Leandro Vieira, carnavalesco da Imperatriz, e Ney MatogrossoDivulgação / Wagner Rodrigues / Imperatriz
'Recusou rótulos': Leandro Vieira detalha as 'peles' de Ney Matogrosso que desfilarão na Sapucaí
Carnavalesco da Imperatriz, que apresentará o enredo 'Camaleônico', diz que as alas e alegorias apresentarão visões carnavalescas de personagens incorporados pelo cantor
Rio - A Imperatriz tem como desafio no Carnaval de 2026 a complexidade e o prazer de representar Ney Matogrosso, artista que vestiu diversas 'peles' retratadas pelo enredo "Camaleônico". Em entrevista ao DIA nesta sexta-feira (16), o carnavalesco Leandro Vieira disse como pretende traduzir para a avenida personagens incorporados pelo cantor, deixando uma marca política sem desvirtuar a principal mensagem: homenagear a personalidade que fez do corpo um manifesto poético.
"O meu trabalho, como um todo, tem uma marca política. O universo estético do Ney aponta para essa ideia de estética enquanto manifesto político. Aquilo que ele vestiu está muito associado a uma bandeira levantada pelo Ney, que é a bandeira que vai diretamente ao direito das pessoas serem aquilo que são, de se apresentarem como aquilo que querem. Essa ideia do Ney Matogrosso, que é homem, que é bicho, que é mulher, que é bandido, é uma ideia recorrente do universo do Ney. O Ney é um artista que se recusou ao rótulo, ao enquadramento da normatividade. Ao recusar a normatividade, ele assumiu muitas peles e são essas peles que fazem com que o enredo da Imperatriz seja batizado de Camaleônico", explicou Leandro Vieira.
O carnavalesco destacou que tanto as alas quanto as alegorias serão interpretações artísticas de personagens vividos por Ney Matogrosso, como o "Bandido", do disco lançado em 1976, e o "Homem de Neanderthal", canção que estreou no ano anterior. O samba da Rainha de Ramos ainda cita a luta do artista contra a Ditadura Militar, elemento que reforça a marca política do cantor e da homenagem.
"Também tem o próprio Ney do 'Secos e Molhados', que é essa criatura mascarada, que dialogava com o universo surrealista, maquiado com os olhos negros. São muitas referências desse personagem que não aceitou o enquadramento único e fez disso o manifesto político. Estamos falando de um artista que explode nacionalmente dentro de um universo político da Ditadura Militar, onde a normatividade é quase como uma imposição. Nesse ambiente, apresentar-se múltiplo, não hegemônico, vestir-se de maneira não normativa, incorporar a androginia como elemento estético, isso é muito transgressor. Essas imagens estão traduzidas nas peles de Ney Matogrosso que os componentes da Imperatriz passam a incorporar para apresentar o enredo", destacou.
Leandro Vieira assina o figurino que Ney, aos 84 anos, usará na avenida. O traje será cravejado por mais de 40 mil cristais verdes envoltos ao corpo do cantor. A peça ainda traz moedas banhadas a ouro e cerca de 75 mil canutilhos, aplicados em franjas e bordados que prometem acompanhar, em movimento, cada gesto performático. No início de dezembro, o cantor participou do ensaio da Imperatriz e o carnavalesco aponta a presença do artista como o ponto mais emocionante do desfile.
"Para mim, é um prazer ter o Ney vivo, dando opinião, se emocionando, se reconhecendo, contribuindo com falas que apontam para que se reconheça. É muito bonito quando você apresenta diversas peles de um cara que tem mais de 50 anos de carreira e 84 anos de idade, quando esse corpo está presente depois das pessoas terem visto todas essas personalidades que o cara incorporou. É muito especial você poder olhar uma série de transgressões realizadas da juventude à maturidade e, no fim de tudo, poder testemunhar a existência desse corpo político com vigor, cantando, dançando, se exibindo. O mais emocionante que pode existir no desfile da Imperatriz é a passagem do homenageado", celebra Leandro Vieira.
A um mês dos desfiles, a Cidade do Samba ferve com o trabalho contínuo nos barracões das escolas e o calor do verão carioca. No espaço da Imperatriz, que será a segunda a se apresentar no domingo de Carnaval, as equipes movimentaram estruturas de isopor e cuidaram de retoques nesta sexta-feira. A Rainha de Ramos busca seu décimo título, que seria o segundo com a participação de Leandro Vieira. O carnavalesco, campeão pela Imperatriz em 2023, também conquistou a elite do samba pela Mangueira em 2016 e 2019.





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