Dani Miranda conta a história de músicas conhecidas e seus compositoresDivulgação

Rio - Por trás de cada clássico do samba, existe uma história que nem sempre chega ao público. É a partir dessa ideia que Daniela Miranda, de 43 anos, criadora do perfil danisambandoporai, transforma músicas conhecidas em narrativas que resgatam a memória do gênero. Seu trabalho agora ganha um novo capítulo com o projeto audiovisual "Na Casa da Dani", gravado em março e com lançamento previsto para o início de maio.
Mais do que falar sobre as canções, Dani construiu um espaço dedicado a investigar e contar as origens de composições que atravessam gerações. Em vídeos nas redes sociais, ela explica letras, revela bastidores e, principalmente, destaca quem está por trás das obras: os compositores, figuras muitas vezes pouco reconhecidas pelo grande público.
A relação com o samba, no entanto, começa muito antes das redes sociais. Filha de uma mulher nordestina, Dani cresceu em um ambiente simples, em São José dos Campos (SP), tendo na música uma das principais referências afetivas. As memórias da infância estão diretamente ligadas ao samba, especialmente às imagens da mãe cantando e dançando em casa.
"A minha relação com o samba aconteceu muito cedo. Eu me lembro da felicidade da minha mãe quando escutava samba, ela sempre sambava, e isso é uma das memórias mais gostosas que eu tenho", conta.
Foi nesse ambiente que o gênero deixou de ser apenas música e passou a representar um lugar de pertencimento. Ainda criança, Dani já demonstrava curiosidade sobre o que estava por trás das canções. Essa inquietação a levou a buscar, mesmo com pouco acesso, informações sobre letras, compositores e contextos históricos.
"Eu sempre fui muito curiosa. Eu queria entender de onde vinham aquelas letras, por que aquilo era escrito daquele jeito. E comecei a procurar essas histórias, mesmo sem ter muito acesso", afirma.
Essa busca atravessou diferentes fases da vida. Antes de se dedicar ao projeto atual, ela construiu uma trajetória distante do ambiente digital. Formada em Administração, trabalhou por anos na área social e, posteriormente, com eventos. O samba, nesse período, permaneceu como presença constante, seja em rodas, seja na participação em escolas de samba.
A virada veio em um momento delicado. Durante o período em que conciliava trabalho, maternidade e os cuidados com a mãe, que enfrentava problemas de saúde, Dani encontrou no samba uma forma de se reconectar. Ao mesmo tempo, um episódio em uma roda serviu como impulso definitivo para transformar sua relação com o gênero em projeto.
"Eu escutei um questionamento sobre entender de samba e aquilo me marcou muito. Como mulher, a gente é sempre colocada em dúvida. Voltei para casa e pensei: vou falar sobre o que eu gosto, que é o samba", relembra.
A ideia de criar conteúdo surgiu ali, quase como resposta. Mesmo sem familiaridade com redes sociais, decidiu gravar um primeiro vídeo contando a história de uma música. O início foi marcado por insegurança, mas a recepção do público rapidamente mostrou que havia espaço para aquele tipo de conteúdo.
"Quando gravei os primeiros vídeos, não gostava da minha voz, da minha imagem, mas resolvi postar. E quando vi, as pessoas estavam pedindo mais", diz.
Processo de criação
Hoje, com mais de 170 histórias publicadas, o trabalho é resultado de um processo que vai muito além do que aparece na tela. Apesar do formato dos vídeos, cada conteúdo é sustentado por uma apuração detalhada, que inclui entrevistas com compositores, familiares e pessoas ligadas às obras, além de pesquisas em biografias e registros históricos.
"O vídeo é só 10% do que as pessoas veem. Por trás tem uma coleta séria de dados, entrevistas, pesquisa. Às vezes levo mais de um ano para conseguir contar uma história completa", explica.
A escolha das músicas parte, principalmente, de uma conexão pessoal e do interesse em contar histórias relevantes, muitas vezes pouco conhecidas.
"Eu faço muito pelo coração. A maioria das músicas sou eu que escolho. Não é sobre data comemorativa, é sobre a história que precisa ser contada", afirma.
Audiovisual para preservar a história do samba
Esse cuidado também reflete uma preocupação maior de preservar e registrar a história do samba. Foi justamente essa percepção de que muitas trajetórias e composições seguem sem documentação adequada que motivou a criação do projeto audiovisual "Na Casa da Dani".
Gravado em um ambiente residencial em Jacareí (SP), o projeto reúne compositores como Mauro Diniz, Toninho Geraes, Marquinho Diniz, Marina Íris, entre outros nomes de diferentes gerações, em um formato intimista, que mistura música e conversa. A proposta é ampliar o que já é feito nas redes, ou seja, não apenas contar as histórias, mas mostrar os rostos e dar protagonismo aos criadores.
"Eu senti que precisava ir além de contar histórias. Precisava mostrar esses compositores, dar rosto, dar voz. Muitos continuam produzindo e ainda assim não têm visibilidade", destaca.
Além de revisitar sucessos, os artistas também apresentam novas composições, reforçando a ideia de que o samba é um gênero em constante renovação. "A gente precisa renovar o samba, trazer coisas novas, mas com qualidade. Mostrar isso para o público também faz parte do projeto."
Com lançamento previsto para o início de maio, o audiovisual será disponibilizado nas plataformas digitais, com foco no YouTube. A intenção é que o projeto tenha continuidade.
"Não foi pensado para ser único. A gente tem muitos compositores que precisam desse espaço. A ideia é que seja o primeiro de muitos", adianta.
Ao longo desse percurso, a influenciadora também enfrentou desafios, especialmente relacionados ao machismo ainda presente no universo do samba. Embora reconheça avanços, ela aponta que ainda existe desconfiança em relação ao papel da mulher no gênero.
"As pessoas ainda questionam, acham que tem alguém por trás, um homem produzindo. Mas todo o trabalho é meu. Isso ainda precisa mudar", afirma.
Ao unir pesquisa, comunicação e vivência, Dani Miranda não apenas traduz o samba para novos públicos, mas contribui para preservar e valorizar suas origens. "O samba conta a história do Brasil. E o meu objetivo sempre foi resgatar essa identidade e mostrar que o samba é lugar de pertencimento, de estudo e de alegria."
Reportagem de Rodrigo Bresani, com supervisão de Adriano Araújo