A guitarra romântica de Érika Martins

Em seu segundo CD solo de inéditas, cantora moderniza a modinha, primeiro gênero musical brasileiro

Por raphael.perucci

Rio - Foi lendo ‘Triste Fim de Policarpo Quaresma’, de Lima Barreto, que a cantora Érika Martins começou a se interessar pela modinha, considerada o primeiro gênero musical brasileiro. “Comecei a pesquisar e me interessar mais e mais pelo estilo”, lembra ela. Assim, acabou surgindo o recém-lançado disco ‘Modinhas’, segundo trabalho solo de inéditas da artista.

Mas que ninguém espere um disco nostálgico. Até as regravações — ‘Modinha’, de Sergio Bittencourt; ‘Modinha’, de Villa-Lobos e Manuel Bandeira, e ‘Casinha Pequenina’, de autor desconhecido — soam modernizadas no disco. “Na pesquisa, encontrei muitas músicas rebuscadas. Não queria ficar presa às modinhas antigas”, explica Érika. “Por outro lado, a forma como eu trato a música é totalmente influenciada pelo estilo, e as letras abordam temas parecidos: um romantismo de uma maneira mais otimista, em geral”, explica.

Érika Martins está lançando seu segundo discoDivulgação

Ela buscou, então, compositores da nova geração que também tivessem ecos do gênero — como Marcelo Jeneci, Botika, Momo e Pedro Verissimo, que já havia feito uma nova música para ela cantar, assim como Tom Zé — e foi para a Chapada Diamantina (BA) criar. “Passei 15 dias com uma guitarra e um monte de pedais de efeito, trancada no quarto e compondo”, conta. “O legal de não ser guitarrista é que não tenho que seguir nenhuma regra. Foi superlibertador, criei camadas improváveis (risos). Até na forma de cantar eu sou muito solta, muito livre. Não tem gravadora me cobrando”, diz a cantora, que fez o disco através de crowdfunding.

A ligação de Érika com a modinha, aliás, vai além do romantismo que perpassa sua obra desde os tempos da banda Penélope (da qual fez parte da fundação, em 1995, até o fim, em 2004). Seu pai, Jorge Martins, era português. “O disco é uma homenagem ao meu pai. Fiquei com ele fazendo pesquisa, ele sempre me ajudou, até porque era escritor”, recorda ela, emocionada: em meio aos últimos retoques no CD, ele morreu. “Para mim, fazer esse álbum foi muito o resgate do que eu era, coisas que ouvia quando pequena.”

A capa também é inspirada numa tradição portuguesa da região do Minho: os lenços de namorados, que as moças bordavam e entregavam para o objeto de sua paixão quando ele precisava se ausentar. Se o moço usasse a peça em público, era sinal de que aceitava a jovem em namoro. “Era até feminista, porque a iniciativa partia da mulher”, diverte-se Érika.

Enquanto não dá o pontapé inicial na turnê ‘Modinhas’ — em março, em São Paulo —, ela se divide entre duas temporadas cariocas. Com o projeto ‘Chuveiro in Concert’, que acontece dentro da festa ‘Bailinho’ todos os domingos, até 23 de fevereiro, no Museu de Arte Moderna (MAM), comanda um divertido karaokê ao vivo.

Já com o grupo Lafayette e os Tremendões, ao lado do lendário tecladista da Jovem Guarda, ela e músicos como Gabriel Thomaz — vocalista do Autoramas e marido de Érika — recriam sucessos do movimento musical, às quartas-feiras no Solar de Botafogo, até dia 29.

“Está uma loucura, não estou conseguindo respirar! São temporadas grandes, shows longos. É muito ensaio, fora o lançamento do CD”, revela. “No caso do ‘Chuveiro’, é a minha banda mesmo, então tocamos algumas músicas do disco. A galera está recebendo superbem”, comemora.

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