‘Ousadia é especialidade da casa’, brinca Alice Caymmi ao falar da carreira
Cantora carioca, de 30 anos, regravou o funk melody ‘Me Leva’, com sua sonoridade pop-eletrônica
Alice CaymmiIgor Reis/Divulgação
Por Filipe Pavão*
Rio - Neta de Dorival Caymmi e sobrinha de Nana Caymmi, Alice carrega um sobrenome de peso. Mas isso não afeta a originalidade dessa cantora e compositora de 30 anos. Seu mais recente trabalho, a regravação da música 'Me Leva', sucesso atemporal de Latino, mostra a irreverência musical da artista que transita da MPB e pop até o funk melody e a música eletrônica.
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"Ousadia é uma especialidade da casa. Nunca tive medo de fazer nada e se tivesse, eu nem sairia de casa para trabalhar, afinal, sou neta de Dorival Caymmi...", reflete Alice sobre a pressão e os questionamentos sobre a família ilustre, que não costuma dar pitacos em seus trabalhos. "São as pessoas que falam muito desse assunto e eu sei que chama atenção, mas se eu ficar pensando nisso, eu não faço nada. Então, eu faço e quem gostar, gostou. Quem não gostar, um forte abraço", declara, aos risos.
Não é de hoje que a cantora flerta com o funk. Em 2014, no elogiado disco 'Rainha dos Raios', Alice regravou o hit 'Princesa', de MC Marcinho. Para a cantora, é um gênero que se destaca pela melodia, item necessário para uma boa música como ela aprendeu com o pai, Danilo Caymmi.
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"Eu sou muito amarradona nesses ‘hitaços’ do funk melody. Sempre achei a melodia 'Me Leva' legal porque é dramática e tem a ver comigo, com a região que eu canto e as coisas que eu falo. Além disso, seria um cover divertido para jogar para a galera após um ano tão difícil como 2020", revela Alice sobre a escolha da música, que foi lançada em dezembro e feita em parceria com a produtora curitibana Vivian Kuczynski, de apenas 17 anos.
Originalidade
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A regravação é uma homenagem a versão original, que marcou a década de 90, mas também reforça a identidade da cantora, que é reconhecida por ter um jeito próprio de se expressar. "É uma versão muito minha. As pessoas, inclusive, têm falado que dá para perceber que eu fiz esse novo arranjo", conta.
Isso tudo é reflexo do gosto eclético e referências musicais de Alice. Na adolescência, escutava de 'A Bela e a Fera' a Nirvana, gostos que permaneceram na fase adulta. Atualmente, ela diz escutar muito rap e trap, além de jazz. Na casa dela, Kendrick Lamar e Cardi B não param de tocar.
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"Eu ouço muita música, curto muita coisa, não dá para dizer que vem de um lugar só. Até porque para fazer um arranjo que tem tanto a minha cara, eu preciso ter um repertório. É daí que vem a maluquice de as pessoas reconhecerem que o arranjo é meu. Tenho muitas referências de lugares diferentes. Enfim, a minha cabeça é muito doida", brinca.
Expectativas para 2021
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Alice afirma que reage bem às crises e isso não foi diferente em 2020. O período de isolamento social foi um momento de criação, tanto na música como na pintura, que permitiu renovação a nível pessoal e artístico.
"Eu saí totalmente da área de conforto de não poder fazer show, de não poder sair e me distrair. Fiquei olhando para mim mesma, para o meu umbigo e, ao invés de surtar, eu resolvi compor", revela a cantora, que define o momento como trágico para o setor cultural e equipes técnicas, que perderam o sustento e não foram assistidas pelo governo.
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Ainda assim, Alice vê esperança no horizonte e acredita que 2021 vai ser um ano mais positivo que o anterior, mas também de muito trabalho para "reconstruir a casa que caiu". "Momento de reconstruir nossa vivencia, música, arte e cultura, que é a base de tudo. Uma reconstrução da maneira de se relacionar", reflete.