Rio - Susana Vieira retorna aos palcos cariocas com o espetáculo "Lady", em cartaz no Teatro Clara Nunes, na Zona Sul, até março. No monólogo, a atriz de 83 anos costura com franqueza e humor passagens marcantes de sua trajetória artística a trechos de Lady Macbeth, icônica personagem da obra do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616).
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A lembrança de uma conversa com o ator Diogo Vilela sobre a possibilidade de interpretar Lady Macbeth na maturidade ficou guardada até se transformar no projeto concreto. "Isso tem mais de 30 anos. Essa história ficou na minha cabeça até que resolvi fazer o monólogo. Eu tinha acabado de escrever minha biografia em 2024 e pensei: 'Vou dar meu livro pra uma pessoa maravilhosa que entende muito de Shakespeare, que é uma escritora de São Paulo, e ela vai fazer", conta.
A roteirista Vana Medeiros entrelaça a obra do dramaturgo à trajetória pessoal e artística de Susana, passando pela criação, a vida amorosa, a formação em balé e o início na televisão, na década de 1960, tudo conduzido em tom de conversa com a plateia.
"Conto a história sem ser chata, é óbvio. E conto dos atores com que trabalhei, dos meus casamentos... Enfim, é uma história leve, porque não tive uma vida muito pesada, e é uma história da televisão brasileira, onde eu conto como é que a televisão nasceu, cresceu e a gente ainda está aqui até hoje", relata.
Na montagem, a protagonista é uma atriz que passa sua vida a limpo faltando poucos minutos para entrar em cena. Susana revela os bastidores do teatro, comenta o processo de ensaio, o uso do figurino de época e transforma a "preparação para a estreia" em parte da narrativa.
"A personagem diz que está ensaiando porque a peça vai estrear no dia seguinte, ela ensaia com a capa de época, que é bonita e pesada, e as coisas vão se ajeitando. Não chega a ser um stand-up, mas eu converso com a plateia o tempo todo, e a plateia realmente me ajuda muito. Ela não precisa falar comigo, ela só me olha e vai descobrindo aos poucos tudo que quero falar. É muito bom. É boa essa troca com a plateia", afirma a artista.
Ela explica que não há grandes limites sobre os assuntos que compartilha no espetáculo, mas que preserva certas particularidades de outras pessoas envolvidas em sua história. "Enalteço todos os autores que trabalharam comigo, sou grata a todos eles. Falo dos meus casamentos dentro de uma certa elegância, porque também não foram dias tão felizes que eu tive na minha vida pessoal. Mas falo da solidão, de como é você chegar aos 83 anos, que é a minha idade, é sobre isso".
O retorno de "Lady" para a curtíssima temporada no Rio tem um significado afetivo. "É a casa da gente, onde a gente mora, cria família e raízes, onde é o nosso trabalho fixo. Você tem a possibilidade de chamar seus amigos, chamar todo mundo que cuida de você, seus médicos, suas manicures...você chama as pessoas que fazem parte da sua vida para mostrar o seu trabalho. Eu achei ótimo voltar", celebra a atriz.
Susana ressalta, ainda, a importância de ter uma diretora mulher à frente do espetáculo, papel assumido por Leona Cavalli. "Ela é uma atriz de São Paulo formada, fez vários trabalhos muito importantes lá e me admira como atriz. E eu achei que ela seria competente, porque ela está fazendo inclusive Nelson Rodrigues ('Senhora dos Afogados'), então eu acho que é uma pessoa preparada para me dirigir", explica.
Um antigo sonho da atriz era ser dirigida por Bibi Ferreira, que faleceu em 2019, referência máxima do teatro brasileiro. "Eu achava ela o máximo, a maior de todas, cantora, atriz, diretora, forte, firme, ela nos ensinou tudo, a respirar e a se impor em cena", detalha.
Legado de Maneco
Ao comentar a morte de Manoel Carlos, ocorrida em 10 de janeiro por complicações da doença de Parkinson, Susana fala com emoção sobre a marca deixada pelo autor em sua trajetória. "Se um dia eu estiver muito velha, sentada no sofá, e quiser ver algo do meu trabalho que aqueça o meu coração, é 'A Sucessora' (1978). Arlete Salles é a minha melhor amiga até hoje. Com Rubens de Falco eu vivi um romance violento por causa da novela, porque a novela é uma preciosidade. Então, o Manoel Carlos está na minha pele, no meu coração, na minha mente", declara.
Ao longo da carreira, a artista viveu personagens emblemáticos escritos pelo autor, como Branca Letícia de Barros Mota, de "Por Amor" (1997). "Ela era muito normal, dentro dos parâmetros que ele queria escrever sobre uma mulher mais fútil, egoísta, sofisticada e com preconceitos. Eu só dou os parabéns para ele por tudo que fez para todas as mulheres, todas as atrizes brasileiras e para mim. Ele está no meu livro de recordações na minha mente para todo sempre."
Para Susana, Maneco se diferenciava dos outros autores pela relação com a língua portuguesa e a forma sensível que ele retratava as emoções humanos. "Ele conseguia fazer um texto muito rico e precioso. Tudo se passa com a gente, não tem nada de fantasia. São coisas que acontecem no dia a dia da gente, nossos aborrecimentos, tristezas, saudade, ciúmes... Era um grande mestre, de mostrar especialmente a alma do brasileiro e do carioca", elogia.
Serviço
"Lady" Temporada: até 1° de março Quando: Sextas e Sábados, às 20h; Domingos, às 19h Local: Teatro Clara Nunes - Shopping da Gávea Endereço: Rua Marquês de São Vicente, 52 - Gávea Ingresso: a partir de R$ 75 (meia-entrada) Classificação: 10 anos