Unidos da Tijuca definiu samba-enredo para o Carnaval 2027Divulgação / Alex Maia
Unidos da Tijuca
Lucas Milato, carnavalesco estreante na agremiação, propõe uma nova narrativa para a saga do santo sem cabeça no próximo carnaval. Publicado em 2014, o livro é baseado em fatos reais: a estátua de Santo Antônio que ficou inacabada em Caridade, cidade do sertão do Ceará.
"Escolher o samba-enredo que vai nos conduzir na Marquês de Sapucaí é sempre um grande desafio porque a gente precisa entender o que consta no nosso enredo, na nossa sinopse, no desenvolvimento e no conjunto como um todo que pensamos para o nosso desfile. Estou muito feliz porque a Tijuca recebeu sambas de diferentes nuances para contar o nosso enredo. Não foi uma escolha fácil, mas sem sombras de dúvidas foi uma escolha assertiva e pensando acima de tudo no melhor para a escola, para o nosso projeto e para o nosso desfile", afirmou Milato.
Como iniciativa para valorizar o trabalho dos poetas, a escola reafirma o compromisso do pagamento de 100% da premiação destinada aos compositores campeões do concurso de samba-enredo. Uma medida pioneira entre as agremiações que realizam disputa de samba no Carnaval do Rio.
A parceria campeã é formada por um trio de poetas estreantes na escola. Ian Ruas, compositor campeão, declarou que só participou do processo da disputa devido às novas regras implementadas pela Unidos da Tijuca, que facilitou a inscrição e a participação da parceria, pois se tornou democraticamente mais econômica para os poetas com poucos recursos financeiros.
"Tenho um comportamento um pouco diferente dos outros compositores. Não participo de escritório e faço samba como uma homenagem ao meu pai que era compositor e faleceu. Sempre trabalhei com música, sou produtor musical e vivi metade da minha vida fora do país. E quando voltei, comecei a compor. Minha motivação foi pautada numa inspiração que achei dentro do enredo. Uma história muito carregada de afeto, sentimento e emoção permeada pelo universo nordestino", declarou Ian.
Confira a letra do samba vencedor:
Confira a letra do samba vencedor da Tijuca:
Mainha, me guarda em teu colo
A luz da saudade vagueia no olhar
No brejo, a casinha, o sereno
Memórias que o tempo não pode apagar
A fé que deixaste a mim, acalma minha solidão
Ainda que o medo machuque meu coração
Delírios plantados em terra rachada florescem
Num rastro de dor
Será que a estrada esconde o segredo do amor?
Será que a estrada revela o segredo do amor?
Vá de retro Belzebu, não me venha assombrar
Padim Ciço me proteja, São Francisco vai curar
Nas veredas da ilusão, sertão já virou mar
Quem cultiva caridade, caridade vai achar
Ê, batuque em terreiro de arraiá!
Gingado, balão, festim, panela de mungunzá
Abre a roda que o cabra incorporou
Cabeça do santo herdei, cabeça do santo sou!
Preces de nativas em cortejo
Vozes de esperança e devoção
Guiado pelo fogo do desejo
Ofereço minhas bênçãos à mais pura adoração
Ô Toinho, meu pai, peço perdão!
Ô Toinho, meu pai pede perdão!
Tijuca, ao lume do teu candeeiro,
O sonho de um simples vaqueiro, que mãe batizou Samuel
Tijuca, milagre encontrei em Rosário
No Rio, em teu santuário,
Meu Juazeiro é o chão do Borel!
Em terra de fé, brotou
O fruto da oração
Traz viola, meu sinhô, a sanfona anunciou
Tem festança no sertão
(Vem sambar no meu baião)
Salgueiro
O espetáculo apresentou Xica como uma mulher negra, livre, poderosa e consciente de suas estratégias, colocando-a no centro de sua própria narrativa. A personagem surgiu como presença ancestral e energia que atravessa a história, a comunidade e o próprio Salgueiro.
A noite também contou com a apresentação da Bateria Furiosa, comandada pelos mestres Guilherme e Gustavo, da rainha de bateria Viviane Araújo, do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Sidclei Santos e Laryssa Victoria, além de passistas, baianas, velha guarda, musas e demais segmentos da Academia do Samba.
Meu tambor vai ecoar em resistência!
Evoco as divas, as Marias, as baianas
Depravadas, puritanas, pra clamar nossa insolência!
Exu comanda esse terreiro
Eis aqui o verdadeiro nome de sinhá
Francisca, mãe da encruzilhada, rosa indomada, deusa da rua!
Na procissão da Academia, negra fidalguia se perpetua
Incorporei no atabaque do meu torrão
Festa de ostentação ao poder da negritude
Dilacerei as vestes da servidão
Meu corpo foi invasão, fetiche da branquitude!
Nas lentes de outros olhos
O foco na nossa verdade é menor
Tal qual a trama da atriz
Que encenou, de uma vida, um capítulo só
Eu, que já fui outras Xicas, refaço o roteiro, no chão que me fez triunfar
Gira, desce o morro meu Salgueiro, meu quilombo pioneiro, renasci nesse gongá!
Firma axé na segunda-feira, é macumba a noite inteira, saravá, alafiá
Mãe, guardiã, fruto do afã
De um ventre escravo e um nobre senhor
Matriz, mecena de toda arte, que leva em seu estandarte, a simples audácia do amor
Louvai, Brasil! A filha de Òrun despertou!
Laroyê! Xica da Silva! Laroyê! Ê Mojubá!
Toda mulher tem direito à própria história
Meu Salgueiro é a memória que eu voltei pra consagrar
União da Ilha
Firma o ponto na curimba
E do samba faz mandinga
Pra tocar o omelê
Amor
De um Brasil republicano
De nascimento baiano
Batizado no dendê
Chegando ao Rio de Janeiro
De malandros, macumbeiros
Ranchos, blocos e cordões
Dançou, numa África pequena
Fez do corpo um poema
Encantando os corações
Negra magia se fez poesia
Em suas canções
Patakori, Ogunhê
Soprou o vento de Oyá
E Mojubá! de onde vem a gargalhada
Quando o Malvado chegou
A batucada parou
Deu meia-noite na cancela da morada
O macaco é outro
Salve o Dois de Ouro
Cidadão de um povo
Que insistia em brincar
Onde a Ciata amparava
E as escolas coroavam o Ererê
Que o tempo Quilombirá
E nunca esquecer de quem fez parte
Transformou a nossa arte
Pra eternizar
Pula a fogueira, yayá,
io io, Yayá
Alô, alô, ao lord imortal
Getúlio Marinho sempre será
Um amor de carnaval
Samborê, samborê pemba, ô Ganga
Bate palma que a macumba começou
Não há demanda que segure o meu samba
Sou União da Ilha do Governador
Porto da Pedra
A obra será o hino para contar o enredo "Porto Kalunga", desenvolvido pelos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini. O samba vencedor destaca a ancestralidade, a cultura angolana e a conexão entre Brasil e Angola, trazendo referências a Luanda, Catumbela, Benguela e Lobito, além de homenagear grandes nomes da música brasileira, como Martinho da Vila, Caymmi, João Nogueira e Djavan.
Conheça o refrão:
Forte feito macumba, enverga e não quebra!
O meu povo é liberdade, união de samba e pemba
O Tigre é feito no semba!





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