Rio - São muitas histórias e muitos carnavais. Em 50 anos de carreira, a única certeza que Domingos da Costa Ferreira, o Dominguinhos do Estácio, tem é de ser pé quente. Pelas três principais escolas de samba que passou, conquistou títulos inéditos. O mais recente, neste ano, teve sabor especial. Depois de 18 anos afastado de sua agremiação do coração, a Estácio de Sá, o intérprete não só conseguiu emplacar um samba-enredo de sua autoria, mas levou a escola de volta ao Grupo Especial.
“Olho para trás e me sinto orgulhoso de tudo que conquistei. Tive sorte, mas também me dediquei muito ao samba”, declarou Dominguinhos. Nascido no morro de São Carlos, fruto de uma relação de um português e uma ‘criolinha’, como ele mesmo gosta de chamar sua mãe já falecida, o cantor e compositor, hoje com 73 anos, começou sua trajetória aos 17, como puxador no bloco Bafo da Onça.
Sua estreia em escola de samba foi na Estácio de Sá, na época em que se chamava Unidos de São Carlos, no fim da década de 60. “O cantor daquele ano falhou e eu assumi o desfile na metade. Foi então que todo mundo reparou em mim”, relembrou. Daquele ano em diante, foram só glórias. Em 79, Dominguinhos conquistou seu primeiro título como intérprete na Imperatriz. Mas foi depois de 10 anos, que sua voz ficou eternizada no Carnaval, com o samba da verde e branco ‘Liberdade, liberdade, Abra as Asas Sobre Nós’.
Na mesma década, o intérprete virou estrela em São Paulo. De bancário no Rio, com salário de R$ 350, ele foi parar em uma boate paulista para ganhar R$ 5 mil por mês. “Virei a sensação porque só cantava samba-enredo. Quando voltei para o morro, no Rio, todo mundo pensava que eu tinha virado ladrão porque estava cheio da grana”, contou o cantor.
Na Viradouro, o puxador fez história. Logo na sua estreia como intérprete, ele conquistou o primeiro e único título da escola. “Falam que eu sou pé quente. Até pode ser, mas digo que fui alvo de coincidências. Na Viradouro, nós ganhamos porque a escola investiu para isso”, explicou o compositor. A mesma justificativa ele também usa para o campeonato da Estácio neste ano. “A escola quis ganhar”, completou.
Feijoada, DVD e livro para os 50 anos
E como todo meio século que se preze, o de Dominguinhos será regado a muita festa. No dia 9, a quadra da Estácio de Sá promete ficar lotada com a feijoada dedicada ao intérprete. Puxadores de várias escolas do Grupo Especial já foram convidados. A comemoração será à partir das 13h e o preço do ingresso é de R$ 20. Para os próximos meses, o projeto em homenagem à carreira do cantor será a gravação de um DVD somente com músicas de sua autoria. A outra novidade é o lançamento de um livro, que está sendo elaborado pelo escritor André Diniz, e promete contar toda a trajetória de Dominguinhos.
Desfile que fez a emoção transbordar
Quem vê Dominguinhos com tanta disposição ao microfone, não imagina que ele já sofreu dois infartos. Um deles, há 7 anos, foi em plena Marquês de Sapucaí, durante o desfile da Imperatriz.
“Estava muito emocionado com o samba. No meio do desfile me senti mal. De lá, eu já saí de ambulância”, relembrou o cantor. O outro episódio de infarto foi em casa, dormindo. “Quando canto, meu coração acelera demais. Sou muito emotivo e meio frouxo para essas coisas”, completou.
Devoto de Nossa Senhora de Nazaré, Dominguinhos garante que a fé foi essencial em sua trajetória profissional. “Sou muito católico e reconheço todas as graças que tive. Nunca bebi e nem fumei. Acho que por isso também dei certo”, declarou o intérprete.
Em sua longa caminhada, Dominguinhos coleciona no currículo grandes apresentações. Já cantou para o príncipe de Mônaco e até para a rainha Elizabeth. O mais recente evento foi o Brazilian Day, em Nova Iorque. “Já viajei muito nessa vida, graças ao samba”, acrescentou.
Sobre o futuro, o sambista faz questão de manter o bom humor. “Já estava decidido a me aposentar e acabei voltando para o Carnaval. Sei que estou fazendo hora extra aqui na Terra, mas vou levar até onde o samba deixar”, encerrou.