Luarlindo Ernesto e Elenilce Bottari são amigos há cerca de 40 anosReginaldo Pimenta / Agência O Dia
Em conversa com o DIA, Elenilce disse que a ideia de escrever um livro com as histórias do amigo surgiu como uma brincadeira entre os dois, há cerca de 40 anos. Ao passar a ideia para o papel, a obra começou a ser produzida a partir das memórias de Luarlindo e pesquisas em acervos.
“Conheci essa peça [Luarlindo] e ele é um contador de histórias. Uma vez, voltando da pauta com outro colega, chegamos na redação e o chefe de reportagem José Gonçalves Fontes estava indo beber com o Luar em um lugar que a gente conhecia como 'cospe grosso', um quiosquezinho muito safado na parte de trás do Jornal do Brasil. Eu acabei indo para lá com eles e, no segundo ou terceiro copo, o que tinha de bom senso na minha cabeça foi embora… Eu virei pra ele e falei: ‘Posso escrever o seu livro? Você me deixa ser a sua biógrafa?’ E aí o sacana respondeu: ‘Deixo’”, relata Elenilce.
“Isso faz 40 anos… Eu mudei de jornal, ele também, e toda vez que a gente se encontrava a brincadeira era: ‘E o livro? Quando vai, quando vem?’ Ele vendeu essa proposta para uns outros dez (risos). Por uma cerveja, ele topava tudo”, brinca a escritora.
O livro segue a ideia de dois amigos conversando em um bar, contando crônicas vividas por Luarlindo. Elenilce reforça que, além da homenagem, a obra tem o importante papel de resgatar a história oral das redações. O texto apresenta os bastidores de casos que ajudaram a criar o jornalismo investigativo policial.
“Ele é uma pessoa apaixonante, uma pessoa muito generosa. Ele é o mestre, ele ensina e fez inúmeras gerações de jornalistas. Muitos colegas passaram a frequentar a casa dele, chamar de pai, padrinho. Isso ajudou muito a construir meu amor pelo jornalismo. Uma coisa legal é resgatar a história oral das redações, porque eles não vão estar mais aqui. Luarlindo mesmo trabalhou com grandes nomes, como Barão de Itararé, Nelson Rodrigues. Essa é uma experiência oral que está se perdendo”, destaca a autora.
Pouco antes da entrevista em sua casa, na Zona Norte do Rio, Luarlindo recebeu a ligação de um amigo que o chamou de “mestre dos mestres”. Perguntado sobre a origem do apelido, ele explica que sempre teve prazer em trabalhar com jornalistas mais novos e passar ensinamentos.
“Eu ficava revoltado com os mais velhos que maltratavam muito os ‘focas’, os novatos. Eu defendia esses ‘focas’, que hoje são 'cobras' da profissão. Eu nunca escondi jogo, sempre mostrava como era”, conta.
Entre idas e vindas, Luar acompanha a história do DIA desde 1974 e está em sua terceira passagem pelo jornal - esta ininterrupta há 30 anos. Apaixonado pela profissão, ele segue na ativa com seu bom humor incomparável.
“Eu cheguei a trabalhar em três redações ao mesmo tempo, porque eram cinco horas diárias de trabalho. Era duro, por exemplo, trabalhar no O Globo e no Última Hora. São ambientes, pensamentos e objetivos completamente diferentes”, relembra.
Luarlindo explica que Elenilce o despertou a vontade de colocar as suas histórias em um livro. “Não posso levá-las para o túmulo”. O material “baseado em fatos quase sempre reais”, como descreve a escritora, ainda aborda famosas “cascatas”, termo utilizado para caracterizar as histórias enfeitadas pelos escritores.
“Havia uma competição natural entre os jornais, a disputa por mercado. Então tinha muita cascata porque precisava melhorar o texto. O jornal que tinha cascatas era entretenimento. É diferente das ‘fake news’. A fake news tem um propósito, quer distorcer a realidade, mudar seu pensamento ou vender alguma coisa. Já com as cascatas, eles só queriam vender jornal. Quando vem essa galera, anos 50 e 60, isso vai mudando nas redações. Tanto que tem muitos intelectuais. O jornalismo começou a buscar o contato humano e o Luarlindo sempre soube ver os ‘invisíveis’. Desempregados, bêbados, trabalhadores, prostitutas...”, explica.
O jornalista revela, para citar um exemplo, que presenciou a morte do policial Perpétuo de Freitas e seu chefe pediu para enfeitar a história. No entanto, ele decidiu manter o texto como havia vivenciado a ocorrência.
“Perpétuo de Freitas morreu nos meus braços, na Favela do Esqueleto, eu cheguei no jornal e o diretor executivo de redação disse: ‘Vamos esquentar a matéria. Quero que você escreva o diálogo entre você e o Perpétuo morimbundo’. Eu respondi que não iria escrever, porque ele morreu com um tiro que atravessou os pulmões e coração. Não teve nem tempo de falar nada. Escrevi a história verdadeira que eu presenciei e ele ficou bravo. ‘Você não sabe esquentar matéria, não agrada a leitura, não chama o leitor’”, relata Luar.
As inúmeras histórias vividas pelo repórter em mais de 60 anos de atuação renderam reconhecimento e admiração. No Jornal do Brasil, ele ganhou dois prêmios Esso por equipe. Um pelo trabalho realizado na cobertura do atentado ao Riocentro, em 1981, e outra por uma série de reportagens que o jornal fez com três repórteres morando em comunidades do Rio contando como a vizinhança vivia e sua realidade.
Luarlindo Ernesto teve o primeiro emprego no jornal Última Hora aos 14 anos. Na época, fazia ligações para as delegacias durante a madrugada para 'caçar' pautas. Depois de uma passagem pelo Exército, ele foi admitido, aos 19, como repórter e cuidava do que acontecia no Hospital Municipal Miguel Couto, no Leblon.
Histórias do Luar
Assalto ao restaurante Fiorentina
"Eu tinha uma namorada que era casada e eu fui no restaurante Fiorentina para mostrar que era exuberante e tal. Só que o restaurante foi assaltado pelo Lúcio Flávio, que estudou comigo, servimos juntos ao exército. O Lúcio Flávio havia acabado de fugir, uma fuga espetacular do Presídio Frei Caneca. Havia uma ideia de que talvez ele tivesse sido sequestrado pelo Mariano, inimigo dele. Não se sabia se ele tinha fugido ou se estava morto, e a minha pauta era procurar pistas do Lúcio Flávio. Então, eu estava no restaurante, comecei a namorar, e ouço o barulho: ‘É um assalto’. Eu reconheci a voz, sabia que era o Lúcio Flávio. Coloquei isso no jornal? Nunca. Eu teria que dizer que o assaltante do restaurante era o Lúcio Flávio e eu estava lá com amante. Dias depois, ele é preso. No momento de uma entrevista coletiva, ele diz: ‘Nunca fui um cara violento. Só naquele dia porque o garçom foi se meter comigo. Não é não, Luar?’ Então, ele conta a história do assalto que ninguém sabia e eu coloquei no jornal como se tivesse tomado conhecimento naquele momento".
Presente holandês
"O Fred era chefe de máquina de navio europeu, fazia transporte de gás, petróleo. Uma vez, ele passou na Holanda para carregar ou descarregar uma carga, acho que era o Porto de Roterdã, e comprou uma garrafinha do tipo bico de jaca. Mandou para a mulher e pediu para me entregar, porque tinha esquecido meu endereço. Eu estava passando de carro em frente à porta deles e ela me viu, me parou e disse que o Fred havia mandado um presente para mim. Chegando em casa, eu abri e vi o rótulo dizendo que era holandês. Nunca falei holandês nem bêbado. Mas o Fred era ‘biriteiro’ e eu também, então eu destampei e bebi. Quando ele chegou, me perguntou:
Relatório da bomba no Riocentro
"O Jornal do Brasil fez a melhor cobertura do atentado ao Riocentro, ganhou até prêmio. Só que a Globo conseguiu o relatório do Exército primeiro. Claro que era um relatório totalmente imparcial, mas não interessava. Toda a imprensa estava atrás. Eu estava no Jornal do Brasil durante a madrugada e, naquela época, os jornais trocavam figurinhas. Quando eu vi, mandei pararem as máquinas. Copiei até os erros, porque não tinha tempo".
Prisão de Tommaso Buscetta
"A história começa em 1972, quando o Tommaso é preso no Paraná e deportado. Ele consegue fugir e, dez anos depois, volta ao Brasil. Não havia registro de movimentação do Tommaso no Brasil em 1982, fui eu quem localizei. Depois, fui chamado para prestar depoimento na Itália, porque também havia o processo por tráfico internacional. Eu contei só a metade para me chamarem para depor novamente. Quando eu voltei, estava em Angra e vi a notícia na televisão de que o Tommaso havia morrido. Morreu para me sacanear e não consegui voltar de graça para a Itália. Minha mulher conheceu Roma, mas eu só ia a trabalho".









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