Antonio Pitanga celebra mostra cinematográfica no CCBB RJDivulgação / Leandro Tumenas

Rio - O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) inaugura nesta quarta-feira (3) a "Mostra Pitanga", maior retrospectiva cinematográfica sobre a trajetória de Antonio Pitanga, de 86 anos. Com entrada gratuita e curadoria de Camila Pitanga e Thiago Ortman, a programação reúne 38 filmes que percorrem fases distintas do cinema nacional e a contribuição do artista para a consolidação do protagonismo negro nas telas, além de promover debates, leitura dramática e sessões comentadas. 
O ator conta que a retrospectiva funciona como um reencontro com uma trajetória que se confunde com momentos decisivos da cultura brasileira. "A gente não envelhece quando tem um sonho e quando você faz parte desse sonho, você vai alinhavando e costurando o ideal de uma liberdade, de uma democracia plantada na década de 50 e 60, que é o cinema novo e a gente corta o cordão umbilical da colonização cinematográfica europeia, americana, muscovita e inaugura um cinema genuinamente brasileiro", diz. 
Pitanga destaca a iniciativa de Camila e Thiago como um gesto de reconhecimento a partir do olhar de uma nova geração. "Eles deram luz a esse passado e trouxeram esse passado para que a gente pudesse dialogar. Mas é um olhar da juventude, e mais ainda minha filha que tem esse olhar e desejo. Uma artista de mão cheia, então eu estou consagrado". 
A mostra resgata produções centrais do Cinema Novo, movimento do qual o veterano foi um dos nomes marcantes, entre eles "Barravento" (1962), de Glauber Rocha; "Ganga Zumba" (1963) e "A Grande Cidade" (1966), de Cacá Diegues; além de "O Pagador de Promessas" (1962), de Anselmo Duarte. 
Para o ator, iniciativas gratuitas como essa reforçam a ideia de que a produção audiovisual nacional deve estar ao alcance de todos. "Cinema é uma arte que tem que abranger esse país de tamanho continental com uma potência cinematográfica que nenhum país do mundo tem", afirma. 
Trajetória 
Natural de Salvador, na Bahia, Antonio relembra que a entrada no cinema aconteceu quase por acaso, durante uma figuração que acabou mudando o rumo de sua vida. "Fiz um concurso já aos 16 anos para o telégrafo, que era cabo de submarino na década de 50 e me aproximei de pessoas que faziam teatro. Perguntei se podia fazer um teste, não era do meu perfil, e terminei ganhando o papel de Pitanga no filme 'Bahia de Todos os Santos'. Aí nasce o Pitanga", conta. 
Mesmo após décadas de carreira, o ator encontra motivação no legado construído ao lado de artistas que marcaram a cultura brasileira. "O reconhecimento por ter feito parte não só do Cinema Novo, mas da literatura, artes plásticas, poesia, dança... Muitos dos que participaram comigo já se foram, mas a luz dessa companhia, dessas lindas pessoas, continua de pé. Enquanto eu estiver respirando e com uma garra de que o Brasil que a gente deseja continue vivo". 
Pitanga é um dos nomes que integrará o elenco de "Por Você", próxima novela das 19h da TV Globo. O folhetim tem estreia prevista para agosto. "É um grande presente participar do terceiro trabalho do André Câmara (diretor artístico) já tinha feito com ele 'Lado a Lado' e 'Amor Perfeito'. Vou contracenar com Zé de Abreu, meu amigo e um dos maiores atores desse país. Estou esperançoso porque estou começando agora a conhecer por dentro a novela", adianta. 
Com isso, o artista descarta qualquer possibilidade de se afastar do trabalho e revela novos projetos em paralelo com o folhetim. "Plagiando a minha mulher, Benedita da Silva, não tem como me aposentar e  envelhecer, porque nós estamos armazenando juventude e isso me dá folego para continuar. Estou com vários projetos, um deles é sobre Benedita e outro sobre a independência do Brasil com a Manuela Dias". 
Reconhecimento
Às vésperas de completar 87 anos, Pitanga recebeu em maio o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em homenagem as mais de seis décadas de contribuições as artes. "Ter essa alegria da juventude, poder abrir e escancarar a janela do conhecimento e da memória, me traz uma alegria muito grande. Eu acho que a UFRJ e a 'Mostra Pitanga' me mostram como estou de pé, firme e parceiro dessa juventude", declara. 
O artista ainda ganhará um episódio da série documental "Tributo", do Globoplay, que celebra a trajetória de grandes nomes da televisão brasileira. "São flores em vida. Só posso agradecer porque eu estava no início da Globo em 1965 fazendo meu primeiro trabalho. A emissora também fez carinhosamente a calçada da fama e meu nome está lá. É importante porque não estou sozinho, é o Cinema Novo, o movimento negro e as pessoas que chegaram antes de mim como Léa Garcia, Ruth de Souza, Abdias do Nascimento, Milton Gonçalves e Grande Otelo", menciona.