Vannessa Gerbelli estrela o monólogo ’Sombras no Final da Escadaria’Divulgação/Lenise Pinheiro

Rio - Vannessa Gerbelli está de volta aos palcos com a primeira temporada carioca do monólogo "Sombras no Final da Escadaria", em cartaz no Teatro Domingos Oliveira, na Zona Sul, até domingo (29). Dirigido por Amir Haddad, o espetáculo é o último texto inédito do autor Luiz Carlos Góes (1944-2014) e retrata a história de uma atriz sem nome que ocupa um teatro após uma estreia devastadora.
"Esse espetáculo chegou para mim na pandemia, quando a gente estava atordoado, sentindo muita falta da arte e precisando de estímulos positivos. Eu faço esse espetáculo desde aquela época e, mesmo assim, ele nunca está totalmente conhecido por mim. É um texto muito rico. A cada dia eu descubro coisas mais interessantes e atuais", conta. 
Em cena, a personagem enfrenta o dia seguinte de uma estreia desastrosa nos palcos. Para Gerbelli, esse é um ponto forte do espetáculo. "Quando a gente faz uma apresentação quer o sucesso e o texto já começa com esse suposto fracasso dessa mulher. O fracasso é um assunto que aterroriza todo mundo. Então, é algo que humaniza demais a personagem. Ela não tem nada a perder".
Ao esquecer o texto e improvisar diante da plateia, a personagem expõe mais do que uma falha profissional e revela marcas profundas de sua trajetória. "Você acaba vendo o que ela passou na vida e o que ela faz para ser atriz a qualquer custo. Como ela vê na arte a única saída para continuar sobrevivendo. Tem uma coisa muito poética por baixo de toda essa lama que ela coloca em cena", analisa. 
Na carreira artística, Vanessa comenta os momentos de frustração semelhantes às vividas pela personagem. "Talvez eu não tenha tido nenhum grande trauma, mas sempre acontece reversão de expectativa. Mas também acontece de você ter uma reversão positiva, né? Que às vezes você fala: 'Ah, eu começo com papelzinho mais ou menos aqui na novela e acaba virando um grande papel'. Isso aconteceu algumas vezes comigo", admite.
Questões femininas e abusos aparecem nas entrelinhas do texto de Luiz Carlos Góes, reforçando o contraste entre humor e denúncia. "Acho que a arte tem uma forma de expressão que é só dela para fazer uma denúncia. Você usa a imagem, a música, o texto...A arte, para mim, é um meio de se falar de questões espinhosas para a sociedade. Acho que é a maneira generosa para se comunicar certas questões que estão prementes a ser resolvidas em uma sociedade. Acho que é fundamental para isso".
Estrelando uma produção independente, Vannessa enxerga o monólogo como reflexo de um movimento mais amplo no setor cultural em que muitos artistas também passaram a investir nos próprios trabalhos. "É uma coisa que acabou sendo natural. Quem tem desejo grande de um trabalho autoral, acaba tendo que se produzir e pensar: 'O que está me inquietando? O que eu quero fazer?' Não é fácil porque a gente acaba precisando de patrocínio e de apoios. Mas essa é a nossa vida e a nossa luta. E a peça fala sobre isso também".
Gerbelli demonstra entusiasmo ao falar da estreia na cidade que atravessa o texto da obra. "Eu estou muito feliz, porque o espetáculo é do Luiz Carlos Góes, que era carioca. Tem muitas referências ao Rio de Janeiro, tem muitas referências à Copacabana, o lugar onde ele viveu. Então o espetáculo faz muito mais sentido no Rio de Janeiro", destaca.
Destaque na TV
Mais de duas décadas após a exibição de "Mulheres Apaixonadas" (2003), o público ainda associa Vannessa Gerbelli à intensa atuação como Fernanda. A personagem é uma ex-garota de programa e mãe dedicada de Salete (Bruna Marquezine). A morte trágica da personagem, atingida por uma bala perdida no Leblon, se tornou uma das cenas marcantes da teledramaturgia brasileira.
A atriz acredita que força da história está diretamente ligada à condução do autor Manoel Carlos, que morreu em janeiro e enfrentava complicações da Doença de Parkinson. "Ele era muito inquieto, apaixonado pelo ofício dele, tinha muita responsabilidade ao escrever e ele tinha na cabeça o desejo de transformar certas coisas, tanto que algumas coisas foram transformadas por causa do que ele iluminou nas novelas", avalia.
Vannessa descreve o período que integrou o elenco do folhetim como uma fase singular. "Foi um momento que talvez não volte nunca mais na televisão brasileira, porque outras mídias chegaram, mas naquela época realmente foi muito especial. Acho que por isso também as pessoas olham os atores que participaram daquela era de ouro com muito afeto, uma certa saudade e muita admiração", opina.
Serviço:
"Sombras no Final da Escadaria"
Sexta-feira e sábado, às 20h; e domingo, às 19h
Local: Teatro Domingos Oliveira
Endereço: Av. Padre Leonel Franca, 240 – Gávea
Ingresso: a partir de R$ 40 (meia-entrada)