nossa educação e formação ética e em nossa intelectualidade.
Como os preconceitos sobre o Brasil influenciam as relações internacionais?
Embora alguns preconceitos permaneçam, existe a percepção de que o Brasil tem relevância no cenário internacional, e não apenas no futebol: no comércio, na música, nas artes, no cinema, na dança, na literatura, na culinária, nos esportes, na capoeira (que começou aqui e é praticada em todo o mundo), na ciência e no direito internacional. Inclusive politicamente e diplomaticamente: é um dos principais representantes dos BRICS e do Sul Global. O Brasil está presente hoje nas principais representações das maiores organizações multilaterais. Curiosamente, um país como Israel, que vem criticando pejorativamente muitos posicionamentos brasileiros nas relações internacionais, já teve a seguinte declaração feita em 2013 por Shimon Peres, na época presidente e vencedor do prêmio Nobel da Paz: "O Brasil não é uma terra. É uma civilização. Introduziu uma coisa bastante interessante, que é a democracia em termos reais. Não é só o desejo de ser igual, mas também o direito de ser diferente. O Brasil representa a maior tolerância de nossos tempos. Há árabes e judeus em paz. Por que vocês não exportam a paz para o Oriente Médio?".
Diante de tantos desafios internos e externos, qual é o principal nó que o país precisa desatar para se consolidar no cenário global?
Não acredito que exista um nó principal a ser desatado para o Brasil se consolidar internacionalmente (ou internamente). O país teve uma longa e triste história de colonização e de escravidão, cujos efeitos são observados até hoje em termos de desigualdade social. Essa história precisa ser reconhecida e devidamente confrontada. Conforme afirmou o jornalista e escritor estadunidense John dos Passos, em uma passagem que escreveu notavelmente elogiosa ao Brasil: "O principal patrimônio do Brasil são os brasileiros".
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