Por daniela.lima
Lá vem eleDivulgação

Rio - O Carnaval vai chegar daqui a pouco, não demora nem dois meses. De hoje em diante, recomendo acompanhar as dicas dos craques no assunto que batem ponto aqui, como o professor Simas, a especialista Rita Fernandes, o craque Janjão, o Raphael e o Milton Cunha — essa turma que sabe como é que a banda toca. Por mais que você esteja bem informado sobre o que pode acontecer, convém preparar o espírito para o inusitado, a poeira que sobe quando sai o bloco e baixa quando a escola dispersa. 

No Carnaval, como diria minha mãe, tem de um tudo. Tem “Zumbi no repique, grega dando chilique e índio de esparadrapo”, como no samba da dupla Bosco e Blanc. É aquele momento “onde o povo toma pileques de ilusão”, nos versos de Drummond. Amizades se formam e casamentos acabam entre o refrão do Bola Preta e o carro-pipa do Barbas, como se não houvesse amanhã.
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Ou melhor, como se só houvesse o amanhã. Gosto do clima e, especialmente, dos tipos. Como aquele folião que chegou no bar Bip Bip, em Copacabana, e puxou uma cadeira. Arrasado, depois de “três dias de folia e brincadeira”, despejou os cotovelos sobre a mesa e grunhiu:
— Uma cerveja, estupidamente gelada.
Alfredo, dono do estabelecimento, conhecido e aplaudido pelo mau humor, grunhiu mais alto:
— Só tem quente.
— Serve — gemeu o folião, caindo imediatamente num pranto de derrubar encostas. Tão sincero que até o Alfredo se comoveu:
— Que foi, querido?
Acarinhado, o sujeito abriu o verbo:
— Você sabe o que é ter um amor, meu senhor, ter loucura por uma mulher, e depois encontrar esse amor, meu senhor, nos braços de um motorista de ônibus?
Corno no recolher das cinzas é comum, mas plagiando Lupicínio Rodrigues não é a toda hora que se encontra.
Alfredo tentou ajudar:
— Qual é a linha?
— Nenhuma. Piranha da pior espécie.
— Estou falando do Ricardão. Qual é a linha que ele pilota?
— 161, Glória-Leblon, via Jóquei.
O comerciante enxugou uma lágrima discreta:
— É duro mesmo. Sei o que você está passando.
Começando a se acostumar com o chifre, o amigo recente se animou:
— Você também já levou bola nas costas?
E o Alfredo, olhar distante, pôs mais uma dose de maldade no alfinete de pontinha fina:
— Só levei bola nas costas nos meus tempos de médio-volante do Bangu. Agora, se pelo menos a vadia tivesse escolhido um motorista do 162, que é via Copacabana...
Pois é, tem de um tudo.
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