Rio - No ar na novela "A Nobreza do Amor", da TV Globo, e em cartaz aos domingos no Teatro dos 4 com o solo "Dona Lola", Marcelo Médice mostra sua versatilidade e celebra mais de três décadas de trajetória profissional com personagens que equilibram humor ácido e emoção.
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"Jornada dupla: novela e teatro. Eu sempre digo que não vou fazer de novo, porque as gravações estão bem pesadas dessa novela linda, que muito me orgulha. Mas eu acabo não cumprindo essa promessa e volto ao teatro. Desta vez, para ficar menos corrido, estou fazendo a peça só aos domingos", afirma.
Na televisão, Marcelo surpreende ao vestir a batina do padre Viriato, um personagem que foge do perfil tradicional. Ranzinza, impaciente e com um humor afiado, ele vive em conflito com os fiéis de Barro Preto e enfrenta uma convivência nada tranquila na pensão onde mora.
No local, divide o espaço com a sobrinha Belmira (Raissa Xavier), a órfã Rita (Julia Salarini), e com a dona da pensão, papel de Carol Badra. Para completar, o ator também interpreta o irmão gêmeo de Viriato, o que amplia os conflitos e traz novas situações para a história.
"Estou adorando fazer os personagens gêmeos. É bem trabalhoso, mas é um exercício de ator incrível, algo que é muito difícil de acontecer na TV, porque é raro você interpretar mais de um personagem em uma mesma obra televisiva. Isso é mais comum no teatro. E estou adorando, porque é uma brincadeira que já fiz muito no teatro, personagens que se disfarçam, que fingem ser outros. Mas irmãos gêmeos é um clássico da telenovela brasileira", comenta.
Se na TV ele se divide entre dois personagens, no teatro, o ator aposta em uma história mais pessoal. Em "Dona Lola", dirigido por Ricardo Rathsam, Médici transforma lembranças da família em uma comédia sobre afeto, tempo e envelhecimento. Em cena, ele vive uma senhora que se torna influenciadora digital sem querer, a partir dos vídeos publicados pela neta.
"Olha, eu diria que Dona Lola é uma comédia amorosa. Recebi algumas críticas nesse sentido e, no começo, não entendia muito bem, mas depois percebi que, como é uma peça construída a partir do afeto, faz sentido defini-la como uma comédia do afeto", analisa.
A personagem nasceu de memórias afetivas, principalmente da relação dele com a avó, que dá nome à produção. "Durante os ensaios, a personagem ganhou o nome Dona Lola; foi uma ideia do diretor e co-autor do texto, Ricardo Rathsam. Quando ele sugeriu isso, abriu-se um portal de lembranças. Eu não estou interpretando exatamente a minha avó, mas há muito dela na personagem, nas frases, nos gestos. Quem conheceu a minha avó sempre comenta que há muito dela ali, porque vem da convivência. Minha avó, inclusive, me criou", conta.
A peça mistura ficção e realidade, com histórias inspiradas em pessoas próximas ao ator. A montagem ainda conta com participações em 'off' de Tony Ramos e Antonio Fagundes, que dão voz às amigas da personagem. "Mistura ficção com histórias reais, então os nomes são das irmãs da minha avó, minhas tias-avós, e há personagens ali. Por exemplo, a tia Alice, que é real. Ela é citada na peça e chega até a aparecer em uma cena. No geral, não é exatamente o texto que está sendo dito que é fiel à realidade, mas muitas das histórias são reais. Costumo brincar que as mais absurdas são justamente as verdadeiras".
Mesmo com humor, "Dona Lola" traz uma mensagem direta sobre o envelhecimento, tratado de forma leve e positiva. "Só não envelhece quem morre, então o envelhecimento precisa ser visto de forma positiva, como uma experiência valiosa. Não quis fazer um espetáculo focado na degradação ou apenas nos aspectos negativos, até porque eu também estou envelhecendo. A proposta foi mostrar que envelhecer faz parte da vida: significa ter mais histórias, mais vivências, mais lembranças, boas e ruins, para compartilhar".
Ao completar 36 anos de carreira, Marcelo Médici olha para o caminho que construiu com orgulho e consciência dos desafios. "Eu tinha tudo para não continuar na profissão. Não sou galã, não fui para a televisão muito cedo e demorei para me sentir um pouco mais estável na profissão, e falo 'um pouco' porque não existe estabilidade nessa profissão de ator, ela é um eterno recomeço. Mas hoje em dia eu fico muito feliz em olhar para a minha trajetória, tenho orgulho dela".
Serviço
'Dona Lola' Até 26 de abril Domingos, às 17h Local: Teatro do 4 Endereço: Rua Marquês de São Vicente, 52 - 2° piso - Gávea Ingressos: a partir de R$ 70