Nova geração de artistas traz olhares sobre racismo e Rio de Janeiro em duas exposições

Maxwell Alexandre e Mulambo levam mostras com pinturas e criações individuais ao público

Por Lucas França

Maxwell Alexandre posa com obra da exposição
Maxwell Alexandre posa com obra da exposição "Pardo é Papel", no MAR -

Rio - Dois artistas que refletem sobre cidade e racismo estão em alta no Rio de Janeiro. As exposições "Pardo é Papel", no MAR (Museu de Arte do Rio), de Maxwell Alexandre, e "Prato de Pedreiro", no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, de Mulambo, estão abertas ao público neste início de ano. Maxwell, de 29 anos, é morador da Rocinha e traz na exposição obras em que corpos negros aparecem pintados em papel pardo. Uma característica marcante nas criações de Maxwell são as figuras humanas feitas sem o rosto.

O jovem artista, que foi eleito pela revista Forbes um dos 30 jovens jovens com menos de 30 anos mais promissores e talentosos do Brasil, diz que não pintar a face o ajuda a criar "outras maneiras de passar a sensação de uma cena", e ainda destaca que "sem face as questões de gênero se confunde, outra parte importante que ganha potência ao ser sugestiva". O pintor, além das obras do MAR, assina a capa do álbum "Gigantes", do rapper BK, e de cada música do CD. A interação é tão grande entre Alexandre e BK que o artista classifica o músico como "um dos deuses desse caô todo que é o fim do mundo aqui no Rio". "Quando pinto um verso do Djonga, Baco ou Bk é uma forma de aproximar arte e favela. A intenção é diminuir esse abismo", conta MW, como assina os trabalhos.

Arte mulamba

Favela e periferia também são assuntos de João da Motta, o Mulambo, de 23 anos. A exposição "Prato de Pedreiro", tem esse nome, segundo Mulambo, para falar sobre a ideia de fome como força de vontade e desejo de conquista, uma "fome de quem luta". Para ele, uma nova geração de artistas, fora dos padrões da arte tradicional, "está chegando junta e fazendo muito barulho". "As instituições não vão mais conseguir fugir de nós", acredita Mulambo, crescido entre Saquarema e São Gonçalo. Mulambo relembra que já enfrentou a falta de referências na arte, mas que "isso vai mudar".

"Eu cresci sem referência, não tive aula de arte na escola. Falo muito do subúrbio por essa questão da identificação, utilizo referências do viver periférico do Rio de Janeiro. Nesse momento, mais do que nunca, vamos permanecer vivos não importa o que façam", fala o artista.

As obras de Mulambo são feitas em papelão e com objetos que encontra na rua. Tanto o nome artístico quanto os materiais nos quais pinta são importantes para o processo criativo dele. "Meu nome surgiu de uma forma muito natural, é Mulambo no sentido de pé preto de jogar bola na rua e mão suja de tinta de pintar", conta.

A exposição de Mulambo fica disponível ao público até 8 de fevereiro, de segunda-feira a sábado, das 11h às 18h, no CMA Hélio Oiticica, na Rua Luís de Camões 68, próximo a Praça Tiradentes, no Centro do Rio. Já a mostra de Maxwell permanece em cartaz até março de 2020, de terça-feira a domingo, das 10h às 17h, no MAR, localizado na Praça Mauá 5, na zona portuária da cidade.

 

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