Rio - Zeze Polessa estrela o musical "Olhos de Nara Leão", em cartaz no Teatro Clara Nunes, na Zona Sul, até o próximo domingo (26). O espetáculo faz um mergulho sensível e político na trajetória da cantora que continua sendo uma das vozes mais marcantes da música brasileira mesmo 37 anos após sua morte. A veterana revisita o contexto histórico, social e cultural que atravessou a carreira da artista em um formato que foge das biografias tradicionais.
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Ao relembrar o início do processo, Zeze destaca que o que mais a impactou foi a postura artística de Nara Leão. "Me tocou muito a liberdade com que ela buscava caminhos novos da música, ela viajava naquele Brasil para ouvir a música, para conhecer a música. O último projeto que ela queria fazer era um disco com música indígena, isso em 88", conta a atriz.
O musical chegou ao palco carioca 60 anos após o lançamento de "A Banda", canção interpretada por Nara ao lado de Chico Buarque no II Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record. A música dividiu o primeiro lugar com "Disparada", de Jair Rodrigues, tornando-se um fenômeno de popularidade.
O espetáculo nasceu também do impacto que a obra de Nara provocou em Zeze. A artista, que cresceu ouvindo a cantora, decidiu se aprofundar durante a pandemia na carreira dela. "A gente estava passando por aquela situação toda de um presidente antivacina, que atacava os artistas e acabou com o Ministério da Cultura. Nara teve uma vida criativa na década de 60, 70 e 80, o tempo inteiro sob uma ditadura militar. Achei que seria interessante falar de toda essa história que ela viveu muito ativamente".
A veterana de de 72 anos ampliou sua pesquisa com entrevistas e livros sobre o período e se deparou com uma artista inquieta e em constante transformação. "Me tocou muito a liberdade com que ela buscava caminhos novos da música, ela viajava naquele Brasil para ouvir e conhecer a música. O último projeto dela que ela queria fazer era um disco com música indígena, isso em 1988", recorda.
A dramaturgia do espetáculo leva a assinatura de Miguel Falabella, parceiro antigo da atriz e com quem ela teve uma conversa informal sobre o desejo de interpretar Nara. "Ele tinha saído da Globo, eu ainda não, e estava fazendo uma série para Disney. Falei que tinha vontade de fazer alguma coisa sobre ela, mas não sabia como e ele disse 'eu faço por você'. Acho que foi uma coisa de amigo, mas que depois foi levada adiante por uma relação profissional que a gente tem", afirma.
O resultado é uma biografia que foge do formato tradicional. "A peça é a Nara morta, que vem ao teatro como se estivesse vindo do futuro para contar e reviver as coisas que ela viveu e cantar. Não é uma coisa cronológica, é um fluxo de consciência, ela é tomada pelas vivências e vai falando e cantando", explica.
Zeze também destaca o posicionamento firme de Nara ao longo da carreira, mesmo diante de críticas. "Ela tinha uma segurança quando escolhia uma coisa, 'eu quero fazer um disco só com músicas de Roberto e Erasmo' e caíram de pau em cima dela, mas ela falou 'eu vou gravar porque as músicas são belíssimas e temas que interessam para todo mundo'".
Segundo a atriz, a cantora conseguia se posicionar sem abrir mão da delicadeza. "Ela foi uma mulher que tinha uma atitude também de combater e de falar mas tudo, assim, com muita calma, né? Passava uma segurança muito grande, sem perder a linha e sem se expor demais. Era docemente contundente. Isso também eu achei muito bom de falar", analisa.
Outro ponto da montagem é a discussão sobre o papel da mulher na música brasileira. Nara enfrentou um ambiente hostil desde o início da carreira. "A Bossa Nova era um ambiente extremamente masculino e machista. Ela que promoveu as reuniões de Bossa Nova e que recebia as pessoas com aquele charme de Copacabana no apartamento dela de frente para o mar. E só gravou um disco de Bossa Nova quando estava no exílio na França", destaca Zeze.
A intensidade da trajetória de Nara também chama atenção da atriz. "Com 27 anos de carreira, ela gravou 25 discos. É pequena em números porque, se você pensar, ela é da geração de Caetano e de Paulinho da Viola que estão aí. Mas ela gravava uma média de dois discos por ano e participava dos discos de outros músicos contemporâneos ali da turma".
Além da pesquisa e da construção da personagem, o projeto também exigiu de Zeze um preparo técnico no campo musical. "Diz que fui por aí", "Corcovado", "Opinião" e "Acender as Velas" são algumas das faixas presentes no espetáculo. "Tive que me preparar toda para voltar a cantar, não são músicas fáceis, principalmente as da Bossa Nova, são difíceis de afinação. Não fazia sentido ter uma banda aí chamamos um diretor musical, que é o Gilmar Carneiro, e ele criou arranjos novos", destaca.
Em cartaz há dois anos, a montagem vem conquistando o público por onde passa, reunindo admiradores antigos e a nova geração interessada em conhecer a obra de Nara Leão. "Estou muito feliz, as pessoas gostam muito. Tem gente que não conhece, tem gente que conheceu mas que não revisitava há muito tempo, tem quem não conheceu, que nunca tinha ouvido falar...Então é muito bonito. É um trabalho que me deu muita satisfação e prazer de fazer".
Zeze sinaliza que, mesmo com o sucesso, o trabalho caminha para a conclusão. "Agora eu vou encerrar pelo menos essa fase. Quero fazer outra coisa porque os trabalhos você faz por um motivo...Você dá coisas suas pra eles e eles te dão coisas. Aquela relação também se satisfaz, né? Daí eu tenho vontade de fazer outra coisa", revela.
Serviço
"Os Olhos de Nara Leão" Temporada: até 26 de abril Sexta e sábado, às 20h; domingo, às 19h Local: Teatro Clara Nunes - Shopping da Gávea Endereço: Rua Marquês de São Vicente, 52 - Gávea Ingressos: R$70 (meia-entrada)