Bloco Timoneiros da ViolaReprodução

Rio - Após doze anos de celebração no Carnaval do legado do samba de Paulinho da Viola com milhares de súditos fiéis, o Timoneiros da Viola decidiu encerrar suas atividades por falta de apoio dos setores público e privado. Com o sambista como co-fundador e anfitrião, o emblemático bloco de Oswaldo Cruz, na Zona Norte, planejava celebrar os 80 anos do padrinho e homenagear a cantora Clara Nunes, que imortalizou canções como 'Coração Leviano' e 'Na Linha do Mar'. 

"Não fazemos parte da indústria do entretenimento das estrelas que comandam os megablocos. Logo, não nos percebem como relevantes mesmo sendo o maior bloco da Zona Norte do Rio. Como se disputa apoio neste cenário desigual em que Carnaval de rua virou um business?", questionou Vagner Fernandes, diretor-presidente do Timoneiros.

Ao DIA, Vagner relata a existência de um projeto de desconstrução do Carnaval do subúrbio liderado pela iniciativa privada. "O poder público precisa e deve tomar as rédeas da situação. Ou faz isso ou a folia no subúrbio cairá de vez no limbo da maior festa popular do país. Onde estão as Comissões de Cultura da Câmara e da Alerj que nada fazem, mesmo sabendo do que vem acontecendo?".

Em 2019, último ano de desfile do Timoneiros, o bloco homenageou o trio fundador da Portela: Paulo da Portela, Antônio Rufino e Antônio Caetano. Naquele ano, a festa só foi possível porque foi lançada uma campanha de financiamento coletivo que possibilitou a arrecadação de fundos. Em 2020, antes da pandemia de covid-19, o bloco não desfilou por falta de patrocínio, mesmo cenário do ano passado. Já em 2021 e 2022, o cenário pandêmico impediu o cortejo.

Danielle Nascimento, filha da histórica porta-bandeira da Portela Vilma Nascimento, já participou ativamente do bloco e lamentou o fim dos desfiles. "Eu tive a honra de ser a porta-bandeira do Timoneiros, juntamente com o mestre-sala Timbira. Esse bloco em homenagem ao Paulinho da Viola é um grande sucesso de público e grande manifestação da cultura do samba, sempre teve um clima incrível. As milhares de pessoas que frequentavam curtiam demais com as suas famílias. Acho lastimável a falta de apoio levar ao ponto de se perder um bloco tão importante no coração de Madureira, terra do samba e do Carnaval carioca."

O samba trazendo alvorada: esperança?
Criado em 2012 pelo jornalista, escritor e pesquisador Vagner Fernandes, o bloco teve o aval do próprio Paulinho da Viola. "O Timoneiros foi concebido como núcleo de resistência sociopolítica e cultural. É um projeto que sempre teve como intuito valorizar o samba e o choro, tendo como ponto de partida a obra do Paulinho da Viola, a nossa maior fonte de inspiração. Ou seja, buscamos preservar a cultura popular carioca no que há de mais genuíno", ressalta Vagner.

Apesar da grande vontade de retomar o Timoneiros futuramente, Fernandes diz não conseguir ser otimista. "Enquanto o poder público não se mexer, o Carnaval no subúrbio continuará agonizando. Não adianta fazer um edital de R$ 10 mil, R$ 20 mil para distribuir a blocos. É preciso construir uma política de estado com um conselho que delibere sobre o tema", pondera. 

A festa que sempre tomou conta da Praça Paulo da Portela, em Oswaldo Cruz, por 12 anos se despede com tristeza. "No Timoneiros, os protagonistas são pretos, pobres e sambistas. Enfim, aqueles que historicamente sempre estiveram à margem. Candeia viveu isso na década de 1970 com o Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo, o G.R.A.N.E.S Quilombo. Nada mudou. O que vivemos, portanto, não é novidade", lamentou.
*Reportagem da estagiária Giovanna Machado, sob supervisão de Thiago Antunes