Segundo suas páginas, a estrela desse momento de quase transe pode ser o tradicional galeto ou o excêntrico jiló. Vai do gosto de cada um. Há também os pratos nascidos por aqui, como o filé à Oswaldo Aranha, criado no Cosmopolita, e o arroz de brócolis servido em bares como o das Quengas. Mas o que distingue mesmo a larica dos nativos não é só o que eles comem. É como e onde comem.
“Falamos de comidas típicas do Rio. E cada uma tem a ver com a memória de quem vive por aqui”, diz Inês Garçoni, organizadora da obra. Mas não pense que é só de mate e biscoito Globo que se sustenta essa nação de lariqueiros. “Quisemos fugir do óbvio. Já se falou muito de certas coisas. Acho que existe até tese de mestrado sobre biscoito Globo”, brinca.
Então, por que não reunir um time de botequeiros para falar sobre as iguarias que seduziram seus estômagos? A resposta veio em 12 textos, além de receitas e guia de lugares para apaziguar a Fome. A ideia partiu da jornalista Mariana Filgueiras, primeira a entrar para o time e escrever sobre a batida de gengibre da Casa da Cachaça, que rega e dá brilho às mentes dos frequentadores da Lapa.
Juliana Krapp, movida pela sensibilidade maternal, despertada pela pequena Lia, de 3 meses, resgatou um pedacinho de sua infância, no texto sobre a trajetória dos sacolés do subúrbio às praias. Mas há também os que declaram amor a laricas mais exóticas e quase em extinção, como a Sambiquira, ou cu da galinha, como prefere chamar o repórter do DIA, Caio Barbosa, em seu texto. Ou os que não resistem a novas receitas, como o nosso colunista João Pimentel, rendido à gourmetização da feijoada, em forma de bolinhos que se alastram pelos botequins. Mas o que todos concordam é que, quando as memórias afetivas do estômago são ativadas, é preciso partir para cima da larica, agradecer e lamber os dedos ao final do ritual.
Roteiro da fome
Usado basicamente como guarnição, o prato se tornou um sucesso botequeiro ao ganhar cópias de sua versão carioca em redutos paulistanos. Mas os especialistas nesta larica clorofilada alertam que a cópia não se equivale ao original que “É DE brócolis e não COM brócolis”.
Avenida Mem de Sá 175, Lapa (2232-0670). De dom a qui, das 11h às 2h. Sex e sáb, até as 4h. R$ 17,90.
Rua Marquês de Abrantes 18, Flamengo (2556-0799). De dom a qui, das 9h30 às 2h30. Sex, sáb e feriado, até as 3h. R$ 18.
Não importa a pinga, é a raiz, soberana das biroscas, que domina o paladar da mistura. Para ajudar a descer, acrescenta-se açúcar e leite condensado. Sacode tudo, até as ideias. Afinal, o objetivo principal dessa receita é alcançar o efeito alcoólico.
Rua Visconde de Itaboraí 10, Centro (2263-1484). Seg, ter e dom, das 8h à meia-noite. De qua a sáb, das 8h à 1h. R$ 5,50.
Avenida Mem de Sá 100, Lapa (2531-7210). Diariamente, das 17h até o último cliente. Batida de R$ 4.
Para quem acha que basta cozinhar uma feijoada, amassar e fritar, vai o recado: não seja pragmático quando se trata da gourmetização em bolinhas de um dos pratos mais tradicionais da cidade. Quem põe a mão na massa garante que o ato é quase uma ciência oculta, uma alquimia.
Rua Barão de Iguatemi 3.979, Praça da Bandeira (2273-1035). De ter a sáb, do meio-dia às 23h. Dom, do meio-dia às 17h. R$ 28,80 (4 unidades).
Rua José Linheres 85, Leblon (2294-3549). De seg a sex, das 8h à meia-noite. Sáb, a partir das 9h30. Dom, das 10h às 22h. R$ 4,50 (unidade).
Há quem diga que, ao morder, ele mia. Gaiatices à parte, de gato, um bom churrasquinho não tem nada. Mas para ter a honra do título, a apresentação exige um espetinho e não pode faltar nem a farofa, nem o molho à campanha.
Rua das Laranjeiras 90, Laranjeiras (3559-2029) De ter a dom, das 17h até o último cliente. De R$ 7 a R$ 9.
Rua Júlio Furtado e Itabaiana, próximo à Praça Edmundo Rêgo (98506-0950). De seg a sex, das 18h às 20h30. R$ 4,50.
Oswaldo Aranha sabia das coisas. Ele foi advogado, ministro da Justiça, da Fazenda
e outras coisitas mais. Uma delas é o título de criador de um dos pratos mais famosos do Rio. Diz a lenda que, um dia, Oswaldo chegou inspirado ao Cosmopolita e soprou a combinação no ouvido do garçom: filé mignon, alho frito, arroz branco, farofa e batata portuguesa.
Travessa do Mosqueira 4, Lapa (2224-7820). De seg a qui, das 11h à meia-noite. Sáb, até o último cliente. R$ 50 (para um). R$ 92 (para dois).
Rua Garcia D’Ávila 173, Ipanema (2523-0496). Diariamente, das 6h às 23h. R$ 88 (serve até três pessoas).
Abundante e barata, a sardinha é tão acessível quanto a ave mais popular do cardápio carioca. Está aí o apelido do peixe, melhor amigo do limão e de qualquer cerveja gelada.
Rua André Cavalcanti 16, Centro (2224-3342). De seg a sáb, das 11h à meia-noite. Dom, das 11h às 22h. R$ 35 (a porção).
Rua Miguel Couto 139, Centro (2233-6119). De seg a sex, das 11h às 22h. R$ 2,30 (unidade).
O que difere o típico galeto na brasa carioca para qualquer outro é a forma de comê-lo. Segundo Leo Aversa, tem que ser em uma birosca que se preze: onde se possa sentar no balcão, manter a mente focada na larica, apenas com a brasa da fornalha como testemunha. E no final do ritual, lamber os dedos é sinal de gratidão.
Rua Barata Ribeiro 7-D, Copacabana (2543 8841). Diariamente, do meio-dia às 5h. R$ 18.
Avenida Rio Branco 156, Centro (2262-7098). De segunda a sábado, das 11h às 21h. Sáb, até as 15h. R$ 22,90.
Não pode ter preconceito, nem medo de amargo. Para se relacionar com o mais infame dos legumes, é preciso se libertar de qualquer preconceito. Porque quando ele cai em mãos habilidosas e mentes criativas, vira até guacamole.
Rua General Espírito Santo Cardoso 50, Tijuca (2570-9389). R$ 20 (guacamole de jiló).
Rua General Canabarro 218, Maracanã (2568-9511). De Ter a sex, das 15h às 22h. Sáb, das 12h às 19h. Feriados, do meio-dia às 17h. R$ 1,50 (Jiló recheado com linguiça).
E daí que alguns salgados do tipo lembram uma fita VHS, como descreve Gilberto Porcidonio em sua crônica ‘Bate-entope’? Na larica, quanto mais melhor. Se você não é natureba ou alérgico, não tem erro nem com o queijo, nem com o presunto. E se a massa for fofinha, então...
Avenida Ataulfo de Paiva 1.030, Leblon (2294-1597). Aberto 24h. R$ 4.
Rua Mariz e Barros 470, Maracanã (2204-2111). Diariamente, das 6h às 22h. R$ 4,20.
Os PHDs em botequins alertam: “Não se atenham a nomes. O que vale é o paladar”. O seu estômago pode até se retorcer ao ouvir receitas à base de partes tão peculiares do boi. Às vezes, a rabada é vítima de preconceito por aqui. Mas na Europa é considerada iguaria.
Rua São Luiz Gonzaga 2.156, Benfica (3890-2283). De seg a sáb, das 8h às 22h. Dom, até as 17h. R$ 77 (serve até seis pessoas). R$ 39, 90 (serve até três pessoas). Vem acompanhada de batata, agrião e polenta.
Rua Visconde de Pirajá 627, Ipanema (2239-1646). De seg a dom, das 6h às 23h30. R$ 29 (para um) e R$ 40 (para dois). Vem acompanhada de arroz, feijão, batata e agrião.
Sucesso na Zona Norte, na década de 80 e 90, é outro que sofreu uma certa gourmetização ao chegar à Zona Sul. Nada contra. Ficou ainda mais gostoso. Agora, o frozen adocicado dos verões do subúrbio carioca está em todas as partes e é feito de todos os sabores — alcoólicos ou não.
Oito vendedores percorrem as areias das praias de Ipanema e Leblon, todo sáb e dom, das 11h30 às 16h (9741-1450). R$ 5.
Entregue em casa ou retirado no Grajaú, em caso de encomendas em grande quantidade. Esporadicamente, são encontrados nas areias da Praia de Ipanema, nos fins de semana. Pedidos pelo 98858-4659. R$ 2,75 (pequeno). R$ 3,50 (médio). R$ 4,50 (grande).
Os apreciadores do petisco, como Caio Barbosa (autor da crônica ‘Em Pé, no Balcão’), choram a sua escassez no mercado. É que o prato é coisa antiga, do tempo que se leva tudo do animal à panela. Até o cu da galinha, como a sambiquira é vulgarmente conhecida.
Rua Dr. Satamini 138-A, Tijuca (2565-7872). De seg a sáb, das 7h às 22h. Dom, a partir das 10h. R$ 12.
Rua Torres Homem 118, Vila Isabel (3176-0084). De ter a sex, das 15h30 até o último cliente. Sáb, dom e feriado, a partir das 10h. R$ 15.






