Rio - Com enredo sobre os cariocas, em homenagem aos 450 anos do Rio, a Alegria da Zona Sul iniciou o segundo dia de desfile na Séria A com um susto: o segundo carro teve problema nos freios e demorou quase 10 minutos para entrar na Sapucaí. Apesar de terem que correr para tapar o buraco que foi criado na Avenida, os integrantes da escola de Copacabana contornaram o problema e desfilaram com entusiasmo.
A comissão de frente retratou o Largo da Carioca, com a correria do dia a dia de personagens da cidade. Já o carro abre-alas tinha oito modelos plus size. O objetivo do carnavalesco Eduardo Minucci foi mostrar que o Rio é uma cidade que abraça todas as tendências. “O Carnaval é para todos”, disse a componente Larisa torres, de 27 anos.
Mesmo com o salto quebrado da plataforma, a Rainha de Bateria, Veronice de Abreu, não perdeu o rebolado e atravessou a avenida sem sapato. Com fantasias criativas mas sem luxo, a agremiação encerrou sua apresentação com com 53 minutos.
A Acadêmicos de Santa Cruz, da Zona Oeste, foi a segunda a desfilar e contou a vida e a carreira de Grande Otelo. O desfile abordou desde os primeiros passos do artista ainda no circo até os anos dele no radio e na TV. A escola levou 2.500 componentes para a Avenida, distribuídos em 19 alas.
A grande surpresa do desfile foi a Bateria Tabajara, comandada pelo Mestre Riquinho, que se apresentou vestida de Charlie Chaplin. Os ritmistas apresentaram um instrumento pouco comum nos desfiles, o tritongo, que toca em três tons diferentes.
No segundo refrão do samba, os componentes fizeram uma paradinha e fizeram uma coreografia na Sapucaí. “Sabia que seria arriscado, mas sou ousado. Se não for para fazer nada diferente, fico em casa. O publico gosta de novidade. Vamos ver se os jurados vão aprovar. A escola não pode correr, mas essa é programada, então não tem problema”, brincou Riquinho.
O abre-alas, que representou um grande circo, teve problemas de iluminação, mas os técnicos da escola resolveram o problema antes de ela entrar na Sapucaí. Esculturas de 10 metros de palhaço, elefante, tigre e cavalo chamaram a atenção na alegoria.
Transtorno e luxo na Sapucaí
Paraíso do Tuiuti e Império Serrano foram os grandes destaques na primeira noite de desfiles na Série A, na Marquês de Sapucaí. Unidos de Bangu, que iniciou o desfile com seis minutos de atraso, e Em Cima da Hora, segunda a entrar, tiveram alas sem fantasias, decepcionaram e lutam para não cair.
Fantasias luxuosas e coloridas da Paraíso do Tuiuti, quarta a desfilar, surpreenderam. O ponto alto da escola de São Cristóvão foi a terceira alegoria, que representou uma comilança tupinambá relatada pelo escritor alemão Hans Staden, inspiração do enredo. Um boneco gigante devorava um viajante europeu. Os bichos-papões da comissão de frente também engoliam um dos integrantes, que saía logo depois em forma de esqueleto.
“Conseguimos passar a proposta que era representar o imaginário do povo europeu que achava que os índios eram monstros que comiam gente”, disse o coreógrafo Júnior Scapin. As quatro paradinhas da bateria, uma delas com 10 segundos, também agradaram.
Com o enredo ‘Poema aos peregrinos da fé’, que exaltou a religiosidade brasileira, a Império Serrano, terceira a entrar, arrancou aplausos, apesar do sistema de som que falhou três vezes. Um destaque caiu de um carro alegórico e sofreu ferimentos leves. “Temos condições de voltar ao Grupo Especial”, afirmou o diretor de Carnaval, Egas Muniz.
Três tenores do samba foram homenageados
A União do Parque Curicica, de Jacarepaguá, homenageou os sambistas Martinho da Vila, Monarco e Arlindo da Cruz com o enredo que desfilou no Sambódromo: ‘Os três tenores do samba’. Tonico da Vila representou o pai no desfile.
A bateria deu show em vários momentos da apresentação. Na comissão de frente, 15 bailarinos com sapatilhas de ponta se transformaram em malandros, sempre com muito samba no pé e ganharam aplausos dos jurados.
Um dos homenageados, o compositor Arlindo Cruz desfilou no alto do segundo carro da escola, acompanhado da mulher Babi. A agremiação passou sem problemas pela dispersão, terminando o desfile em 55 minutos. Num carro alegórico, componentes desfilaram fantasiados de Zé Pilintra. “Fizemos um desfile maravilhoso. É bom ser homenageado”, comemorou Arlindo Cruz.
O tradicional Tigre chamou a atenção mais uma vez no desfile da Porto da Pedra, de São Gonçalo, penúltima escola a se apresentar. O enredo ‘Há uma luz que nunca se apaga’, do carnavalesco Wagner Gonçalves, navegou na energia e na luz. O sambista Dudu Nobre, um dos compositores do samba-enredo da agremiação desfilou junto com a diretoria. A atriz Solange Gomes e a rainha de bateria Bianca Leão brilharam com suas fantasias luxuosas.
Um dos destaques foi a apresentação do casal de mestre-sala e porta-bandeira José Roberto e Thaís Romi. Com uma fantasia que representava o arco-íris, a dupla esbanjou simpatia.
O presidente da Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Lierj), Déo Pessoa, fez um balanço da primeira noite de desfiles: “Tivemos problemas com som e escolas sem fantasias, mas nada que atrapalhasse a garra dos integrantes”.
Irreverência
A Caprichosos de Pilares encerrou a noite com desfile irreverente e também crítico. Com o enredo ‘Na minha mão é mais barato’, que falou sobre o mercado popular, a escola causou frisson com sua comissão de frente.
Os 15 bailarinos vestidos de Guarda Municipal faziam coreografias, ao lado de uma camelô, representando o famoso ‘rapa’. A rainha de bateria Milena Nogueira, com a fantasia ‘Artigo de Primeira’, também encantou por sua beleza.
No segundo carro alegórico, ‘Tem Xepa no Brasil Colonial’, a destaque desfilou com os seios à mostra. A terceira alegoria, ‘Saudade do Rio Antigo’, falou sobre o trabalho de ambulantes nas ruas do Rio Antigo.